O Terminal Multimodal de Granja do Ulmeiro – Alfarelos já movimenta carga, mas o presidente da Câmara Municipal de Soure quer que seja o ponto de partida para algo mais: novas ligações regulares, empresas e emprego qualificado. Na véspera da I Conferência Ibérica de Intermodalidade, Rui Fernandes fala dos investimentos nas acessibilidades, das condições necessárias para o terminal ganhar escala e do que espera que resulte do encontro entre os protagonistas da logística portuguesa e espanhola.
Depois de ouvir António Nabo Martins, diretor-geral da APAT, sobre as condições necessárias para tornar a intermodalidade competitiva, e Juan Manuel Martínez Mourín, presidente da AET, sobre os desafios de construir um sistema logístico ibérico, a Supply Chain Magazine termina esta série de entrevistas em Soure, com a organização da I Conferência Ibérica de Intermodalidade.
O encontro decorre amanhã, 15 de setembro, no Terminal Multimodal de Granja do Ulmeiro – Alfarelos, sob o mote «Conectando corredores, portos, ferrovia e rodovia para uma Península Ibérica mais competitiva».
Para Rui Fernandes, presidente da Câmara Municipal de Soure, acolher a conferência é também uma forma de mostrar que o terminal já tem operação e clientes, mas precisa de melhores acessos e de uma estratégia que transforme essa atividade numa oportunidade para o território. O município quer atrair novos fluxos de carga e investimento, sem fazer de Alfarelos e da Granja do Ulmeiro um mero corredor de passagem de tráfego pesado.
SCM – Que importância tem atualmente o Terminal Multimodal de Granja do Ulmeiro – Alfarelos para a economia de Soure e da região? Que dimensão já atingiu a sua operação?
Rui Fernandes – O terminal é hoje um dos ativos estratégicos de Soure e, diria mesmo, um dos que têm maior potencial de transformação económica do concelho.
Já existe uma operação relevante de transbordo multimodal de carga, com ligações ao Porto da Figueira da Foz e a operadores de referência. Não estamos, portanto, a falar de uma infraestrutura meramente projetada para o futuro: há uma operação real, empresas que a utilizam e uma cadeia logística que já passa pela Granja do Ulmeiro e por Alfarelos.
Mas a nossa ambição é maior. Vemos neste terminal a possibilidade de transformar uma infraestrutura que já funciona num verdadeiro nó logístico regional, aproveitando uma localização ferroviária singular, no cruzamento da Linha do Norte com o Ramal de Alfarelos e com ligação à Linha do Oeste.
É por isso que o terminal tem um lugar concreto na estratégia do executivo municipal: queremos que o eixo Granja do Ulmeiro-Alfarelos seja uma área de especialização territorial em torno da ferrovia, da nova mobilidade e da logística.
O terminal está associado a operações que envolvem o Porto da Figueira da Foz e empresas como a IKEA e a Colep. Que potencial existe para captar novos fluxos de carga, operadores e ligações regulares?
Existe um potencial muito significativo. É precisamente aqui que a palavra «intermodalidade» ganha todo o sentido.
O objetivo não é simplesmente trazer mais camiões ou mais comboios para Alfarelos. É articular de forma mais eficiente ferrovia, rodovia e portos, oferecendo às empresas uma solução logística competitiva, previsível e sustentável.
O facto de já existirem fluxos associados ao Porto da Figueira da Foz e a empresas como a IKEA e a Colep demonstra que o modelo funciona. O desafio seguinte é ganhar escala, diversificar cargas, atrair novos operadores e, sobretudo, criar condições para ligações regulares que tornem o terminal uma opção natural para empresas que operam em Portugal e em Espanha.
Alfarelos está no centro de Portugal, numa posição de articulação entre diferentes corredores ferroviários e com acesso à rede rodoviária nacional. A infraestrutura ferroviária está também a ser preparada para responder melhor ao transporte de mercadorias, designadamente através da criação de condições para comboios de 750 metros.
Vejo, por isso, potencial não apenas para crescer no mercado português, mas também para aprofundar a ligação logística entre Portugal e Espanha. É essa visão que queremos trazer à Conferência Ibérica.
Quais são as principais limitações ao crescimento do terminal? Que investimentos estão previstos e existe um horizonte temporal para a sua concretização?
Há duas dimensões que temos de olhar em conjunto: a capacidade ferroviária e a acessibilidade rodoviária ao terminal.
Não basta ter capacidade para movimentar mercadorias se o acesso rodoviário não for suficientemente eficiente ou se a infraestrutura ferroviária apresentar constrangimentos à circulação de composições de maior dimensão.
Nesse sentido, há razões para estarmos mais otimistas. Está em curso a intervenção da Infraestruturas de Portugal relativa ao acesso ao Terminal Ferroviário de Alfarelos, através da EN341, que inclui uma passagem inferior rodoviária, um viaduto e uma variante de ligação à EN347.
Na componente ferroviária, estão previstas intervenções na estação de Alfarelos – Granja do Ulmeiro, incluindo três novas linhas preparadas para comboios de mercadorias até 750 metros. O investimento global das intervenções complementares no troço Alfarelos–Pampilhosa ascende a cerca de 29,7 milhões de euros.
São investimentos concretos que deverão melhorar significativamente as condições de operação. Quanto aos prazos, prefiro ser rigoroso e não criar expectativas com datas que não dependem do Município. O que podemos afirmar é que há obra em curso e uma programação de investimento ferroviário e rodoviário que deve ser concretizada. O papel do Município será acompanhar, pressionar e garantir que estas intervenções respondem às necessidades do território e da operação logística.
Soure beneficia de uma localização central e de ligações ferroviárias importantes, mas compete com outros polos logísticos nacionais. Qual é a proposta de valor específica do terminal?
A proposta de valor de Alfarelos não pode assentar apenas na ideia de que estamos «no centro do país». Isso, por si só, não chega. A nossa vantagem está na combinação de fatores: localização central, cruzamento de diferentes eixos ferroviários, proximidade de importantes infraestruturas rodoviárias, ligação aos portos e, sobretudo, a existência de um terminal que já tem operação e clientes.
Mas há outra dimensão que considero importante: a nossa proposta de valor não é apenas a do terminal. É a do território envolvente. O terminal é o ponto de partida, não o ponto de chegada.
Prevemos desenvolver o eixo Alfarelos–Granja do Ulmeiro como espaço de especialização em torno da ferrovia, da mobilidade e da logística, melhorar a ligação ao terminal e criar condições para o aparecimento de novas unidades de negócio complementares.
É essa visão de ecossistema que pode fazer a diferença: não queremos apenas um terminal maior; queremos um território mais competitivo à sua volta.
Como pode o município atrair investimento e gerar emprego qualificado em torno do terminal, conciliando esse crescimento com as necessidades das populações?
O Município não vai substituir os operadores privados, nem deve fazê-lo. O nosso papel é criar condições para que o investimento aconteça. Isso passa por melhorar acessibilidades, ordenar o território, disponibilizar áreas adequadas para atividades económicas, reduzir constrangimentos administrativos e trabalhar em articulação com as entidades responsáveis pelas infraestruturas ferroviárias e rodoviárias.
Prevemos desenvolver uma Área de Localização Empresarial ancorada na A1/IC2 e, especificamente na Granja do Ulmeiro, melhorar a interligação com a plataforma logística, potenciando novas unidades de negócio complementares.
Mas há uma condição essencial: o desenvolvimento económico tem de ser compatível com a qualidade de vida das populações. Não queremos transformar Alfarelos ou a Granja do Ulmeiro num simples corredor de passagem de tráfego pesado. Queremos criar atividade económica, emprego e investimento, mas com planeamento, acessibilidades adequadas, sustentabilidade ambiental e integração territorial.
A logística moderna cria emprego não apenas operacional, mas também nas áreas da gestão, tecnologia, engenharia, comércio internacional, transportes e gestão de cadeias de abastecimento. Isso pode representar novas oportunidades para os jovens do território.
O que gostaria que esta primeira conferência ibérica deixasse como resultado concreto para Soure?
Gostaria que deixasse maior visibilidade, novos compromissos, investimento e atração de operadores. Mas, sobretudo, que deixasse relações e compromissos concretos.
Não organizámos esta conferência para falar de Soure para Soure. Organizámo-la para trazer cá os principais protagonistas da logística, dos transportes, dos portos e da ferrovia de Portugal e Espanha e colocar o Terminal de Granja do Ulmeiro – Alfarelos no centro dessa discussão.
Queremos que, no final, haja empresas que tenham identificado oportunidades, operadores que conheçam melhor o terminal e entidades públicas que compreendam os constrangimentos que ainda temos de resolver. E, sobretudo, queremos que surjam conversas capazes de se transformar em projetos e investimentos.
A conferência é também uma afirmação política: Soure quer estar na discussão sobre o futuro da logística ibérica, não quer apenas assistir a essa discussão.
Se pudesse desbloquear amanhã uma única decisão para acelerar a intermodalidade na Península Ibérica, qual seria?
Escolheria colocar a intermodalidade no centro das decisões de investimento em infraestruturas e garantir uma verdadeira articulação entre ferrovia, rodovia e portos, dos dois lados da fronteira.
Temos excelentes infraestruturas em vários pontos da Península, mas muitas vezes pensamos nelas de forma demasiado isolada. Um porto sem boas ligações ferroviárias não consegue explorar todo o seu potencial. Uma linha ferroviária sem terminais eficientes também não. E um terminal sem acessibilidades rodoviárias adequadas perde competitividade. Precisamos de pensar a rede como uma única cadeia logística, não como um conjunto de infraestruturas autónomas.
Se tivesse de concretizar essa decisão amanhã, diria: definir e executar um plano ibérico para eliminar os principais estrangulamentos à circulação ferroviária de mercadorias e garantir ligações regulares entre os grandes portos, os terminais multimodais e os principais mercados da Península.
É essa mudança de escala que queremos provocar com a conferência. Porque a intermodalidade não é apenas uma questão de transportes. É uma questão de competitividade económica, de coesão territorial e de futuro.


