O acordo provisório entre os Estados Unidos e o Irão permitiu retomar a navegação no Estreito de Ormuz, mas a circulação permanece muito abaixo dos níveis anteriores ao conflito. Riscos de segurança, rotas limitadas e a cautela dos armadores deverão prolongar a recuperação dos fluxos de contentores com origem ou destino nos países do Golfo.
O Estreito de Ormuz está tecnicamente aberto à navegação desde meados de junho, mas a passagem de navios continua longe de estar normalizada. A conclusão é de uma análise da Freightos, que antecipa uma recuperação lenta dos fluxos marítimos, sobretudo no transporte de contentores, apesar da redução recente dos preços do petróleo e dos combustíveis marítimos.
A 18 de junho, os Estados Unidos e o Irão assinaram um memorando de entendimento destinado a terminar o conflito e a reabrir o Estreito de Ormuz, que se encontrava efetivamente encerrado desde 28 de fevereiro. A existência do acordo e a retoma gradual dos fluxos são também referidas pela Energy Information Administration (EIA), a entidade oficial norte-americana de informação energética.
Contudo, a reabertura formal não significa que estejam restabelecidas as condições normais de circulação. Segundo a Freightos, os navios continuam limitados a corredores estreitos junto às costas do Irão e de Omã, enquanto persistem riscos associados a minas, ataques, abordagens e sucessivas alterações das condições de segurança.
O Joint Maritime Information Center, estrutura associada à UK Maritime Trade Operations, confirmou a 18 de junho o fim do bloqueio, mas manteve recomendações e procedimentos específicos para os navios que transitam na região. No início de julho, os avisos oficiais continuavam a alertar para abordagens, monitorização e verificações junto ao Estreito.
No final de junho, a Organização Marítima Internacional (IMO) lançou um plano coordenado com os Estados costeiros e a indústria marítima para retirar da região do Golfo os navios e os cerca de 11 mil marítimos que ali permaneciam retidos. Os primeiros trânsitos ao abrigo do mecanismo ocorreram a 24 de junho.
A operação foi, porém, suspensa a 25 de junho, na sequência de um ataque no Golfo de Omã contra um porta-contentores que tinha atravessado o Estreito de Ormuz fora do mecanismo de evacuação organizado pela IMO. De acordo com os dados divulgados pela organização e pelas Nações Unidas, 115 navios e cerca de 2.500 marítimos saíram do Golfo nos primeiros dias da operação.
A IMO estima que cerca de 20 mil marítimos, trabalhadores portuários e profissionais de operações offshore continuam afetados pela situação regional.
A estrutura jurídica do Estreito continua igualmente no centro das tensões. A Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar estabelece o direito de passagem em trânsito através dos estreitos utilizados para navegação internacional. O Irão assinou a convenção em 1982, mas nunca a ratificou, segundo o registo oficial de tratados das Nações Unidas, e reivindica o direito de regular o tráfego na via navegável, aconselhando os navios a transitar pelo corredor norte, em coordenação com a autoridade que criou para o efeito.
Contentores continuam a recorrer a portos alternativos
Do ponto de vista operacional, o encerramento do Estreito não paralisou o mercado mundial de transporte marítimo de contentores, mas teve um impacto significativo nas ligações aos países do Golfo.
A Freightos refere que a maioria dos navios que retomaram a circulação são petroleiros. Alguns porta-contentores conseguiram sair do Golfo desde o início do cessar-fogo, mas o número de navios que entrou na região continua reduzido.
Os carregadores mantêm, por isso, o recurso a portos alternativos nos Emirados Árabes Unidos, Omã e Arábia Saudita, complementados por transporte rodoviário, frequentemente ao longo de distâncias elevadas. Estas soluções têm provocado atrasos e custos adicionais, sem que se observe ainda uma recuperação significativa dos fluxos de contentores para o Golfo.
Mesmo quando as condições de segurança estabilizarem, a Freightos considera provável que os transportadores marítimos retomem primeiro serviços feeder, ou seja, ligações regionais de menor dimensão que alimentam os grandes portos de transbordo, evitando escalas diretas de longo curso até existir maior confiança na segurança e previsibilidade da rota.
Combustível pressionou os fretes marítimos
Embora o impacto operacional tenha ficado concentrado no Golfo, o encerramento do Estreito teve consequências mais amplas no mercado de transporte de contentores através do aumento dos custos energéticos.
Segundo a mesma fonte, as sobretaxas de emergência relacionadas com o combustível contribuíram para um aumento de cerca de 1.000 dólares por FEU (Forty-foot Equivalent Unit, a unidade equivalente a um contentor de 40 pés) nas rotas transpacíficas durante os primeiros dois meses do conflito, o equivalente a uma subida próxima de 50%.
A expectativa de novos agravamentos dos fatores de ajustamento de combustível, a partir de julho, terá também contribuído para antecipar a procura da época alta. Desde o final de maio, as tarifas nas rotas transpacíficas e entre a Ásia e a Europa aumentaram entre 3.000 e 4.000 dólares por FEU, de acordo com a plataforma de benchmarking de fretes.
Entretanto, o preço do petróleo começou a recuar. A EIA indica que o Brent registou uma média de 85 dólares por barril em junho, menos 22 dólares do que em maio e menos 32 dólares face ao pico registado em abril. A 1 de julho, o preço diário do Brent caiu mesmo abaixo dos 70 dólares por barril, um nível próximo do registado no arranque do conflito, no final de fevereiro.
A entidade norte-americana prevê agora que o Brent se situe, em média, nos 74 dólares por barril durante o terceiro trimestre de 2026, à medida que a oferta global aumenta e os fluxos através do Estreito recuperam gradualmente.
A Freightos considera que a normalização dos preços do petróleo e do bunker poderá exercer pressão descendente sobre os fretes marítimos quando terminar o atual pico de procura, aproximando as tarifas dos níveis anteriores ao conflito ainda antes do final do ano.
Já a recuperação dos fluxos regulares de contentores para os países do Golfo deverá ser mais demorada. A crise está também a levar vários países da região a ponderar novos investimentos em portos, corredores terrestres e infraestruturas alternativas, com o objetivo de reduzir a dependência futura do Estreito de Ormuz.
FOTOGRAFIA: Mapa gerado com recurso a IA


