O memorando de entendimento entre os Estados Unidos e o Irão, assinado eletronicamente esta semana pelos presidentes Donald Trump e Massoud Pezeshkian, prevê a reabertura do Estreito de Ormuz à navegação comercial, mas operadores marítimos e agentes de navegação avisam que a normalização de rotas, capacidade e preços de frete vai demorar meses a normalizar.
O Irão compromete-se a garantir a passagem de navios comerciais sem custos, mas apenas durante 60 dias, entre o Golfo Pérsico e o Mar de Omã; o tráfego retoma de imediato e fica totalmente restabelecido no prazo de 30 dias, depois de o estreito ser desminado. A garantia de passagem gratuita, no entanto, não é permanente: o chefe da equipa negocial iraniana, Mohammad Bagher Ghalibaf, deixou claro que o estreito “não regressará à situação pré-guerra” e que “O Irão tem um direito soberano sobre Ormuz”. Ou seja, é provável que surja uma taxa de passagem a partir do momento em que termine a janela de 60 dias, algo que os operadores europeus devem acompanhar de perto nos próximos contratos de frete.
O conflito, iniciado a 28 de fevereiro com ataques dos Estados Unidos da América e de Israel ao Irão, levou ao encerramento praticamente total de Ormuz, somando-se a uma rota já fragilizada desde 2023-2024 pelos ataques dos huthis no Mar Vermelho. As taxas de transporte de contentores chegaram a quadruplicar em algumas rotas, por via dos prémios de seguro contra risco de guerra e das sobretaxas de combustível, obrigando armadores como a CMA CGM, a Maersk, a MSC ou a Hapag-Lloyd a redesenhar rotas e a aumentar o recurso ao Cabo da Boa Esperança.
As partes têm agora 60 dias para negociar o acordo final, que inclui o levantamento de sanções, a libertação de fundos iranianos congelados, derrogações do Tesouro dos EUA para exportação de petróleo bruto iraniano e serviços associados (banca, seguros, transporte), e um plano de reconstrução de pelo menos 300 mil milhões de dólares para o Irão. Para os profissionais de supply chain, os pontos a vigiar nos próximos meses são três: a evolução das sobretaxas de combustível e de risco de guerra nos próximos contratos de frete, o ritmo real de regresso dos navios a Ormuz (operadores como a Mitsui O.S.K. Lines já avisaram que só vão retomar o trânsito quando tiverem confiança de que o acordo é sólido), e a possível introdução de uma taxa iraniana de passagem, que poderá tornar-se um novo custo estrutural nas rotas energéticas a partir do Golfo Pérsico.
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