São tempos de mudança, e foi precisamente a mudança que fez com que a Supply Chain Magazine desse um novo passo, e não podendo reunir fisicamente os profissionais, replicou o que tantas e tantas empresas estão a fazer como resposta à pandemia: adaptação e inovação. A SCM Conference migrou temporariamente para o online, dando origem à SCM Digital Conference, com e para os profissionais do sector da logística e supply chain, sem perder de vista a qualidade, a actualidade e a excelência dos profissionais e dos temas em debate, como se de uma conferência ao vivo e a cores se tratasse.
Após um primeiro dia a experimentar um novo terreno com alguns percalços, o segundo prometeu surpreender ainda mais. Foram 16 oradores que marcaram o segundo dia da SCM Digital Conference, mantendo como tópico de debate “Construindo a Supply Chain do Futuro”, e que muito se debruçou sobre o tema da actualidade: Covid-19. Desde problemas, soluções, planos alternativos, tecnologia, segurança, muitos foram os temas abordados pelos profissionais que aceitaram o desafio de online fazer uma verdadeira conferência, partilhando pontos de vista, experiências, sucessos e dificuldades.
Para quem não conseguiu estar presente, desta vez não fomos até à Nova SBE – mas a Nova SBE veio até nós -, e estivemos todos juntos, tanto de forma física como digital, em casa dos profissionais. Parece confuso, mas aconteceu. Com o recurso à plataforma digital da CDNTV foi possível transmitir a gravação em tempo real com os oradores presentes no conforto de sua casa através de uma vídeo-chamada e, por parte da Supply Chain Magazine, Filipe Barros e Dora Assis subiram para o palco em corpo inteiro. Uma solução “figital”.
Vamos então rever alguns dos momentos altos do segundo dia.
A abrir, Eurico Brilhante Dias, Secretário de Estado da Internacionalização, começa pelo foco da questão: a importância da logística. Conta que foi precisamente esta que o levou ao cargo que hoje tem, que lhe trouxe o gosto pela internacionalização, pelas exportações e pelo comércio internacional. Destaca que é graças a ela que tudo está a acontecer e a acontecer no país. Defende ainda que apesar dos problemas que causou, também devemos encarar positivamente esta situação e estarmos atentos às oportunidades que esta pandemia pode trazer para o país.
Trouxe a debate três tópicos principais: A pandemia; as respostas logísticas e os sectores que têm maior fragilidade na altura da pandemia; e a reconstrução das cadeias de valor.
Ao longo do seu discurso lembrou como a logística foi uma das responsáveis pela tranquilização da população, pois rapidamente repôs os stocks nas prateleiras quando os consumidores procuraram impulsivamente determinados produtos.
Eurico Brilhante Dias também referiu que a pandemia pôs em evidência a dependência que temos dos mercados externos relativamente a bens essenciais, como foi o caso recente das máscaras, mas que rapidamente respondemos a essa necessidade e começámos a produzir máscaras, viseiras e ventiladores, não só para responder à necessidade nacional, mas também permitindo avançar para a exportação, exemplificando com o caso recente do Brasil.
“Durante muitos anos, enquanto ensinei logística e gestão da cadeia de abastecimento, quase sempre comecei por dizer aos meus alunos que a logística é um tema muito aliciante, mas que normalmente só se dá pela logística quando as coisas correm mal: quando há uma falha, quando um produto não está na prateleira ou quando o serviço é interrompido de alguma forma.” – Eurico Brilhante Dias
Seguidamente, Francisco Rocha, Senior Service Delivery Manager da Capgemini, inicia a sua apresentação recordando onde a supply chain estava há um ano e como evoluiu o sector, procurando reflectir sobre os desafios e as tendências que as empresas enfrentam no seu percurso para a era digital.
Nesta análise verifica-se que as tecnologias 4.0 que se antecipavam ser diferenciadoras estão de facto a sê-lo, e são mais os casos de investimento das empresas nesta área como factor diferenciador para o seu desenvolvimento, como as tecnologias blockchain, machine learning, inteligência artificial, análise cognitiva, entre outras. “Sem grandes surpresas, concluímos que a tecnologia é o grande driver para poder chegar a esta transformação digital”, explica Francisco Rocha.
“Devemos industrializar mais ou (re)trazer a industrialização para a Europa” – Francisco Rocha
E com esta deixa do responsável da Capgemini vamos perceber como se encontram os profissionais “lá fora” e como vive e responde a supply chain à pandemia noutros países. Em directo na SCM Digital Conference, longe do seu país natal, três portugueses, Sandra Augusto, Logistics Manager South America da Volkswagen Brasil, Miguel Martins da Silva, Group Chief Supply Chain Officer da Dr. Max Pharmacy Chain Rep. Checa, e João Neves, Global Supply & Logistics Manager da Grandvision Netherlands, juntaram-se à audiência para falar sobre “Global Supply Chains, o que tem de mudar?”, sob a moderação de Pedro Caldeira, Professor da Nova School of Business & Economics.
Sandra Augusto começa por explicar que sentiu um impacto muito grande na cadeia de abastecimento. No início começaram por sentir a onda dos fornecedores da Ásia, quando os trabalhadores não retornaram das celebrações do ano novo chinês. “Começou a criar um grande nervosismo a toda a organização. Quando é que eles irão voltar? Como é que vamos reagir? Como é que vamos voltar a encher o pipeline?”, explica a responsável. Depois da China, a Europa começou a entrar em quarentena e muitos fornecedores da indústria automóvel tiveram de fechar, mas isso não os obrigou a parar a produção, o que lhes criou outro problema, perceber onde iriam armazenar tantos produtos.
“Percebemos o quão interligadas as cadeias estão. Não é o tier 1, muita vezes, mas quando começamos a olhar para o tier 2 e o tier 3 percebemos o quão longas as cadeias são.” – Sandra Augusto
Outro dos principais problemas foi a exposição cambial, uma questão não tão aplicável à situação vivida na Europa. O Brasil e a Argentina, sofreram uma grande quebra no valor das suas moedas, real e peso, respectivamente, então todos os custos relacionados com trocas internacionais aumentaram significativamente.
A Logistics Manager defende a tendência de procurar fornecedores mais próximos dos centros produtivos, em oposição à tendência que existia, e que tem sido bastante comum, desde economias de escala, compras centralizadas ou locais onde a produção é mais barata. “Todos esses paradigmas neste momento têm de ser reavaliados e equacionados”, comenta Sandra Augusto, revelando que faz parte do trabalho que se encontram a desenvolver na empresa.
Miguel Martins da Silva frisa que no início da pandemia houve algum pânico e as populações compraram de forma um pouco mais regular alguns medicamentos, e que a cadeia de abastecimento não estava preparada para fornecer os equipamentos de protecção nas quantidades necessárias e muitos sofreram grandes rupturas de stocks, mas defende que os distribuidores “responderam de forma exemplar”.
Ao nível do e-commerce, o responsável da empresa na República Checa conta que “a procura excedeu a oferta múltiplas vezes”, e em alguns países onde o tempo de entrega médio era de 24 horas, ou no próprio dia em serviços urgentes, chegaram a operar com entregas a nove dias. Ao fim de algumas semanas considera que o sector estabilizou, apesar dos maiores custos operacionais e da eficiência reduzida.
“Vamos assistir a uma muito rápida evolução da digitalização das empresas e do comércio electrónico, porque muitas das barreiras comportamentais caíram agora e as pessoas não vão voltar ao retalho tradicional da mesma forma” – Miguel Martins da Silva
Por sua vez, vindo dos Países Baixos, João Neves explica que ao contrário de muitas empresas que continuaram a produzir, a primeira medida que tomaram foi reajustar o potencial da procura às encomendas pendentes e negociar com os fornecedores quais as possibilidades de cancelamento de determinadas encomendas de modo a ajustarem-se à procura futura e passar a uma reorganização de sequência de encomendas.
A aposta no transporte marítimo como preferencial, com maiores lead times, foi outra medida tomada, bem como a utilização do armazém dos seus fornecedores para armazenar produto acabado e de outros armazéns intermédios entre a saída do produto e o destino final.
Por parte da SAS Portugal, João Pedro Canosa, Industry Leader for Retail & Supply Chain, fala de “Demand Planning em tempos de crise”, focando a importância dos forecasts e como eles podem antecipar problemas na cadeia de abastecimento através da análise de dados, explicando ainda como é feita a previsão com dados não existentes anteriormente.
Olhar para outros mercados, tendências, aumentos de vendas não previstos, eventos pontuais de grande escala, tudo isso tem impacto no momento da previsão, e poderá poupar imensos euros às empresas.
“A existência de mais dados influencia qualquer forecast” – João Pedro Canosa
A encerrar, houve um momento onde estiveram presentes nove oradores, divididos por três rondas e onde, sem bola de cristal, procuraram responder à pergunta: “E agora, como se constrói a Supply Chain do Futuro?”. Este momento de debate contou com Nuno Marques, Bruno Gil, Paulo Mestre, Helena Chinelo, António Lameira, António Marcelo, Cláudia Brito, Telmo Simão e Nuno Santos, e poderá ver com maior detalhe os temas abordados AQUI.
Nuno Fontes dizia no nosso evento, o ano passado, em Carcavelos, que cada um tem o seu Everest para escalar, e cada um sabe qual é o seu consoante as suas ambições, mas neste momento estamos todos a escalar um Everest comum, e o seu tamanho ainda é desconhecido. O que podemos fazer no entretanto é arranjar novas e melhores ferramentas para escalar o desconhecido, e estes espaços de debate e troca de experiências, visões e métodos de resolver problemas funcionam como a corda que prende o alpinista.



























