Os ataques aos sistemas de frio dos supermercados expõem uma dependência que atravessa a logística: equipamentos e serviços essenciais à operação estão ligados a sistemas geridos por terceiros. Uma nova análise da McKinsey ajuda a perceber por que razão a preparação exige mais do que defesas informáticas.
Quem pode alterar a temperatura de uma câmara frigorífica? Quem consegue aceder remotamente aos equipamentos de um armazém? E quem decide o que fazer se esses acessos forem usados para comprometer a operação?
Os recentes ataques aos sistemas de refrigeração de supermercados europeus deram consequências concretas a estas perguntas. Depois do episódio que obrigou centenas de lojas francesas a destruir alimentos, em outubro, foram confirmadas, em 2 de novembro, novas ocorrências em sete lojas Intermarché em Portugal.
O Grupo Mosqueteiros indicou que o ataque terá visado um prestador externo responsável pela gestão dos sistemas de refrigeração. Segundo informação da APED à Lusa, publicada pelo ECO, três lojas registaram perdas de produtos destinados a destruição. Os estabelecimentos mantiveram-se abertos e o grupo garantiu que o abastecimento não foi afetado e que estavam asseguradas as condições de higiene e segurança alimentar.
Da intrusão digital à perda de mercadoria
Uma análise da McKinsey enquadra o problema: a ligação crescente entre infraestruturas físicas e digitais permite que uma perturbação num fornecedor tecnológico se propague a operações e serviços de várias organizações.
O artigo, intitulado Critical infrastructure is under threat. Are organizations prepared?, baseia-se num inquérito a 122 organizações de vários setores e geografias, realizado no primeiro trimestre de 2026. Cerca de 90% identificam-se como parte de infraestruturas críticas. Os resultados não constituem, por isso, um retrato específico da logística ou das empresas portuguesas.
Entre os participantes, 98% dizem dispor de capacidades para gerir ameaças informáticas, enquanto 77% referem capacidades de proteção de infraestruturas físicas e equipamentos. A consultora identifica ainda responsabilidades fragmentadas entre funções e dependências concentradas: metade das organizações reporta relações muito concentradas com fornecedores de cloud ou software. Estes últimos dados referem-se a serviços tecnológicos em geral e não especificamente a fornecedores de refrigeração.
Para quem gere logística, a questão pode colocar-se numa câmara frigorífica, num sistema de gestão de armazém ou, por exemplo, numa plataforma que suporta a expedição. Importa perceber o que acontece à mercadoria e às entregas quando um desses serviços deixa de funcionar ou passa a executar instruções indevidas.
Quem conhece as dependências da operação?
O contrato pode estar nas compras, a ligação remota sob acompanhamento da informática e o equipamento entregue à manutenção. Na operação, o responsável pode receber apenas o alerta de que algo deixou de funcionar.
Este é um ponto a examinar na preparação das empresas: há alguém com uma visão completa do serviço, dos seus acessos e das consequências de uma interrupção? A identificação do fornecedor direto também pode ser insuficiente, se este recorrer a outras empresas para assegurar alojamento, software ou assistência técnica.
Aplicado a um armazém, este exercício começa por perguntas concretas. Que atividades dependem de uma ligação externa? Durante quanto tempo é possível receber e expedir sem ela? Existem procedimentos alternativos? Quem tem autoridade para suspender um acesso remoto e quem confirma que é seguro restabelecê-lo?
As respostas permitem discutir o risco em termos que a gestão da operação conhece: encomendas por preparar, capacidade perdida, stocks em risco e compromissos de entrega.
Num incidente com produtos perecíveis, a margem de resposta pode ser curta. Transferir mercadoria exige espaço disponível, transporte adequado, pessoas e informação sobre os lotes envolvidos. Decidir essas condições já durante a emergência acrescenta pressão a uma operação que pode estar a trabalhar com sistemas limitados.
Um exercício de continuidade pode, por exemplo, simular a indisponibilidade do controlo remoto do frio ou de um serviço necessário à expedição. Permite verificar se os contactos estão atualizados, se as responsabilidades são claras e se as alternativas previstas têm capacidade para responder.
Há também decisões que pertencem à contratação: que acessos são necessários, como são autorizados, quem assegura as atualizações e em que prazo o prestador comunica um incidente. Para as equipas de compras, avaliar um serviço crítico exige perceber quanto da operação ficará dependente dele.
Os ataques aos supermercados deixam uma pergunta para outros setores refletirem: se amanhã um prestador/fornecedor ficar indisponível ou tiver os seus sistemas comprometidos, a empresa sabe o que consegue continuar a fazer e durante quanto tempo?
FOTOGRAFIA: Ilustração conceptual gerada com IA


