Portugal tem localização, conhecimento e oportunidades de investimento mas, transformar esse potencial em vantagem competitiva, exige ligações que funcionem, decisões mais rápidas e pessoas bem preparadas. No segundo dia do congresso da Associação Portuguesa de Logística, os exemplos das empresas cruzaram-se com as propostas dos portos e as exigências das associações empresariais. “Estamos fartos de diagnósticos”, acabaria por resumir José Eduardo Carvalho, Presidente da AIP.

 

No primeiro dia, a pergunta tinha sido: quanto vale uma cadeia que não para? A dificuldade de justificar investimento em resiliência atravessou os debates, acompanhada de exemplos sobre proteção dos sistemas, automação e falta de instalações adequadas. No segundo dia, a discussão avançou para as condições que permitem concretizar essas escolhas. Construir capacidade, desenvolver tecnologia ou atrair interesse são etapas de um percurso que só fica completo quando a operação consegue verdadeiramente tirar partido delas.

Pedro Reis, ex-ministro da Economia do primeiro Governo de Luís Montenegro e vice-presidente do Conselho Consultivo Estratégico da CIMPOR Global, colocou essa exigência no centro da sua intervenção. “O tema não é um tema de diagnóstico, é um tema de execução”, afirmou, defendendo que Portugal pode encontrar oportunidades na reorganização das cadeias internacionais, desde que consiga responder às necessidades de quem investe.

A segurança do abastecimento, a diversificação de fornecedores e a localização de ativos em diferentes geografias estão, na sua leitura, a ganhar peso nas decisões empresariais. A energia tornou-se um fator estratégico e a aproximação da produção aos mercados abre espaço à captação de atividade. Para aproveitar esse movimento apontou à redução da burocracia, à fiscalidade, ao reforço da indústria e à previsibilidade das condições oferecidas às empresas.

Seria uma discussão com continuidade nas sessões seguintes: onde estão essas oportunidades e o que impede que se transformem em atividade económica?

 

Um porto cresce quando ajuda as empresas a crescer

Na mesa sobre os portos portugueses, moderada por Hermano Rodrigues, da EY-Parthenon, Fernando Cruz Gonçalves, da Escola Superior Náutica Infante D. Henrique, começou por introduzir uma cautela: uma rota alternativa pode resolver uma perturbação e criar outra dependência. “A oportunidade competitiva e a nova vulnerabilidade podem chegar na mesma via”, observou.

A capacidade anunciada por uma infraestrutura também pode ser diferente daquela que os seus utilizadores conseguem efetivamente aproveitar. As ligações ferroviárias e rodoviárias, os serviços de apoio e a existência de alternativas determinam quanto dessa capacidade chega às empresas.

Vítor Caldeirinha, presidente dos portos de Lisboa e Setúbal, alargou por isso a pergunta: as mudanças no comércio internacional são uma oportunidade para os portos ou para Portugal? A resposta depende da atração de indústrias, investimento e novas cadeias logísticas. Os portos têm de estar preparados para as servir, mas, sublinhou, “são necessários, mas não são suficientes”.

João Neves, presidente da APDL, colocou o foco nas empresas que utilizam Leixões. Melhorar a infraestrutura deve permitir reduzir a sua fatura logística e reforçar a capacidade de competir nos mercados internacionais. “Quando as empresas crescem, os portos também crescem”, resumiu.

O Porto Seco da Guarda foi apresentado como uma forma de aproximar Leixões das empresas do interior e da região espanhola próxima. O objetivo é que a entrega de um contentor na Guarda dê ao industrial acesso a uma solução integrada até ao destino.

Em Viana do Castelo, a ligação à indústria ganha outra expressão, com o desenvolvimento de condições para acolher atividades associadas à energia offshore. A proximidade entre produção e cais pode evitar a circulação rodoviária de componentes de grandes dimensões e os custos que lhe estão associados.

 

Quando a competitividade também passa pela habitação

Pedro do Ó Ramos, presidente da APS – Administração dos Portos de Sines e do Algarve, defendeu que a autoridade portuária deve assumir um papel cada vez mais ativo na articulação da comunidade e na procura de negócio.

A disponibilidade de espaço industrial e logístico junto ao porto é uma das vantagens que pretende aproveitar, numa oferta concertada com a aicep Global Parques. Mas o responsável quer acrescentar outras condições: defendeu a criação de uma zona franca de Sines, como instrumento para atrair empresas e estruturas logísticas e reforçar os fluxos de importação e exportação. A proposta surge depois da criação da Alfândega de Sines, que deverá entrar em funcionamento em janeiro de 2027, deixando de ser uma delegação da Alfândega de Setúbal.

O presidente da APS recuperou ainda uma questão ouvida na véspera: por que razão mercadorias da América Latina destinadas à Europa entram por Roterdão, apesar da localização de Sines? A resposta exige olhar para as ligações terrestres, os serviços e as condições oferecidas ao longo de todo o percurso.

Houve, porém, um anúncio que levou a discussão para além dos terminais. Pedro do Ó Ramos apresentou a intenção de investir entre 15 e 20 milhões de euros em habitação, para responder às dificuldades de alojamento que se verificam em Sines e que acabam por afetar a comunidade portuária.

“O Porto de Sines vai fazer casas?” A pergunta, que disse ter ouvido quando tomou a decisão, permitiu-lhe explicar a relação entre esse investimento e o funcionamento do porto. São necessários profissionais nos serviços aduaneiros, de inspeção e nas restantes atividades da comunidade, mas os custos da habitação dificultam a sua fixação. O exemplo tornou concreta uma dependência que nem sempre entra nas contas da capacidade portuária: para movimentar mais carga e captar empresas, é preciso conseguir alojar quem assegura a operação.

 

 

Da capacidade instalada à qualidade da decisão

A ligação entre investimento e necessidades do negócio esteve também presente nos casos empresariais. Rodrigo Fernandes, da Körber Supply Chain, apresentou o percurso desenvolvido com a JYSK para acompanhar a expansão das lojas, das referências e dos canais de venda. O projeto, iniciado na Bulgária, serviu de base a outros investimentos, com adaptações e evolução tecnológica, seguindo-se a Hungria e projetos nos Países Baixos e em Espanha.

A parceria entre as duas empresas permitiu replicar soluções à medida que a rede crescia, apoiada também pela engenharia e pela ampliação da capacidade de fabrico em Portugal. “O nosso crescimento só faz sentido se for impulsionado a resolver problemas dos nossos parceiros”, afirmou.

Mas, aumentar a capacidade física é apenas uma das respostas às exigências que podem ser colocadas pela operação. Outra, não menos importante, passa por aproveitar melhor os recursos disponíveis, revendo a distribuição do trabalho, os percursos e as decisões de abastecimento.

Foi esse o terreno explorado por Mário Maia, da Generix, e Mickael Carvalho, da Find & Order. A combinação de WMS, gémeo digital e inteligência artificial permite representar o armazém e testar alternativas antes de as executar. Alterar a localização dos produtos, agrupar pedidos ou atribuir tarefas em função da posição dos operadores pode reduzir deslocações e evitar congestionamentos. Para isso, o modelo precisa de conhecer os recursos, as suas limitações e o que está a acontecer na operação. É esse contexto que permite comparar escolhas e antecipar consequências. Perante a incerteza externa, “conseguimos decidir melhor e decidir mais rápido”, sintetizou o Country Manager da Generix.

A mesma preocupação surgiu no caso apresentado por Miguel Mamede, da MC Sonae, com a Miebach, desta vez a montante do armazém. Melhorar a previsão da procura tem efeitos nas compras, nos stocks e no dimensionamento dos recursos logísticos. Uma alteração na promoção de um produto ou nas condições meteorológicas pode repercutir-se ao longo de toda a cadeia.

Antes de escolher uma nova ferramenta, a MC Sonae identificou requisitos e ineficiências, consultou o mercado e realizou provas de conceito com cinco fornecedores. Nos testes, Miguel Mamede referiu ganhos de precisão entre 5% e 18% em categorias complexas, como os frescos. A solução selecionada permite considerar variáveis como a meteorologia e a canibalização entre produtos e aumentar a frequência das decisões.

“O grande valor não está em prever a procura, porque isso era algo que nós já fazíamos”, explicou. Está em compreender melhor as variáveis que a influenciam e alinhar o negócio com a cadeia de abastecimento.

 

Recolher os dados e mobilizar quem conhece a operação

Essa capacidade de compreender depende, desde logo, da informação que alimenta os sistemas. Na sessão CodeOne/Lyngsoe, Christian Meinhardt mostrou como a RFID e a captura automática de dados pode acompanhar a passagem dos produtos pelos pontos da operação, reduzindo a dependência de registos manuais. A escolha do local de recolha é determinante: é preciso registar o acontecimento onde ele ocorre e quando ocorre. Acrescentar ferramentas de análise, IA ou novos painéis de indicadores, pouco resolve se a informação de origem não for fiável.

Parte desse conhecimento encontra-se, porém, nas pessoas. Os CTT recuperaram no congresso o Postman Digital Brain, projeto distinguido nos Prémios de Excelência Logística e que a SCM já acompanhou na reportagem sobre os PEL 2026. A experiência dos carteiros alimenta o sistema, permitindo preservar e partilhar conhecimento que antes dependia de quem conhecia cada percurso. Paulo Silva destacou uma condição para a participação das equipas: o benefício tem de se tornar visível. Ensinar o sistema exige tempo, e a adesão cresce quando esse esforço facilita o trabalho seguinte. “Eles têm que ver o retorno”, afirmou.

O exemplo deu uma resposta prática à pergunta deixada por João Mateus, da Adecco: “Estamos a preparar pessoas para o futuro ou apenas a implementar tecnologia?”

O responsável defendeu maior participação dos trabalhadores no redesenho das funções, formação e acompanhamento. A automação pode reduzir a exigência física de algumas tarefas e tornar a logística mais atrativa, mas exige preparar competências de supervisão, análise e decisão. O acesso a essas competências deve também pesar na localização das operações, acrescentou. Uma preocupação que encontrava correspondência no anúncio de Pedro do Ó Ramos sobre habitação em Sines: atrair atividade implica criar condições para fixar quem a faz funcionar.

 

Eficiência também se constrói fora do armazém

A coordenação dos fluxos estende-se aos suportes que transportam os produtos e à energia que move os veículos. Na reutilização de embalagens e na eletrificação dos veículos, as apresentações mostraram como o resultado depende da organização de todo o circuito.

Lisa Freudenthaler, Sustainability Manager, do Euro Pool Group, recuou à origem dos sistemas de embalagens reutilizáveis: resolver a ineficiência provocada por caixas de diferentes dimensões, diferentes materiais e distintos requisitos de movimentação. A normalização permitiu organizar circuitos em que caixas e paletes regressam para recolha, lavagem ou reparação e nova utilização. A uniformidade dos suportes facilita também a sua passagem por operações automatizadas.

Essa infraestrutura demora anos a desenvolver e constitui, na leitura da responsável, uma vantagem perante as exigências do Regulamento de Embalagens e Resíduos de Embalagens, o PPWR. “Quando olhamos para o PPWR, não vemos uma disrupção; vemos uma validação”, afirmou.

Na eletrificação dos veículos pesados, a necessidade de articular infraestrutura e utilização apareceu de outra forma. Inês Granado, da Iberdrola | bp pulse, anunciou para o final de outubro um espaço de carregamento no Centro Logístico de Lisboa Norte, no Carregado, com tecnologia Megawatt Charging System.

A existência de carregadores abre possibilidades, mas o custo da operação depende das decisões tomadas ao longo da rota. Carlos Almeida, da EVIO, explicou como a escolha do posto, a potência que o veículo consegue aproveitar, a tarifa e a duração da paragem influenciam a fatura. Carregar até 100% pode ser desnecessário se bastar energia para chegar às instalações da empresa, onde o veículo voltará a carregar.

A paragem passa, assim, a fazer parte do planeamento logístico: onde carregar, durante quanto tempo e com que energia prosseguir. Tal como no armazém, os ganhos dependem de combinar informação, recursos e necessidades concretas da operação.

 

Uma globalização “mais prudente”

Na mesa “Da geopolítica à operação: a perspetiva das associações”, moderada por José Monteiro Limão, a discussão regressou à escala das empresas e à capacidade de suportar estas mudanças.

Rafael Alves da Rocha, da CIP, apontou escala, talento, inovação, tecnologia e investimento como prioridades para reforçar o tecido empresarial. José Eduardo Carvalho, da AIP, defendeu um papel mais ativo das associações na promoção de fusões e aquisições, na cooperação entre empresas e no apoio à internacionalização das PME. “Estamos fartos de diagnósticos”, afirmou.

José António Nogueira de Brito, da APED, preferiu falar numa “globalização mais prudente”, com maior atenção às alternativas e à segurança do abastecimento. Criar redundâncias, diversificar fornecedores e manter stocks de segurança tem custos, reconheceu, mas a resposta exige continuar a procurar produtividade.

“A eficiência é que já não pode deixar de contar com a gestão de risco”, defendeu. A frase retomou a discussão do primeiro dia e acrescentou-lhe a preocupação com as empresas de menor dimensão, que dispõem de menos recursos para acomodar esses investimentos.

A escala local trouxe um último exemplo. No encerramento, Mara Duarte, da Parques Tejo, apresentou a sensorização de lugares de cargas e descargas em Algés para conhecer ocupação, duração das paragens e disponibilidade. Gerir melhor o espaço existente pode reduzir tempo improdutivo e dar maior previsibilidade às entregas. “A competitividade de um território já não se mede apenas pela infraestrutura que disponibiliza, mas pela inteligência com que se utiliza”, afirmou.

Ana Esteves, vice-presidente da APLOG, encerrou o congresso com um apelo à continuidade dos contactos, das parcerias e dos projetos: “Nenhuma tecnologia cria valor sozinha”, sublinhou.

Dos grandes terminais à entrega numa rua de Algés, o congresso mostrou que a competitividade se decide em pontos muito concretos: na ligação ferroviária que funciona, na informação atualizada que chega a tempo e nas pessoas que sabem o que fazer com ela. Portugal tem muitas oportunidades à porta. Falta garantir que não ficam à espera de licença para entrar.