Neste artigo de opinião, Inês Barros, Marketing manager da SERES Portugal, reflete sobre como as circunstâncias atuais do mundo estão a transformar a função de compras. A volatilidade geopolítica, a urgência de critérios ESG e a digitalização acelerada fizeram com que o procurement transitasse de uma área de suporte reativa para um parceiro estratégico vital para a sobrevivência do negócio. E as empresas que mais rápido perceberem isto, estarão melhor preparadas para enfrentar desafios futuros.

Num contexto marcado pela volatilidade dos mercados, tensões geopolíticas, alterações regulamentares e crescentes exigências de sustentabilidade, a função de compras está a atravessar uma profunda transformação. Aquilo que durante décadas foi visto como uma área focada sobretudo na negociação de custos e na eficiência operacional assume, hoje, um papel muito mais estratégico: garantir resiliência, continuidade e criação de valor para as organizações. 

As recentes disrupções nas cadeias de fornecimento demonstraram que a eficiência, por si só, já não é suficiente. As empresas precisam de cadeias mais flexíveis, diversificadas e capazes de responder rapidamente a cenários inesperados. Neste novo paradigma, esta área deixa de atuar apenas como função de suporte e passa a ser um verdadeiro parceiro estratégico do negócio. 

Esta evolução implica repensar as estratégias de abastecimento. A dependência excessiva de determinados fornecedores ou geografias, muitas vezes escolhida em nome da redução de custos, revelou-se um risco significativo. Por isso, conceitos como diversificação de fornecedores, nearshoring ou dual sourcing ganharam relevância, permitindo reduzir vulnerabilidades e aumentar a capacidade de resposta. 

Em paralelo, a área das compras assume um papel essencial na identificação e antecipação de riscos. Pela proximidade ao mercado e pela relação contínua com fornecedores, encontra-se numa posição privilegiada para detetar sinais de alerta, desde alterações regulamentares a instabilidades geopolíticas ou problemas de abastecimento. A capacidade de antecipação tornou-se um fator diferenciador. 

Também a relação com fornecedores está a mudar. O modelo baseado exclusivamente no preço está a dar lugar a relações mais colaborativas, assentes em confiança, transparência e criação de valor. Num ambiente incerto, parceiros alinhados com os objetivos da organização tornam-se fundamentais para garantir continuidade e inovação. 

A digitalização está a acelerar esta transformação. A análise de dados, a automação e a Inteligência Artificial permitem tomar decisões mais informadas, identificar padrões, antecipar necessidades e transformar  informação em conhecimento estratégico. A função deixa progressivamente de ser reativa para assumir uma abordagem mais preditiva. 

A sustentabilidade reforça igualmente esta mudança. Critérios ambientais, sociais e de governação (ESG) passaram a integrar as decisões de seleção e gestão de fornecedores, tornando esta função numa área-chave para promover cadeias de valor mais responsáveis e preparadas para o futuro.

No final, o conceito de valor evoluiu. Já não se trata apenas de otimizar custos, mas de equilibrar custo, risco, sustentabilidade e continuidade operacional. 

Num mundo onde a incerteza se tornou uma constante, as organizações que reconhecem o papel estratégico desta função estarão melhor preparadas para enfrentar desafios, adaptar-se à mudança e construir uma vantagem competitiva sustentável.

Inês Barros, Marketing Manager | SERES Portugal