Num setor habituado a associar inovação a plataformas digitais, tracking em tempo real e automatização documental, Anabela Guerreiro, branch manager da Contemar, chama a atenção para uma transformação menos visível, mas mais profunda: a mudança no equilíbrio de poder no comércio internacional. Questiona o papel futuro dos transitários perante a crescente integração vertical dos grandes armadores e defende que a verdadeira diferenciação já não estará apenas na tecnologia, mas na capacidade de oferecer inteligência operacional, flexibilidade, neutralidade e resiliência num mercado cada vez mais concentrado.

Durante anos, o setor dos transitários e transportes internacionais habituou-se a associar inovação a tecnologia visível: plataformas digitais, tracking em tempo real, inteligência artificial, automatização documental ou dashboards cada vez mais sofisticados. Contudo, a transformação mais profunda do setor talvez esteja precisamente onde quase ninguém quer tocar. Não no software, na digitalização, nem sequer na inteligência artificial, mas na alteração silenciosa do equilíbrio de poder dentro do comércio internacional.

Enquanto o setor discutia inovação tecnológica, os grandes armadores estavam a redesenhar o controlo da cadeia logística global, e muitos transitários ainda não perceberam a impacto desta mudança. Nos últimos anos, o Shipping não se resume, como já é de entendimento geral, e muito tem sido discutido, a transporte marítimo.

Os principais armadores transformaram-se em poderosas plataformas logísticas integradas com capacidade financeira, tecnológica e operacional suficiente para controlar segmentos inteiros do comércio internacional. Hoje, os grandes players do shipping não querem apenas transporte marítimo, em sentido estrito, querem controlar terminais, distribuição, armazenagem, tramites aduaneiros, E-commerce, dados logísticos. visibilidade operacional, e, e acima de tudo, a relação direta com o cliente final.

O modelo, definitivamente, mudou.

O armador tradicional está progressivamente a tornar-se operador logístico global, enquanto muitos transitários continuam presos ao papel histórico de intermediários operacionais. A concentração do setor marítimo, vulgo (não declarado) monopólio, acelerou esta transformação. Meia dúzia de armadores controlam hoje uma fatia significativa da capacidade mundial de contentores, influenciando fretes, disponibilidade, prioridades operacionais e até fluxos comerciais internacionais. A pandemia expôs isso de forma brutal. O mercado percebeu que eficiência extrema sem redundância cria fragilidade sistémica, e que o poder real está em quem controla capacidade.

Neste contexto, a inovação deixou de ser apenas tecnológica, é agora estratégica. O verdadeiro desafio dos transitários já não é apenas digitalizar processos. É antecipar a sua atuação, num mercado onde os maiores players procuram integrar toda a cadeia e aqui surge a grande contradição do setor.

Muitas empresas continuam focadas em automatizar tarefas administrativas ignorando a estrondosa alteração estrutural do mercado à sua volta. Vão apontando para a digitalização sem redefinir posicionamento, criam plataformas sem construir diferenciação, falam de IA sem discutir dependência operacional, investem em visibilidade sem controlar capacidade.

No entanto, tecnologia não resolve por si só um problema estratégico de perda de relevância. A questão central hoje é simples: qual será o verdadeiro papel do transitário num mercado cada vez mais verticalizado pelos grandes armadores?

A resposta não estará na escala, pois essa está perdida, estará sim na inteligência operacional, na capacidade consultiva, na flexibilidade, na neutralidade comercial, na gestão multimodal independente, na capacidade de desenhar soluções fora dos ecossistemas fechados dos grandes operadores integrados.

Os transitários que sobreviverão não serão necessariamente os maiores. A pedra de toque é antes a adaptabilidade. Felizes dos que conseguirem transformar informação dispersa em decisão rápida;  dos que entenderem geopolítica, risco aduaneiro, sourcing internacional e diversificação logística como parte central do negócio; dos que deixarem de vender transporte para começar a vender resiliência operacional.

E, não haja ilusões, o cliente da atualidade mede em primeira linha o risco.

A excessiva capacidade, infraestrutura e dados concentrados em poucos players mundiais aumenta inevitavelmente a dependência do mercado em relação a esses operadores, e a dependência excessiva nunca é neutra. A indústria Transitária entra agora numa fase decisiva, ou evolui para a figura de parceiro estratégico de comércio internacional, ou corre o risco de se tornar apenas uma camada operacional facilmente absorvida pelos ecossistemas integrados dos grandes armadores.

Curiosamente, a verdadeira inovação do setor poderá não estar na tecnologia mais visível, mas sim na capacidade das empresas criarem modelos mais ágeis, especializados e resilientes num mercado global cada vez mais concentrado. O futuro do Freight Forwarding não será decidido apenas por quem movimenta mais carga, mas antes por quem controla acesso, capacidade, informação e poder de decisão sobre o comércio mundial.

Whoever rules the waves rules the world“, Alfred Thayer Mahan

Anabela Guerreiro, Branch manager | Contemar