Ao longo de uma jornada intensiva na fábrica da Volkswagen Autoeuropa, em Palmela, as 24 Horas de Logística puseram as equipas perante aquilo que mais aproxima a formação da realidade: pressão, movimento, segurança, imprevistos, tecnologia e decisão. Entre a sirene de evacuação que marcou o arranque do dia, os desafios práticos em chão de fábrica, o acompanhamento dos facilitadores e os momentos de debriefing, a competição mostrou que a logística se aprende com dados e processos, mas também com pessoas em ação. A Kirchhoff Automotive Portugal venceu a edição, seguida da Ferreira de Sá Rugs e da Lactogal.

 

Entre 11 e 18 de maio, as equipas participantes nas 24 Horas de Logística enfrentaram uma semana de provas teóricas. A 2 de junho, o desafio culminou numa jornada intensiva presencial na fábrica da Volkswagen Autoeuropa, em Palmela, onde a logística saiu definitivamente do papel para entrar no terreno. No final, a Kirchhoff Automotive Portugal conquistou o primeiro lugar da classificação geral, seguida da Ferreira de Sá Rugs e da Lactogal. Mas, ao longo de um dia inteiro de desafios, ficou claro para todas as equipas envolvidas que o verdadeiro objetivo das 24 Horas de Logística vai muito além da competição.

A manhã começou dentro de portas, com a apresentação da Volkswagen Autoeuropa, mas bastaram alguns minutos para a teoria dar lugar à realidade. O som estridente de uma sirene interrompeu a sessão e pelo megafone ouve-se o aviso: “Emergência, emergência, evacuação, evacuação.”

Os participantes levantaram-se e dirigiram-se para os pontos de encontro definidos. No exterior, os bombeiros da fábrica aguardavam junto aos veículos de emergência. A mensagem era simples e poderosa: antes da produtividade, antes da eficiência, antes de qualquer KPI, existe segurança.

Foi a forma perfeita de iniciar um dia dedicado à logística e estava dado o mote para o dia: a logística é, acima de tudo, execução e isso significa estar preparado para o que corre bem, mas também para aquilo que pode afastar-se do plano. A partir daí, as 24 Horas de Logística entraram naquilo que melhor carcateriza este evento: a prática. Coletes postos, equipas em movimento, desafios distribuídos e uma sucessão de provas desenhadas para aproximar os participantes da realidade operacional. A tal em que é preciso decidir, coordenar, executar, comunicar e corrigir, muitas vezes sob pressão.

 

Quando a logística sai do papel

Ao longo do dia, os participantes percorreram diferentes áreas da fábrica e foram confrontados com desafios que reproduzem situações reais da operação. Na prova dinamizada pela Toyota, o desafio passava por percorrer um circuito de obstáculos ao volante de um empilhador. Mais do que velocidade, contavam a precisão, o controlo e o respeito pelas regras de segurança.

Noutra área da fábrica, a XLOG colocou as equipas perante uma operação de picking assistida por um robô móvel. O objetivo era recolher componentes num modelo semelhante ao utilizado em operações industriais, coordenando pessoas e tecnologia para cumprir a tarefa no menor tempo possível.

A poucos metros dali, a Embalcer avaliava uma dimensão muitas vezes subestimada da operação: o acondicionamento da carga. Transportar uma palete, cintá-la corretamente, envolvê-la com filme e garantir a sua estabilidade exigia método, coordenação e atenção ao detalhe.

Já a FiNE Solutions levou os participantes para o universo da automação logística. Aqui, o desafio consistia em configurar robôs de transporte de paletes para realizar uma operação de carga de camião, aproximando os concorrentes de uma realidade cada vez mais presente nos centros logísticos e industriais.

A IDR trouxe outra perspetiva. Com recurso a exoesqueletos, os participantes tiveram oportunidade de experimentar tecnologias desenvolvidas para reduzir o esforço físico associado à movimentação manual de cargas e melhorar as condições ergonómicas dos operadores.

Vistas em conjunto, as provas contavam uma história maior. A logística moderna já não é apenas movimentação de materiais. É uma combinação permanente entre pessoas, processos, equipamentos e tecnologia.

Mas nem tudo se decidia junto dos empilhadores, dos robôs, das paletes ou das racks. Ao longo de todo o desafio, as equipas foram acompanhadas por facilitadores, psicólogos responsáveis por observar a forma como cada grupo trabalhava. Quem liderava? Como eram distribuídas as tarefas? Como reagiam perante um erro? O que acontecia quando surgia pressão? Quem ouvia? Quem decidia? Quem desbloqueava conflitos?

Estas perguntas não constavam nas folhas de prova, mas estavam presentes em todas as atividades que as equipas tinham pela frente e do cronograma faziam parte estes momentos de debrifieng. Não se tratava de apontar erros ou indicar soluções, mas de ajudar os participantes a compreender melhor a forma como colaboravam e tomavam decisões.

Num setor onde se fala frequentemente de digitalização, inteligência artificial e automação, este acompanhamento lembrou uma verdade muitas vezes esquecida: as cadeias de abastecimento continuam a ser feitas de pessoas.

 

Mais do que uma competição

Antes de chegarem à Autoeuropa, as equipas tinham passado vários dias a trabalhar e resolver casos inspirados em desafios concretos da supply chain.

Foram chamados a analisar operações de descarga de contentores marítimos, avaliar alternativas de cross-docking, propor soluções para a reutilização de embalagens de transporte provenientes da China e identificar indicadores capazes de antecipar problemas em cadeias de abastecimento com lead times longos. Houve também espaço para temas cada vez mais relevantes na agenda dos gestores logísticos. Num dos exercícios, os participantes tiveram de estruturar um comité de gestão de crise para uma grande operação industrial. Noutro, foram desafiados a construir um modelo de Business Continuity Management capaz de responder a eventos disruptivos, desde fenómenos meteorológicos extremos a ruturas de fornecimento ou constrangimentos geopolíticos.

Mais do que encontrar respostas certas, o objetivo passava por demonstrar capacidade de análise, pensamento crítico e tomada de decisão. Porque a realidade raramente oferece respostas fechadas.

No final do dia houve vencedores. A Kirchhoff Automotive Portugal conquistou o primeiro lugar da classificação geral, seguida da Ferreira de Sá Rugs e da Lactogal.

A Kirchhoff Automotive Portugal destacou-se ainda como melhor equipa prática e venceu também o Prémio Volkswagen e o Prémio Toyota. Já a VLE Transit foi distinguida como melhor equipa virtual e recebeu o Prémio Kronolog. A distribuição dos restantes prémios refletiu a diversidade de competências em avaliação, com distinções atribuídas à Sesé, Ferreira de Sá Rugs, Mitsubishi Fuso Trucks, Visteon, Microplásticos e outras equipas participantes.

Mais do que a posição no pódio, a edição mostrou a importância de criar contextos onde o talento possa ser testado fora do formato tradicional. A logística aprende-se, mas também se treina. E treinar logística implica pôr pessoas perante problemas, decisões, equipamentos, dados, imprevistos, pressão e momentos de reflexão sobre a forma como trabalham em conjunto.

Durante 24 horas, foi isso que aconteceu: talento em movimento, operação em modo prova e uma demonstração clara de que o futuro do setor também se constrói com quem aceita entrar no terreno, pensar depressa, trabalhar em equipa, ouvir, ajustar e encontrar soluções.

Quando os prémios foram entregues e os coletes começaram a ser guardados, ficou a certeza de que as 24 Horas de Logística são muito mais do que uma competição ou um exercício de aproximação à realidade. Acima de tudo são um espaço e um momento em que grupos de profissionais de diferentes empresas são convidados a sair da rotina, enfrentar problemas concretos, trabalhar em equipa, testar competências e descobrir que, na logística, as melhores soluções raramente nascem de uma única pessoa.

Nascem da capacidade de pensar em conjunto, decidir em conjunto e executar em conjunto. Tal como é suposto acontecer todos os dias nas operações que mantêm as cadeias de abastecimento em movimento.

Classificações e prémios
Categoria Equipa vencedora
1.º classificado Kirchhoff Automotive Portugal
2.º classificado Ferreira de Sá Rugs
3.º classificado Lactogal
Melhor equipa prática Kirchhoff Automotive Portugal
Melhor equipa virtual VLE Transit
Prémio Volkswagen Kirchhoff Automotive Portugal
Prémio Kronolog VLE Transit
Prémio Embalcer Sesé
Prémio XLOG Ferreira de Sá Rugs
Prémio IDR Mitsubishi Fuso Trucks
Prémio FiNE Solutions Visteon
Prémio Toyota Kirchhoff Automotive Portugal
Prémio SCM Visteon
Prémio Simpatia* Visteon
Prémio Cooperação* Microplásticos

* – Estas duas distinções são decididas pelas equipas participantes


Reportagem completa na edição de junho da Supply Chain Magazine.