No segundo artigo da série “O lado menos óbvio do Procurement”, a especialista em compras Juliana José traz um debate essencial: os processos estão a ajudar ou a bloquear as decisões na sua empresa?

Ao longo dos anos em Procurement, aprendi a valorizar processos. Ajudei a desenhá-los, a estruturá-los e a implementá-los. Sei o papel que têm: garantir controlo, transparência, consistência e mitigação de risco.

Mas há uma realidade menos confortável, e menos discutida: bons processos, quando aplicados sem critério, podem bloquear boas decisões.

No papel tudo faz sentido. Mais validações, mais etapas, mais rigor. Processos robustos são frequentemente vistos como sinónimo de maturidade e eficácia organizacional.

Na prática, nem sempre.

Já estive em situações em que a melhor decisão era evidente — clara do ponto de vista técnico, económico e operacional — mas não encaixava no processo definido. E nesses momentos surge um dilema silencioso: seguir o processo ou servir o negócio?

Na maioria das organizações, a resposta é previsível.

Seguir o processo é seguro. É defensável. É auditável.

Mas essa segurança tem um custo, muitas vezes invisível e (propositadamente) ignorado.

Decisões tornam-se mais lentas. Oportunidades perdem-se. A flexibilidade reduz-se. E, progressivamente, o Procurement começa a ser percecionado como um bloqueio, e não como um facilitador.

Há também um fator cultural importante: errar por sair do processo é penalizado. Seguir o processo, mesmo com um resultado inferior, é geralmente aceite. Isto cria naturalmente um comportamento defensivo.

As decisões deixam de ser orientadas para o melhor resultado e passam a ser orientadas para o menor risco pessoal.

Com a experiência, fui ajustando a minha forma de ver o tema, mas sempre na firme certeza de que devemos encarar os processos não como regras absolutas, mas como estruturas que devem servir a decisão e não substituí-la.

Seguir o processo não é, por si só, um indicador de qualidade da decisão. A maturidade está na capacidade de equilibrar rigor com critério, controlo com contexto, consistência com flexibilidade.

E talvez a questão mais relevante seja esta: estamos a usar os processos para melhorar decisões… ou para evitar assumir responsabilidade?

Juliana José, Especialista de Compras