Na supply chain, a tecnologia deixou de viver no território confortável da promessa. Já não basta falar de sensores, RFID, automação, dados ou inteligência artificial como soluções em abstrato. O foco é cada vez mais perceber como é que tudo isso ajuda a operação a falhar menos, a decidir melhor e a antecipar problemas antes de estes chegarem ao cliente. Foi em torno desta ideia que se construiu a segunda parte da sessão de Lisboa do CodeOne Customer Day, encontro anual da tecnológica portuguesa que junta clientes e parceiros.
A tecnologia esteve no centro do debate, mas raramente como fim em si mesma. Ao longo da manhã, a conversa foi regressando sempre ao mesmo ponto: não é a ferramenta que transforma a operação, é a capacidade de a integrar em processos robustos, com dados fiáveis, equipas preparadas e uma leitura clara do problema que se pretende resolver.
No registo 60′, mas com muito menos tempo do que isso para debater, o painel dedicado à cadeia de frio tornou essa realidade particularmente evidente. Sob o tema “Tecnologia na Cadeia de Frio: Desafios que Não Podem Falhar”, a conversa colocou em cima da mesa uma das áreas onde a margem de erro é mais curta. No frio, uma falha não se traduz apenas em atraso, retrabalho ou perda de produtividade. Pode significar produto inutilizado, quebra de confiança, desperdício e impacto financeiro direto.
“Quando alguma coisa corre mal na cadeia de frio, muitas vezes não há plano B. O plano B é deitar fora”, foi uma das ideias deixadas durante o debate por Afonso Almeida, atualmente presidente da APLOG, mas com uma longa carreira ligada a operações logística com temperatura controlada. A afirmação surgiu a propósito de uma experiência relatada com produtos congelados, mas rapidamente ganhou dimensão mais ampla. Porque a cadeia de frio não é apenas a dos congelados. O chamado frio positivo, aplicado a produtos refrigerados, frescos, frutas, legumes, pode ser igualmente crítico. Em alguns casos, até mais complexo, precisamente pela curta validade dos produtos e pela necessidade de garantir condições consistentes ao longo de toda a cadeia.
Na discussão, ficou claro que falar de frio é falar de temperatura, mas também de energia, transporte, processos, rastreabilidade, sustentabilidade e dados. A recente experiência de falhas prolongadas de energia, primeiro o “apagão” e depois com o comboio de tempestades deste ano, foi evocada como exemplo de vulnerabilidade. As unidades podem estar preparadas para suportar interrupções curtas, com geradores ou sistemas de redundância, mas uma paragem de dois ou três dias coloca outro tipo de pressão sobre a operação. E, em muitos casos, o custo não está apenas no tempo perdido. Está no produto que deixa de poder ser consumido.
“O problema não está na tecnologia”
A energia foi apontada como um dos grandes nós críticos da cadeia de frio. São operações intensivas em consumo energético, pressionadas simultaneamente por custos, eficiência, sustentabilidade e exigências regulamentares. Mas o transporte foi também identificado como uma zona particularmente sensível. Mesmo quando o armazém está controlado, a mercadoria continua a deslocar-se, passa por diferentes ambientes, depende de equipamentos, pessoas, rotas, tempos de entrega e, cada vez mais, de informação em tempo real.
Foi neste ponto que a conversa entrou no território dos dados. A monitorização térmica ao longo da cadeia já é tecnicamente possível e, em muitas operações, já acontece. Mas a questão que ficou foi menos tecnológica e mais organizacional. “O problema não está na tecnologia” afirmou Carlos Figueiredo, CEO da CodeOne. “A tecnologia que existe neste momento é suficientemente capaz, é estável e funciona.” O nó cego, acrescentou, está nos processos, na organização e na forma como a operação executa aquilo que a tecnologia pressupõe.
A frase mais forte do debate talvez tenha sido esta: “Introduzir tecnologia numa empresa que não está organizada só vai fazer os erros acontecerem mais depressa.” A ideia atravessou diferentes momentos da sessão. Um sistema RFID pode ter elevadíssimos níveis de fiabilidade, mas se a etiqueta não passar pelo ponto de leitura correto, o produto não será lido. Um sensor pode recolher dados, mas se o processo não estiver desenhado para agir sobre essa informação, o dado fica a meio caminho. Uma solução digital pode prometer visibilidade, mas sem disciplina operacional transforma-se apenas em mais uma camada sobre a desordem existente.
No frio, essa disciplina é particularmente exigente. Não se trata apenas de saber se uma tecnologia lê ou não lê, mede ou não mede, transmite ou não transmite. Trata-se de garantir que as equipas compreendem o processo, que os pontos de controlo estão bem definidos, que os dados recolhidos são utilizáveis e que existe capacidade de resposta quando algo sai do previsto. A cadeia de frio, ficou claro, não precisa apenas de tecnologia. Precisa de tecnologia operacionalizada.
A discussão tocou ainda a evolução regulamentar e a forma como determinadas exigências podem acelerar a rastreabilidade. O exemplo do tabaco e dos medicamentos foi usado para mostrar como setores inteiros podem ser obrigados a níveis de controlo anteriormente vistos como difíceis de executar. Carlos Figueiredo aludiu ainda a um projeto de monitorização na área do pescado, que pretende acompanhar não apenas a temperatura, mas também a qualidade do produto, desde a lota até ao restaurante. A conclusão foi direta: aquilo que durante anos foi gerido com papéis, lotes apontados manualmente e informação fragmentada está a caminhar para outro patamar de controlo.
Dos alicerces ao telhado
Depois da cadeia de frio, o programa avançou para o retalho, com um caso apresentado por Jerónimo Martins/Pingo Doce e CodeOne em torno de projetos e serviços para eficiência operacional na cadeia de valor. O ponto de partida foi simples: no retalho, a escala muda tudo. Um terminal instalado numa loja pode rapidamente transformar-se em milhares de equipamentos distribuídos por centenas de pontos de operação. E é nessa passagem do piloto para a escala que muitos projetos revelam se estão, ou não, preparados para sobreviver ao terreno.
A tecnologia, foi referido, deixou de ser apenas um custo ou um suporte. Passou a ser uma peça central do serviço e da própria operação. A questão que se coloca às equipas já não é apenas implementar soluções, mas perceber como estas aceleram desempenho, aumentam resiliência e criam escala. O caso apresentado mostrou o desafio de eliminar papel nas lojas, sobretudo em áreas como cafetaria, fruta, peixaria, talho ou padaria, onde os registos, controlos e mapas operacionais fazem parte da rotina diária. “Queremos que a tecnologia seja o mais invisível possível”, destacou o responsável da Jerónimo Martins e esse é um ponto de vista que António Guedes, business consultant da CodeOne, corrobora integralmente: “o impacto que queremos ter é não ter impacto absolutamente nenhum”.
Aparentemente simples, a passagem do papel para dispositivos digitais revelou aquilo que muitas vezes fica invisível nos projetos de transformação: escolha adequada do equipamento, desenvolvimento aplicacional, robustez da infraestrutura, condições reais de utilização, ambientes húmidos ou quentes, equipas no terreno, suporte, manutenção e capacidade de escalar sem criar fricção na operação. Como foi sublinhado, por António Guedes, o sucesso não nasce quando se começa pelo “telhado”, mas quando se constroem primeiro os alicerces.
A rastreabilidade voltou depois a ganhar protagonismo com a apresentação de Michael Vistisen, CEO da Lyngsoe Systems, novo parceiro da tecnológica portuguesa, centrada em RFID, sensores, automação e captura de dados. A lógica apresentada foi a de criar uma representação digital do fluxo físico. Em vez de olhar apenas para caixas, paletes, contentores ou equipamentos retornáveis como objetos em movimento, a tecnologia permite transformá-los em entidades identificáveis, capazes de gerar sinais ao longo da jornada e alimentar sistemas de gestão de armazém, transporte, inventário ou ERP.
O valor não está apenas em saber onde está o produto. Está em evitar erros antes que estes se consolidem. Um carregamento incorreto, uma duplicação, uma entrega no destino errado, uma falha de prova de transporte ou uma manifestação imprecisa geram custos, devoluções, perda de produtividade e problemas na relação com clientes e operadores. A leitura automática, a validação no carregamento, os alertas ao operador e a documentação em tempo real permitem atuar antes do erro chegar ao fim da cadeia.
Antecipar primeiro: a nova fronteira
Neste ponto, a tecnologia aproximou-se do conceito que viria a dominar a sessão final: antecipação. Na intervenção de Sérgio Ferreira, partner da EY, sob o tema “2025-2035: AI-volução ou AI-pocalipse?”, a inteligência artificial foi colocada menos como ferramenta isolada e mais como parte de uma transformação muito mais ampla da logística e da supply chain.
A ideia de abertura foi forte: os próximos dez anos poderão mudar mais o setor da logística e da cadeia de abastecimento do que os últimos cem anos de evolução tecnológica. A razão, segundo o orador, está na velocidade da mudança e na convergência de várias tecnologias: inteligência artificial, sensores, digital twins, simulação, automação, robótica, computação avançada e novas formas de mobilidade.
Mas a mensagem central não foi a substituição da execução pela tecnologia. Pelo contrário. A execução continuará a ser indispensável, mas deixará de ser, por si só, o principal fator de diferenciação. “Vamos ter de continuar a executar e a ser eficientes, mas esse já não vai ser o ponto de diferenciação. O ponto de diferenciação vai ser a antecipação”, defendeu Sérgio Ferreira. A pergunta passa a ser: como prever antes de acontecer?
A resposta volta aos dados. Sem visibilidade, não há automação inteligente. Sem dados fiáveis, não há simulação útil. Sem processos estruturados, a IA arrisca-se a amplificar erros em vez de os corrigir. A visão apresentada apontou para cadeias de abastecimento mais preditivas, prescritivas, distribuídas e capazes de reduzir fricção. Mas também deixou alertas sobre governação, estratégia e ritmo de adoção. Automatizar depressa demais, sem perceber o impacto no serviço, pode gerar eficiência aparente e perda real de valor.
No final, a sessão de Lisboa do CodeOne Customer Day deixou uma conclusão menos tecnológica do que poderia parecer à partida. A transformação digital da supply chain não se joga apenas na escolha da ferramenta, do sensor, do leitor RFID, do terminal, do algoritmo ou da aplicação. Joga-se sobretudo na capacidade de ligar tecnologia a processos, dados a decisões e operação a resultados.
A pergunta que ficou não foi se há tecnologia suficiente para transformar as operações. Essa resposta parece hoje relativamente clara. A pergunta é se as organizações estão suficientemente preparadas para transformar tecnologia em execução fiável. Porque, como a cadeia de frio demonstrou, há operações em que falhar não é apenas uma hipótese indesejável. É uma hipótese que a cadeia não pode aceitar.
Carlos Figueiredo: “A tecnologia é um meio, não um fim”
À margem do CodeOne Customer Day 2026, a Supply Chain Magazine falou com Carlos Figueiredo, CEO da CodeOne, sobre a maturidade digital das operações, a pressão crescente sobre dados fiáveis e o papel da inteligência artificial na supply chain.
Para o responsável, o mercado está a mudar. As empresas já não procuram apenas tecnologia para ganhar eficiência ou modernizar processos. Começam a procurar resultados concretos, maior controlo e capacidade de decisão. “Felizmente, já encontramos um forte número de clientes que não compram tecnologia por tecnologia”, afirma, sublinhando que a tecnologia deve ser vista como “um meio e não um fim”.
Mas, o desafio, defende, continua menos na ferramenta e mais na operação. A maior dificuldade está na mudança de hábitos, na qualidade dos processos e na capacidade de recolher dados úteis. Sem essa base, a inteligência artificial pouco resolve. “Se não tiverem dados, se não tiverem informação sobre aquilo que está a acontecer, a IA não lhes vai resolver nada”, alerta Carlos Figueiredo.
A entrevista aprofunda ainda os pontos cegos que persistem em armazéns e áreas produtivas, a pressão do mercado sobre a eficiência, a importância dos chamados front workers e a diferença entre acrescentar tecnologia e resolver verdadeiros problemas operacionais.
Pode ler o resultado da conversa, na íntegra, na edição de junho da Supply Chain Magazine. Fique atento.


