A Amazon passou a disponibilizar a empresas externas a sua rede de transporte, fulfillment, distribuição e entrega parcelar através do novo Amazon Supply Chain Services (ASCS). A aposta reforça a transformação da empresa num operador logístico de peso e abre uma nova frente competitiva num mercado dominado por players históricos.

A Amazon acaba de lançar o Amazon Supply Chain Services, uma nova oferta que coloca a sua infraestrutura de transporte, distribuição, fulfillment e entrega parcelar ao serviço de empresas fora do seu marketplace. O movimento alarga a ambição da gigante norte-americana na logística e está já a ser lido pelo mercado como um desafio direto a operadores históricos como UPS, FedEx, DHL e outros especialistas da cadeia de abastecimento.

A Amazon quer transformar uma capacidade construída para alimentar o seu próprio ecossistema de retalho numa oferta aberta a terceiros. O novo Amazon Supply Chain Services, ou ASCS, passa a disponibilizar a empresas de retalho, indústria, saúde, automóvel e comércio grossista um portefólio que cobre freight transportation, distribuição, fulfillment e parcel shipping, para fluxos que podem ir de matérias-primas a produto acabado.

Na prática, o que a empresa está a fazer é monetizar uma infraestrutura logística que durante anos foi tratada como uma vantagem competitiva interna. A própria Amazon assume esse paralelismo com a evolução da Amazon Web Services, ao defender que está agora a levar para o mercado a “infraestrutura, inteligência e escala” da sua cadeia de abastecimento, tal como fez anteriormente com a cloud.

Peter Larsen, vice-presidente da Amazon Supply Chain Services, enquadra a aposta como uma extensão natural do ADN operacional da empresa. Segundo o responsável, a supply chain nunca foi apenas uma função de suporte dentro da Amazon, mas sim uma peça central da experiência de cliente, assente em rapidez, fiabilidade e execução à escala.

O lançamento não surge em vazio. Entre os primeiros utilizadores anunciados estão a Procter & Gamble, a 3M, a Lands’ End e a American Eagle Outfitters. A P&G está a usar os serviços de freight da Amazon para transportar matérias-primas para unidades produtivas e mover produto acabado na sua rede de distribuição; a 3M recorre à mesma capacidade para ligar fábricas e centros de distribuição; a Lands’ End está a usar um inventário unificado dentro da rede Amazon para servir vários canais; e a American Eagle está a apoiar-se na rede parcelar da empresa para entregas diretas ao consumidor.

Mais do que um novo produto, este passo reforça a transformação da Amazon num operador logístico de peso. De acordo com a Reuters, a empresa coloca no terreno uma rede com mais de 100 aviões de carga, além de uma vasta malha de armazéns e hubs de triagem, entrando mais diretamente numa arena dominada por nomes como UPS e FedEx. A reação do mercado foi imediata: no dia do anúncio, as ações da UPS e da FedEx caíram mais de 9%, sinal de que os investidores leram o movimento como uma ameaça competitiva séria. As quedas chegaram mesmo a Portugal, com os CTT a recuarem mais de 5%.

Além do efeito nos integradores clássicos, a pressão pode estender-se a outros especialistas da logística contratual e do transporte. A Reuters assinala que grupos como DHL, GXO Logistics e Maersk Logistics também surgem entre os mais expostos a esta nova ofensiva da Amazon, sobretudo porque o alvo é um segmento de elevado valor: o transporte business-to-business, normalmente mais previsível, denso e rentável do que a entrega ao consumidor final.

Há ainda um ponto relevante para quem acompanha supply chain e transporte: o ASCS não é apresentado apenas como uma solução fechada de fulfillment. Segundo a informação avançada pela própria Amazon e detalhada por meios setoriais, a oferta inclui transporte full truckload, less-than-truckload, intermodal, carga aérea, inbound shipping da China para os Estados Unidos com desalfandegamento, armazenamento em bulk, distribuição e entregas parcelares em dois a cinco dias. Ou seja, a empresa está a posicionar-se de forma muito mais abrangente do que um mero operador de e-commerce fulfillment.

Para o setor, o sinal é difícil de ignorar. A Amazon está a replicar na supply chain uma lógica que já usou noutras áreas: primeiro constrói capacidade para resolver os seus próprios constrangimentos operacionais, depois abre essa capacidade ao mercado e transforma custo interno em negócio. Se conseguir transferir para clientes externos a mesma proposta de rapidez, previsibilidade e escala que usou para consolidar a sua operação de retalho, poderá alterar de forma relevante o equilíbrio competitivo da logística nos próximos anos. Esta é, por isso, uma notícia com impacto que vai muito para lá do universo Amazon.