A alemã cargo.one anunciou a aquisição da plataforma de tarifas marítimas Cargofive e o lançamento do que classifica como primeiro sistema operativo AI-native para logística multimodal. A operação, fechada a 25 de fevereiro, é acompanhada por uma ronda de investimento de cerca de 20 milhões de dólares, liderada pela Bessemer Venture Partners, reforçando a aposta na criação de uma infraestrutura de dados unificada para ar e mar.

A ambição é clara: resolver um dos principais bloqueios à adoção de inteligência artificial no setor, ou seja, a fragmentação de dados e sistemas. Com a integração da Cargofive, a cargo.one passa a agregar:

  • Ligações aos 10 maiores armadores mundiais;

  • Um universo de cerca de quatro milhões de trade lanes marítimas;

  • Capacidades escaláveis de ingestão e gestão de tarifas oceânicas;

  • A já consolidada base de tarifas aéreas utilizada por transitários globais.

O resultado é apresentado como a base de dados de tarifas mais completa do setor, permitindo automatizar processos de cotação, booking e gestão tarifária numa única plataforma multimodal, em vez de recorrer a ferramentas isoladas para cada modo de transporte.

Segundo Moritz Claussen, fundador e Co-CEO da cargo.one, a maioria dos projetos de AI falha não por falta de algoritmos sofisticados, mas por ausência de dados estruturados e integrados à escala empresarial.

O novo sistema operativo assenta numa arquitetura onde dados operacionais e workflows de AI coexistem nativamente. Em vez de soluções “bolt-on” que exigem integrações complexas, os agentes de AI operam sobre a mesma base de dados utilizada pelas equipas.

A infraestrutura inclui:  modelos baseados em RAG (Retrieval-Augmented Generation) para pesquisa contextual; camadas de supervisão para validação de outputs; protocolos abertos (como servidores MCP) para criação de agentes personalizados e workflows para rate management, quoting, booking e suporte ao cliente.

A lógica é simples. AI e pessoas trabalham lado a lado, com controlo humano permanente e automação focada em tarefas repetitivas e intensivas em dados, explica a cargo.one.

Para Stefan Borggreve, membro do Management Board da Hellmann Worldwide Logistics, citado pela cargo.one, a confiança na automação depende da qualidade da base de dados subjacente. Já Bob Goodman, partner da Bessemer Venture Partners, sublinha que funcionalidades isoladas rapidamente se tornam comoditizadas. Qunato ao diferencial competitivo, esse reside na infraestrutura.

O que são “agentic workflows” na logística?

Os agentic workflows são fluxos operacionais executados por agentes de inteligência artificial capazes de:

  1. Interpretar pedidos (ex.: pedido de cotação multimodal).

  2. Consultar bases de dados estruturadas (tarifas, contratos, históricos).

  3. Tomar decisões com base em regras e contexto.

  4. Executar ações (emitir proposta, sugerir booking, responder a cliente).

  5. Escalar para intervenção humana quando necessário.

Ao contrário dos chatbots tradicionais ou automações rígidas, estes agentes combinam capacidade de raciocínio contextual com acesso direto a dados estruturados e mecanismos de supervisão. No contexto multimodal, isto significa que uma única camada pode cruzar tarifas aéreas e marítimas; avaliar trade-offs de custo e transit timea; sugerir alternativas de rota; automatizar cotações complexas sem alternar entre sistemas distintos.

A chave está menos na “inteligência” isolada e mais na integração nativa entre dados e execução operacional.

Para o mercado, a consolidação de dados ar-mar numa única infraestrutura responde a três fragilidades estruturais do setor. São elas: a fragmentação tecnológica crónica, projetos de IA que não ultrapassam a fase piloto e a criação de silos de dados entre modos de transporte.

Se a estratégia se confirmar na prática, a cargo.one posiciona-se não apenas como ferramenta de booking aéreo, mas como camada de infraestrutura para a automação multimodal, um movimento que poderá pressionar transitários e fornecedores tecnológicos a rever a sua arquitetura digital.