A capacidade de manter os portos operacionais perante ameaças físicas, digitais e geopolíticas é decisiva para a continuidade das cadeias de abastecimento europeias. Victor Miguel Santos Batista, do Indra Group Portugal, analisa o contributo da tecnologia e da segurança portuária para a resiliência e a autonomia económica da Europa.
Durante décadas, os portos foram avaliados pela sua capacidade de movimentar mercadorias, reduzir tempos de escala e aumentar a eficiência operacional. Hoje, esta visão já não é suficiente. Num contexto internacional marcado por tensões geopolíticas, alterações das cadeias globais de abastecimento e crescente competição económica entre blocos, os portos assumem um papel determinante na preservação da soberania económica europeia.
Os acontecimentos dos últimos anos vieram expor essas vulnerabilidades. A pandemia evidenciou a dependência global relativamente a determinados fornecedores e rotas logísticas. A guerra na Ucrânia demonstrou o impacto que os conflitos regionais podem ter sobre o comércio internacional e a segurança energética. Mais recentemente, as perturbações nas principais rotas marítimas internacionais reforçaram a necessidade de aumentar a capacidade de resposta das cadeias de abastecimento perante eventos inesperados.
Neste contexto, assegurar o acesso a matérias-primas críticas, energia, bens essenciais e rotas comerciais tornou-se numa prioridade estratégica. Não é por acaso, que a União Europeia tem vindo a enfatizar a necessidade de reforçar a resiliência das suas cadeias de abastecimento críticas, reduzindo dependências excessivas e aumentando a capacidade de adaptação a novos cenários de risco. Cerca de 74% do comércio externo europeu passa pelos seus portos.
A questão, por isso, já não é apenas como tornar os portos mais eficientes. É garantir que permanecem operacionais, seguros e resilientes perante um contexto global cada vez mais volátil e imprevisível.
Os portos modernos são hoje muito mais do que terminais de carga.Constituem plataformas multimodais que integram transporte marítimo, ferroviário e rodoviário, desempenham um papel fundamental na transição energética, suportam atividades industriais e funcionam como nós críticos de informação e dados. A transformação digital que tem vindo a ocorrer nos portos europeus permitiu ganhos significativos de eficiência e competitividade, mas também novas responsabilidades.
À medida que os processos se tornam mais automatizados e interligados, aumenta igualmente a superfície de exposição a ameaças físicas e digitais. Por essa razão, a estratégia europeia para os portos, apresentada recentemente pela Comissão Europeia, reforça a necessidade de desenvolver infraestruturas simultaneamente mais inteligentes, mais sustentáveis e mais seguras. A competitividade futura dos portos europeus dependerá da capacidade de equilibrar estas três dimensões de forma integrada.
A própria natureza das ameaças também evoluiu em sofisticação e diversidade. Desde atividades ilícitas ligadas ao tráfico internacional até potenciais atos de sabotagem contra infraestruturas críticas, os riscos que afetam o ecossistema portuário exigem novas capacidades de monitorização, análise e resposta. Mais do que responder a incidentes, o objetivo passa por antecipá-los.
Perante este cenário, a proteção dos portos requer atualmente uma visão integrada capaz de combinar sensores avançados, sistemas de vigilância inteligente, plataformas de comando e controlo e mecanismos de apoio à decisão baseados em inteligência artificial.
A Europa tem vindo a investir de forma significativa em programas de investigação e inovação destinados a reforçar a proteção das suas infraestruturas estratégicas.
Um exemplo é o projeto europeu SMAUG (Smart Maritime and Underwater Guardian), que procura desenvolver novas capacidades de deteção de ameaças subaquáticas através da integração de diferentes tecnologias, sensores e sistemas autónomos. O objetivo é aumentar a capacidade de identificar riscos, reforçar a proteção de infraestruturas críticas e melhorar a capacidade de resposta de autoridades e operadores portuários.
Mais do que um projeto tecnológico, o SMAUG ilustra uma transformação mais ampla em curso nos portos europeus. À medida que iniciativas como os Port Community Systems (PCS) e o European Maritime Single Window Environment (EMSWe) promovem uma maior integração e interoperabilidade da informação, surgem novas oportunidades para reforçar não apenas a eficiência operacional, mas também a proteção das infraestruturas críticas. Num contexto em que a continuidade das cadeias de abastecimento é cada vez mais determinante para a competitividade e autonomia da Europa, digitalização, segurança e resiliência deixam de ser domínios separados para se tornarem parte da mesma estratégia.
A história demonstra que a prosperidade económica da Europa sempre esteve profundamente ligada à sua capacidade de assegurar ligações marítimas eficientes e seguras. Num mundo cada vez mais interdependente, mas simultaneamente mais incerto, os portos continuarão a desempenhar um papel determinante na competitividade do continente. Contudo, o sucesso futuro já não dependerá exclusivamente da capacidade de movimentar mais carga ou de aumentar a produtividade operacional.
Os portos do futuro terão de ser igualmente resilientes, inteligentes e seguros. A digitalização, a inteligência artificial, a análise avançada de dados, os sistemas autónomos e as novas capacidades de vigilância marítima serão componentes essenciais desta transformação, não apenas como ferramentas de modernização tecnológica, mas como instrumentos para garantir a continuidade das cadeias de abastecimento, proteger infraestruturas críticas e reforçar a autonomia económica europeia.
Mais importante ainda, a convergência entre plataformas digitais colaborativas, como os PC e as Janelas Únicas Marítimas, e tecnologias emergentes de inteligência e proteção, como as desenvolvidas no âmbito do SMAUG, permitirá criar uma nova geração de portos capazes de transformar dados em conhecimento, conhecimento em antecipação e antecipação em resiliência.
Num cenário internacional marcado pela crescente competição económica, tecnológica e geopolítica, a sua capacidade para assegurar fluxos comerciais resilientes será um fator decisivo para a autonomia e competitividade da Europa nas próximas décadas.
Porque, na realidade, quando falamos do futuro dos portos, estamos também a falar do futuro da economia europeia.
Victor Batista, Responsável Global de Operações Mobility – Portos | Indra Group Portugal


