A Rodo Cargo está a desenvolver uma oferta intermodal que combina ferrovia e rodovia para ligar os centros de produção e consumo portugueses aos principais mercados espanhóis, com ambição de chegar ao centro da Europa. Apresentado no Dia do Transitário, o serviço Combi Way prevê transportar carga de diferentes clientes e aceitar equipamento de outras empresas.

A falta de motoristas, a pressão para reduzir emissões e a necessidade de encontrar alternativas de transporte estão a levar a Rodo Cargo a reforçar a aposta na intermodalidade. A resposta passa pelo serviço Combi Way, apresentado por António Soares, diretor de Desenvolvimento de Negócios da empresa, no Dia do Transitário 2026.

Desenvolvido em parceria com a espanhola Multirail, o projeto pretende combinar o transporte ferroviário nos percursos de maior distância com as ligações rodoviárias necessárias à recolha e à entrega das mercadorias. O objetivo é construir uma oferta regular, para vários clientes e diferentes tipos de carga, que permita às empresas acrescentar uma alternativa às suas operações de transporte.

“Queremos oferecer a capacidade de o cliente ter uma escolha”, afirmou, apontando a regularidade, a previsibilidade e o controlo operacional como características centrais da proposta.

A Combi Way foi apresentada como uma solução que permite contratar o transporte porta a porta, entre terminais ou combinando um percurso ferroviário com uma ligação rodoviária numa das extremidades. A configuração dependerá das necessidades do cliente e da capacidade de cada empresa para assegurar parte da operação.

A abertura a equipamento de terceiros foi esclarecida no final da apresentação, quando António Soares foi questionado sobre a possibilidade de outras empresas utilizarem o serviço com as suas próprias caixas móveis.

A resposta foi afirmativa, desde que o equipamento cumpra os requisitos técnicos e as limitações da infraestrutura no percurso em causa. Essa possibilidade estende-se às unidades de transporte intermodal compatíveis com a operação, permitindo que outros operadores integrem a ligação ferroviária nas suas próprias soluções logísticas.

O responsável referiu também a possibilidade de disponibilizar e personalizar equipamento para clientes com necessidades regulares de transporte.

A ferrovia como complemento à estrada

Para a Rodo Cargo, empresa do Grupo Barraqueiro com atividade no transporte rodoviário, a aposta ferroviária integra uma estratégia de diversificação da oferta. A estrada mantém um papel essencial na ligação aos clientes e aos terminais.

“Não acreditamos que a ferrovia substitua a rodovia e vice-versa”, sublinhou António Soares. A proposta procura tirar partido dessa complementaridade para responder a dificuldades que a empresa já sente na operação. Entre elas está a escassez de motoristas, que o responsável descreveu como um problema concreto, com consequências para a capacidade de transporte disponível.

A combinação entre modos deverá permitir concentrar o recurso rodoviário nas ligações em que é necessário, assegurando por ferrovia uma parte dos trajetos mais longos. Ao mesmo tempo, pretende criar alternativas perante perturbações que possam afetar as cadeias de abastecimento.

Na apresentação, António Soares identificou Madrid e Barcelona como mercados centrais para o desenvolvimento da oferta e apontou Alfarelos como terminal de referência em Portugal. A ambição é ligar a produção e os portos portugueses aos mercados ibéricos e, numa fase posterior, ampliar as possibilidades de encaminhamento para o centro da Europa.

A parceria com a Multirail enquadra essa estratégia de conectividade. O responsável destacou igualmente a colaboração com a Captrain na componente ferroviária do projeto. A competitividade do serviço dependerá, porém, da capacidade de responder às exigências dos clientes. António Soares insistiu que a intermodalidade tem de oferecer uma solução ajustada ao mercado, com condições que permitam às empresas organizar os seus fluxos com confiança.

A redução do impacto ambiental foi outro dos argumentos apresentados para a aposta. António Soares associou a transferência de parte dos percursos para a ferrovia à responsabilidade de deixar melhores condições às gerações seguintes, mas também à necessidade de oferecer aos clientes opções que apoiem os seus objetivos ambientais.

A sustentabilidade surge, assim, ligada à escolha do transporte e à capacidade de demonstrar esse esforço junto do mercado. Na proposta da Rodo Cargo, terá de acompanhar a eficiência e a qualidade do serviço. O desafio será transformar a complementaridade entre estrada e ferrovia numa oferta que as empresas possam incorporar nas suas operações regulares.