Prever escalas, simular decisões, simplificar processos e libertar equipas para executar investimentos são algumas das aplicações em discussão. Na CIDIS 2026, os exemplos de Sines, Huelva e Salónica mostraram que a transformação digital exige escolhas sobre dados, pessoas, fornecedores e responsabilidade. A tecnologia ganha valor quando resolve problemas que o porto conhece e consegue medir.
Em Sines, uma das próximas frentes da inteligência artificial poderá estar longe do cais. Está nos processos internos que ocupam engenheiros, juristas e equipas financeiras e que condicionam a capacidade de executar os investimentos previstos.
Cláudio Pinto, diretor de Inovação e dos Sistemas de Informação da Administração dos Portos de Sines e do Algarve (APS), colocou esse problema na discussão sobre transformação digital: o dinheiro disponível pode não ser suficiente para fazer avançar os projetos quando a organização tem dificuldades em concretizá-los. Parte da resposta passa por perceber onde a tecnologia pode reduzir trabalho administrativo e devolver tempo às equipas.
Foi um dos exemplos apresentados na sessão sobre inovação, digitalização e inteligência artificial da CIDIS 2026, realizada em Lisboa, nos dias 19 e 20 de outubro. Presidido por Vítor Caldeirinha, da administração dos Portos de Lisboa e Setúbal, o painel reuniu as perspetivas tecnológicas da Indra e da Siemens e as experiências dos portos de Sines, Huelva e Salónica.
Ao longo das intervenções, a discussão passou das possibilidades da IA para as condições necessárias à sua utilização. Que dados alimentam os sistemas? Quem valida as recomendações? Como evitar novas dependências? O que deve melhorar na organização depois de a tecnologia entrar?
Um copiloto para antecipar decisões
Victor Batista, da Indra, apresentou o conceito de copiloto portuário, uma camada de assistência que utiliza a informação dos sistemas existentes para apoiar os profissionais na interpretação de situações, na antecipação de problemas e na avaliação de respostas. A proposta assenta na evolução dos sistemas de comunidade portuária, conhecidos como PCS. Ao reunirem processos, eventos e informação de diferentes intervenientes, estas plataformas podem dar contexto às aplicações de inteligência artificial.
Na gestão de escalas, os modelos podem ajudar a melhorar previsões de chegada, detetar inconsistências e antecipar consequências para os serviços e as ligações terrestres. No planeamento operacional, podem identificar constrangimentos ou conflitos na utilização de recursos. “Não é um piloto automático”, salientou Victor Batista. A distinção coloca a responsabilidade nas pessoas e enquadra a tecnologia como apoio especializado.
Os gémeos digitais acrescentam a possibilidade de testar alternativas antes de atuar. Uma alteração na chegada de um navio pode ser avaliada em diferentes cenários de atracação, utilização de equipamentos ou disponibilidade de serviços. A recomendação ganha utilidade quando os profissionais conseguem compreender os seus pressupostos e efeitos. Para isso, a integração tecnológica precisa de acompanhar a qualidade dos dados, a preparação das equipas e a definição de responsabilidades. Acrescentar capacidade de processamento a um processo mal organizado pode acelerar os seus problemas.
Quando a IA atua sobre o mundo físico
Daniel Maré Dias, responsável pelo setor dos Transportes na Siemens, trouxe a discussão para os ativos e as infraestruturas. A IA industrial trabalha com equipamentos sujeitos a condições físicas, limites de funcionamento e requisitos de segurança. A compreensão desses ativos e das suas interações é central para prever comportamentos, otimizar operações ou apoiar intervenções.
O caso apresentado foi o do Porto de Trieste, em Itália, onde a instalação de sistemas de fornecimento de eletricidade aos navios em cais encontrou limitações na capacidade da rede. Construir uma nova subestação de alta tensão seria dispendioso, demorado e particularmente difícil numa localização próxima do centro urbano.
A solução descrita combina um gémeo digital da rede elétrica, operado pelo distribuidor local, com uma integração-piloto em mercados locais de flexibilidade. A previsão das necessidades dos navios permite antecipar constrangimentos e gerir a capacidade disponível. A informação sobre a chegada de um navio e a potência de que vai precisar ajuda, assim, a preparar a resposta energética. O exemplo mostra como a eletrificação portuária depende de decisões coordenadas com o sistema energético da cidade.
Esta articulação tem consequências para o investimento. As infraestruturas portuárias são concebidas para décadas de utilização, enquanto as tecnologias evoluem a outro ritmo. A base digital deve permitir acompanhar essa evolução e adaptar decisões ao longo do tempo.
Sines quer transformar processos internos
Em Sines, o percurso apresentado por Cláudio Pinto parte da digitalização documental e das plataformas colaborativas e avança para novas áreas de inovação.
A agenda NEXUS reuniu empresas, entidades académicas e utilizadores do setor logístico no desenvolvimento de produtos e serviços. Entre os resultados apresentados estão o OpenSyllo, um espaço de dados e aplicações para a logística portuária, e a Port Cyber Arena, um ambiente de treino em cibersegurança.
O primeiro procura facilitar a partilha e utilização de dados e soluções digitais. O segundo permite preparar equipas para incidentes com componentes próximas da realidade operacional, abrangendo tanto sistemas informáticos como tecnologia utilizada nos terminais. O próximo ciclo de transformação deverá alargar estas capacidades aos processos internos da APS, articulando simplificação, digitalização, integração e automação com IA.
A execução dos investimentos é um dos campos identificados. Se as equipas responsáveis pela engenharia, contratação e acompanhamento financeiro ficam absorvidas por tarefas repetitivas, a dificuldade repercute-se no calendário dos projetos e depois na capacidade do porto.
Cláudio Pinto abordou ainda a utilização de ferramentas de IA pelos trabalhadores. As organizações precisam de disponibilizar condições para esse uso, proteger a informação e decidir que dados podem ser tratados em serviços externos. A possibilidade de executar alguns modelos na infraestrutura própria surge como uma opção para reforçar o controlo e a confidencialidade. A apresentação resumiu o critério que orienta esse percurso: “O objetivo não é ter mais tecnologia. É decidir e operar melhor, coletivamente.”, advogou.
Huelva começa pelos dados e pelo problema
Mafran Martínez Torres, responsável pelo Departamento de Tecnologia do Porto de Huelva, apresentou um percurso centrado numa constatação: diferentes serviços precisam frequentemente dos mesmos dados, embora os utilizem para finalidades distintas. A resposta que encontraram passou por desenvolver uma base comum de informação sobre a qual pudessem funcionar aplicações administrativas, operacionais e de comunidade portuária. A arquitetura recorre a tecnologia FIWARE e a modelos de dados abertos, procurando facilitar a integração e reduzir a dependência de fornecedores.
Essa preocupação acompanha uma opção pragmática: escolher tecnologia madura que consiga resolver o problema identificado e cuja manutenção possa ser assegurada. Os princípios apresentados incluem a preferência por soluções abertas com uma comunidade de suporte alargada e por sistemas com necessidades reduzidas de manutenção.
A experiência de Huelva mostrou também que a utilização depende da adaptação às equipas. Num dos exemplos, a interface de planeamento operacional foi desenvolvida com uma representação visual próxima de um videojogo, permitindo trabalhar sobre movimentos e cenários de forma mais intuitiva. O resultado pretendido é melhorar o serviço e a capacidade de negócio do porto. A sofisticação técnica fica subordinada à utilidade para quem planeia e executa as operações.
Salónica pede atenção ao que entra com a tecnologia
Christos K. Papadopoulos, do Departamento de Tecnologias de Informação e Comunicação do Porto de Salónica, recorreu à Odisseia para descrever um percurso de transformação feito de incerteza, escolhas e aprendizagem.
As promessas de soluções capazes de resolver todos os problemas foram comparadas ao canto das sereias. “Tecnologia atrativa sem propósito cria complexidade dispendiosa”, advertiu Papadopoulos na sua intervenção.
A adoção de uma plataforma pode trazer novas dependências, riscos e alterações na forma de trabalhar que precisam de ser compreendidos antes da decisão. A imagem do cavalo de Troia serviu para colocar essa responsabilidade em quem escolhe o que entra na organização e como será utilizado. O alerta estendeu-se à liderança, mas a transformação pertence à organização inteira. É verdade que as equipas de tecnologia gerem sistemas, mas são os diferentes serviços que têm de incorporar as mudanças nas rotinas e nas decisões.
Papadopoulos defendeu uma avaliação centrada no que melhora com a utilização das ferramentas. Mais aplicações, sensores ou painéis de controlo representam investimento; os resultados devem aparecer na colaboração, na qualidade das decisões e na capacidade de resposta.
Entre a visão dos copilotos portuários e o pragmatismo de Huelva, o painel deixou espaço para diferentes ritmos e soluções. Em Sines, a prioridade pode passar por acelerar processos internos. Em Trieste, a gestão digital da rede ajuda a responder às necessidades energéticas dos navios. O valor da transformação começa a tornar-se visível quando uma decisão chega mais cedo, um investimento avança ou uma operação encontra resposta para um constrangimento concreto.


