Antes de exportar hidrogénio, é preciso desembarcar turbinas, eletrolisadores e equipamentos industriais. Antes de fornecer eletricidade aos navios, é preciso saber quem investe, quem opera e quem paga. Na CIDIS 2026, a discussão sobre economia circular e novas energias mostrou como os negócios que estão a transformar os portos dependem da construção de cadeias de abastecimento viáveis. Em Setúbal, algumas já movimentam carga todos os dias.
Há regiões da América Latina com vento, sol e espaço para produzir os combustíveis que a Europa procura. Falta-lhes, porém, uma condição anterior à primeira exportação: capacidade portuária para receber os equipamentos necessários à construção das próprias unidades industriais. Turbinas eólicas, eletrolisadores e instalações de produção têm de chegar ao território e, em algumas das zonas com maior potencial energético, os portos são pequenos, os acessos limitados e a logística de carga de projeto insuficiente. A oportunidade começa, por isso, com um problema de abastecimento.
O exemplo foi apresentado por Pedja Živojnović, da consultora independente Port Consultants Rotterdam, na sessão sobre novos negócios da economia circular e novas energias da CIDIS 2026. Realizada em Lisboa, nos dias 19 e 20 de outubro, a conferência dedicou este painel às atividades que podem dar aos portos novas fontes de receita e um papel mais relevante nas cadeias industriais.
O debate cruzou as oportunidades identificadas por Paula Sengo, da ESPO e do Porto de Lisboa, com a leitura crítica de Karel van den Berghe, da Universidade Técnica de Delft, a perspetiva internacional de Živojnović e os exemplos portugueses apresentados por Pedro Ponte, da Administração dos Portos de Setúbal e de Sesimbra.
Das intervenções resultou uma diferença importante entre reconhecer potencial e conseguir explorá-lo. Energia disponível, tecnologia e localização favorável ajudam, mas os projetos precisam também de clientes, infraestrutura, financiamento e regras suficientemente previsíveis para sustentar decisões de investimento.
Quem paga a eletricidade no cais?
“Quem é que vai investir? Quem é que investe em quê? Quem é que vai operar? Quem é que vai pagar?”. As perguntas de Paula Sengo colocaram o fornecimento de eletricidade aos navios em cais, conhecido pela sigla OPS, no terreno das decisões de negócio.
A instalação dos equipamentos abre uma atividade com responsabilidades e custos que precisam de ser distribuídos. É necessário definir quem assegura o investimento, quem explora o serviço, como se estabelecem as tarifas e em que condições os navios vão utilizá-lo. A resposta depende da capacidade da rede elétrica, da compatibilidade tecnológica, da preparação das equipas e da adesão dos utilizadores. O desafio, como explicou a responsável lusa, é transformar a infraestrutura num serviço competitivo e economicamente sustentável.
A mesma preocupação atravessa o projeto de navegabilidade do estuário do Tejo. Transferir mercadorias da estrada para o rio pode aliviar a pressão rodoviária e criar uma alternativa de transporte. Mas captar carga exige integrar essa alternativa numa cadeia multimodal que responda às necessidades das empresas.
A componente digital deverá ajudar a gerir essas ligações. Paula Sengo associou o Smart Port LX à monitorização ambiental, ao acompanhamento de tráfego e congestionamentos e à produção de previsões e alertas. A utilidade dos dados mede-se, nesta perspetiva, pelas decisões que permitem melhorar.
A circularidade e as escolhas difíceis
A economia circular representa uma renovação ou o fim da licença para operar dos portos? “As duas coisas”, respondeu Karel van den Berghe. A resposta à pergunta que dava título à apresentação antecipou uma leitura crítica das mudanças em curso.
Para o investigador, os objetivos ambientais, a segurança e os custos acessíveis nem sempre são conciliáveis sem escolhas difíceis. A economia circular ganhou espaço nos portos por oferecer às empresas uma forma de traduzir a sustentabilidade em atividades económicas. Mais recentemente, as tensões geopolíticas e a preocupação com a segurança do abastecimento alteraram as prioridades.
Recuperar materiais, reutilizar produtos e aproximar a produção dos mercados passou também a ser uma forma de reduzir dependências externas. A circularidade encontra, assim, uma justificação adicional na autonomia estratégica.
Esta mudança tem consequências para o próprio papel dos portos. Além de facilitar a circulação de mercadorias, são chamados a apoiar capacidade industrial, preservar recursos e articular interesses territoriais. O investigador questionou se os modelos de governação desenvolvidos durante a expansão da globalização estão preparados para responder a estas exigências.
A sua intervenção deixou uma tensão que acompanhou o restante painel: proteger o que existe e criar condições para novas atividades são tarefas que podem disputar recursos, espaço e prioridades.
Entre a promessa e a decisão de investir
A apresentação de Pedja Živojnović mostrou como estas escolhas se traduzem nas novas cadeias energéticas. Roterdão prepara-se para receber diferentes combustíveis e veículos de transporte de hidrogénio, com necessidades distintas de armazenamento, segurança e abastecimento. O consultor destacou o metanol como uma opção particularmente promissora, pela experiência existente no seu manuseamento e pelas possibilidades de utilização no transporte marítimo, na produção de combustíveis de aviação e na indústria química.
A combinação de produção local, importações e procura de vários setores pode ajudar a sustentar esse mercado. Do lado dos potenciais fornecedores, contudo, há projetos que continuam à procura das condições necessárias para avançar.
Na América Latina, Živojnović identificou oportunidades no Brasil, no Uruguai e no Chile, mas também dificuldades de licenciamento, carência de infraestrutura, falta de mão de obra especializada e incerteza para os investidores. O recurso energético pode ser competitivo e, ainda assim, o projeto continuar sem decisão final de investimento.
É aqui que a logística ganha importância. Para além de assegurar a futura exportação, tem de permitir construir as fábricas, transportar equipamentos e ligar a produção aos compradores. Se previamente a cadeia não funcionar, dificilmente vai gerar a receita esperada.
Em Setúbal, a circularidade já tem carga
Pedro Ponte trouxe a discussão para atividades existentes na comunidade portuária de Setúbal. A siderurgia é um dos exemplos. A sucata entra na cadeia de produção da Megasa, é transformada em aço e regressa aos mercados sob a forma de produtos industriais. Segundo os dados apresentados, o grupo recicla 2,2 milhões de toneladas de sucata por ano em Portugal e movimenta aproximadamente um milhão de toneladas anuais através do Porto de Setúbal.
A eficiência dos transportes influencia diretamente esta operação. Na apresentação, o reforço da ferrovia e o recurso ao transporte marítimo surgem associados à competitividade industrial e à redução das emissões da cadeia logística.
Outro exemplo é a Eco-Oil, que trata resíduos oleosos dos navios e recupera materiais para produzir o combustível industrial EcoGreen Power. Pedro Ponte apresentou uma taxa de circularidade de 99%, mostrando uma atividade em que os resíduos alimentam um novo processo produtivo. “É efetivo, não é plano, não é daqui a uns anos, é agora que está a acontecer”, sublinhou Pedro Ponte, ao abordar os resultados desta operação.
Na Etermar, as oportunidades passam também pela fabricação de estruturas para a energia offshore. A apresentação incluiu a produção de 107 plataformas de betão para o projeto eólico Baltica 2, na Polónia, e o desenvolvimento de uma fundação flutuante no âmbito do BayFloat.
Outras iniciativas encontram-se numa fase anterior. É o caso do ONDEP, que prevê quatro módulos de energia das ondas, com uma potência conjunta de 2 MW, a instalar em Peniche até 2029.
O painel reuniu operações atuais, projetos em desenvolvimento e possibilidades futuras, com diferentes graus de maturidade e de risco e os exemplos portugueses deram uma expressão concreta à discussão internacional. A transformação dos portos já se vê na sucata que alimenta a siderurgia, nos resíduos recuperados e nas estruturas industriais destinadas a novos mercados energéticos. A expansão destas atividades dependerá da capacidade de ligar fornecedores, fábricas, terminais e clientes e de fazer essa ligação funcionar com custos e prazos que permitam continuar a investir.


