Mais capacidade nos terminais exige ferrovia, energia disponível, informação que circule e condições para investir. Na primeira sessão da CIDIS 2026, as perspetivas da UNCTAD, da União Europeia, de Espanha e de Portugal convergiram nesta dependência: a transformação dos portos precisa de decisões coordenadas ao longo da cadeia logística. A estratégia portuguesa prevê cerca de quatro mil milhões de euros de investimento até 2035, com uma forte concentração de procedimentos a lançar em 2027.

Um porto pode movimentar carga com eficiência e perder essa vantagem quando a mercadoria sai do terminal; pode preparar a eletrificação do cais e continuar à espera de potência na rede; pode testar uma solução digital sem conseguir que os restantes intervenientes troquem informação com ela. Noutros termos: à medida que se alargam as funções dos portos, cresce também o número de decisões de que depende o seu desempenho.

Foi esta relação entre ambição portuária e capacidade de execução que atravessou a primeira sessão da Conferência Internacional sobre Desempenho, Inovação e Sustentabilidade dos Portos – CIDIS 2026, realizada nos dias 19 e 20 de outubro, no auditório da Agência Europeia da Segurança Marítima, em Lisboa. Organizado pela Logistel e pela Católica Porto School of Business and Economics, o encontro reuniu perspetivas internacionais sobre um setor chamado a responder, em simultâneo, às mudanças no comércio, à transição energética e a novas exigências de segurança.

Na sessão dedicada à estratégia, presidida por Teresa Cardoso, a discussão ligou as pressões globais apresentadas por Frida Youssef, da UNCTAD, às prioridades europeias expostas por Rita Candeias, do IMT, e às opções de Espanha e Portugal, apresentadas por Manuel Arana, da Puertos del Estado, e Luís Silva Lopes, do Gabinete do Secretário de Estado das Infraestruturas.

Crescer num sistema menos previsível

Entre 2014 e 2024, o comércio marítimo mundial cresceu cerca de 20% e a movimentação portuária de contentores aumentou aproximadamente 37%, segundo os dados apresentados por Frida Youssef. Esse crescimento ocorreu num contexto marcado por perturbações sucessivas e sobrepostas, das tensões comerciais à pandemia, dos conflitos às restrições climáticas. Os efeitos propagam-se pela cadeia: alterações de rotas e escalas, percursos mais longos, pressão sobre a capacidade dos navios, congestionamento e oscilação dos custos de transporte. As respostas necessárias para manter a carga em movimento podem, por sua vez, agravar o consumo energético e as emissões.

Para a representante da UNCTAD, preparar os portos para este contexto implica incorporar a resiliência no planeamento, nas operações e no investimento. A continuidade do abastecimento depende também dessa preparação, com consequências em áreas como a segurança alimentar.

A transição energética acrescenta uma dificuldade: os portos têm de tomar decisões sobre infraestruturas duradouras quando a combinação futura de combustíveis marítimos permanece incerta. Ao mesmo tempo, abrem-se oportunidades na produção de energia renovável, no armazenamento, na distribuição e no abastecimento aos navios.

Rita Candeias trouxe esta discussão para a estratégia europeia. Muitos dos constrangimentos portuários, explicou, dependem de decisões que ultrapassam a capacidade de atuação das administrações dos portos. A rede elétrica e as acessibilidades ferroviárias são apenas dois exemplos.

O mesmo acontece com a informação. Ter bons sistemas em cada organização exige interoperabilidade para produzir ganhos ao longo da cadeia. A intervenção chamou ainda a atenção para a dificuldade de passar da experimentação à utilização das soluções em maior escala.

Na energia, fornecer eletricidade aos navios em cais requer equipamentos, potência disponível, capacidade de rede, embarcações preparadas e a sua concretização obriga a coordenar portos, armadores, operadores energéticos e autoridades públicas.

Também o financiamento começa antes da candidatura: projetos preparados, capacidade técnica, previsibilidade no licenciamento e estabilidade regulamentar condicionam a mobilização do investimento.

 

Espanha investe para corrigir o desequilíbrio em terra

Manuel Arana, dos Puertos del Estado de Espanha, apresentou um exemplo concreto dessa necessidade de articulação. Depois de um forte crescimento da capacidade marítima entre 2000 e 2015, Espanha identificou um desequilíbrio nas ligações terrestres aos seus portos.

O fundo de acessibilidade terrestre portuária procura responder a esse problema. A apresentação aponta para 1.931 milhões de euros, dos quais 875 milhões provenientes das autoridades portuárias, com 90% destinados à ferrovia. As intervenções abrangem acessos de última milha, troços da rede geral que beneficiem o sistema portuário e plataformas intermodais.

Na eletrificação, o investimento previsto das autoridades portuárias espanholas em fornecimento de eletricidade aos navios em cais ascende a 800 milhões de euros entre 2021 e 2030. Arana destacou dificuldades relacionadas com a capacidade da rede, a concorrência pela potência disponível e a compatibilização das regras dos setores portuário e energético.

A experiência espanhola mostrou, assim, como as prioridades estratégicas exigem instrumentos para investir e mecanismos para coordenar entidades com responsabilidades diferentes.

 

Portugal prepara uma década de investimento

A apresentação da PORTOS 5+ colocou a execução no centro da perspetiva portuguesa. Luís Silva Lopes expôs um programa de aproximadamente quatro mil milhões de euros até 2035, dos quais cerca de três mil milhões deverão ser assegurados por investimento privado.

O crescimento da capacidade concentra a maior parcela, mas a estratégia abrange também intermodalidade, descarbonização, digitalização, integração territorial e segurança. Entre os projetos estão a expansão de terminais, novas plataformas intermodais, melhoria de acessos, eletrificação e a evolução da Janela Única Logística.

O calendário apresentado prevê uma concentração de lançamentos em 2027, incluindo procedimentos associados aos novos terminais de contentores e Ro-Ro de Leixões, ao terminal Vasco da Gama em Sines, a terminais em Setúbal e Aveiro e ao estaleiro naval da Mitrena. Trata-se de um calendário previsto de lançamento, distinto da entrada em funcionamento das infraestruturas.

A ambição para 2035 inclui aumentar a carga movimentada em 50%, para cerca de 125 milhões de toneladas, e os contentores em 70%, para aproximadamente 6,5 milhões de TEU.

A questão que atravessou a sessão ganha aqui expressão concreta: para transformar investimento em capacidade útil às empresas, os terminais precisam de ligações terrestres, energia e processos preparados para acompanhar o crescimento. É nessa articulação que os calendários apresentados começam a ser postos à prova.