O 11.º Congresso da GS1 Portugal reuniu líderes empresariais, especialistas e responsáveis institucionais para debater o papel da confiança no crescimento económico, na transformação digital e na adoção responsável da inteligência artificial. A qualidade dos dados, a transparência e a capacidade de adaptação das organizações estiveram no centro das reflexões.

A confiança está a assumir um papel cada vez mais estratégico na competitividade das empresas, particularmente num contexto marcado pela aceleração tecnológica e pela crescente utilização da inteligência artificial (IA). Esta foi uma das principais conclusões do 11.º Congresso da GS1 Portugal, realizado a 13 de outubro, em Lisboa, sob o tema “Economia da Confiança: o novo ativo estratégico das empresas” e reunindo representantes de diferentes setores de atividade para analisar os desafios da liderança, da inovação, da produtividade e da transformação digital, destacando a importância de conciliar os avanços tecnológicos com a responsabilidade e o conhecimento humano.

Na abertura do congresso, Pedro Cid, presidente da Direção da GS1 Portugal, salientou que a transformação tecnológica depende não apenas da inovação, mas também da capacidade de estabelecer relações de confiança entre empresas, instituições e consumidores. “Nenhuma grande transformação acontece apenas porque existe uma nova tecnologia. Acontece quando conseguimos criar confiança suficiente para a utilizar em conjunto”, afirmou.

O responsável sublinhou ainda o papel dos standards GS1 na criação de uma linguagem comum que facilita a interoperabilidade dos sistemas, a rastreabilidade dos produtos e a circulação de informação de qualidade ao longo das cadeias de valor. “O futuro pode ser tecnológico, mas a confiança continuará a ser humana”, reforçou.

Liderança e confiança como motores de crescimento

A importância da confiança nas relações empresariais esteve também em destaque na conversa entre Filipe de Botton, executive chairman da Logoplaste, e Nuno Pinto Magalhães, chairman da Sociedade Central de Cervejas e Bebidas.

Filipe de Botton defendeu que as relações comerciais sustentáveis devem assentar numa lógica de parceria, considerando a confiança um elemento essencial para criar valor a longo prazo. Na sua perspetiva, o sucesso empresarial resulta de um conjunto de fatores, entre os quais a diferenciação e a capacidade de estabelecer relações sólidas.

Sobre a crescente adoção da IA, aconselhou os novos empreendedores a encararem a tecnologia como uma ferramenta de apoio e não como um substituto do pensamento humano. “A capacidade de juízo humano não deve ser substituída”, advertiu.

A relação entre confiança e financiamento foi abordada por Luís Guimarães, chief commercial officer do Banco Português de Fomento, que destacou a importância deste fator na concretização de projetos empresariais, sobretudo quando o seu potencial ainda não é totalmente conhecido. O responsável reafirmou também a disponibilidade da instituição para apoiar projetos de internacionalização.

Por sua vez, Gustavo Duarte, presidente da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal, considerou que a próxima década será determinante para reforçar a competitividade da economia portuguesa. Apesar de reconhecer a capacidade das empresas nacionais para competir nos mercados internacionais, identificou a burocracia, o tempo despendido em tarefas não produtivas e a insuficiência de dados como obstáculos ao crescimento. O responsável defendeu uma redução da carga administrativa e um enquadramento mais previsível para a atividade empresarial, sublinhando que “a confiança não se declara: mede-se, cumpre-se e partilha-se”.

IA exige responsabilidade e supervisão humana

A inteligência artificial ocupou uma parte significativa dos trabalhos, com os especialistas a reconhecerem o seu potencial para aumentar a produtividade e transformar os modelos de negócio, sem desvalorizar os riscos associados à sua utilização.

Ana Paiva, professora catedrática de Inteligência Artificial do Instituto Superior Técnico, abordou a evolução dos agentes autónomos de IA e a necessidade de estabelecer níveis de confiança ajustados às capacidades demonstradas pelos sistemas. A especialista alertou que, nas decisões com maior risco ou consequências significativas, o controlo deve permanecer nas mãos das pessoas, uma vez que a responsabilidade não pode ser delegada na tecnologia.

Também Paulo Portas, ex-vice-primeiro-ministro e docente na NOVA SBE, refletiu sobre os impactos da IA, enquadrando-os nos desafios geopolíticos e económicos enfrentados pela Europa. Na sua intervenção, destacou a demografia, a energia, a produtividade e o investimento em inovação como dimensões fundamentais para o futuro europeu. Relativamente à inteligência artificial, reconheceu oportunidades em áreas como a saúde, o envelhecimento e a produtividade, mas alertou para os desafios que a tecnologia coloca ao emprego, à justiça e à defesa. Paulo Portas defendeu ainda a necessidade de encontrar um equilíbrio entre a regulação europeia e a abordagem mais liberal dos Estados Unidos, reiterando a importância de preservar o controlo humano sobre decisões críticas, nomeadamente em matéria de segurança e defesa.

Qualidade dos dados é essencial 

A disponibilidade e a qualidade da informação foram apontadas como condições indispensáveis para uma utilização eficaz da inteligência artificial nas organizações.

Arlindo Oliveira, presidente do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores (INESC), explicou que o desenvolvimento da IA resulta da combinação de maior capacidade computacional, disponibilidade de dados e evolução dos algoritmos. O especialista destacou o potencial dos agentes de IA para automatizar processos, melhorar a produtividade e impulsionar novos modelos de negócio. No entanto, alertou que estas ferramentas não conhecem, por si só, a realidade específica de cada organização.

Por esse motivo, a qualidade dos resultados depende da escolha adequada dos modelos, da disponibilização de informação contextualizada e da definição de instruções rigorosas. Esta perspetiva foi aprofundada num debate dedicado aos dados, à cibersegurança e à inteligência artificial, que contou com representantes da Microsoft Portugal, Claranet Portugal, Google Cloud e Wiimer.

André Mestre, cloud & AI sales lead da Microsoft Portugal, defendeu que os agentes de IA devem receber um processo de integração semelhante ao dos colaboradores, de forma a compreenderem os objetivos, os procedimentos e o contexto das organizações.

João Mira Santiago, diretor executivo da Claranet Portugal, identificou a otimização e a aceleração dos processos como prioridades para as empresas.

Já Jorge Catalão Ramos, head of retail Google da Google Cloud, destacou os ganhos de eficiência proporcionados pela IA, mas alertou para os riscos da propagação de informação incorreta ao longo da cadeia de valor e da perda de profundidade na análise dos temas.

Miguel Moreira da Silva, managing partner da Wiimer, reforçou a importância da literacia em inteligência artificial e da formação de líderes com competências nas áreas dos dados e da governação tecnológica.

 

IA está a transformar decisões de compra

O impacto da inteligência artificial no comportamento dos consumidores constituiu outro dos temas centrais do dia.

Robert Beideman, chief product officer da GS1 Global, apresentou dados segundo os quais 84% das pessoas utilizam ferramentas de IA e 38% recorrem a estas soluções para apoiar as suas decisões de compra. Esta mudança coloca novos desafios às empresas, que precisam de garantir que a informação sobre os seus produtos é fiável, estruturada e facilmente interpretada, tanto pelos consumidores como pelos sistemas de inteligência artificial.

Neste contexto, a adoção da codificação bidimensional GS1 assume especial relevância, ao permitir disponibilizar informação mais completa sobre os produtos e melhorar a transparência e a rastreabilidade nas cadeias de abastecimento. A utilização destes standards poderá contribuir para reforçar a confiança na informação disponibilizada, numa altura em que os sistemas de IA assumem um papel crescente na pesquisa, comparação e seleção de produtos.

GS1 Portugal apresenta nova arquitetura de marca

No encerramento do congresso, Paulo Gomes, diretor-geral da GS1 Portugal, destacou que a confiança constituiu o elemento transversal aos diferentes debates realizados ao longo do encontro. O responsável defendeu que as organizações mais resilientes e competitivas serão aquelas que conseguirem transformar a confiança em valor, através da utilização de dados fiáveis, da transparência e da capacidade de tomar decisões informadas. Neste âmbito, reforçou o contributo do Sistema de Standards GS1 e da codificação bidimensional para melhorar a qualidade da informação, a interoperabilidade e a rastreabilidade dos produtos.

Paulo Gomes apresentou ainda a nova arquitetura de marca da organização, através da qual a GS1 Portugal mantém a sua identidade corporativa, enquanto a CODIPOR reforça o posicionamento como parceira das empresas na transformação da informação em conhecimento e ação.

O 11.º Congresso da GS1 Portugal terminou, assim, com uma mensagem centrada na necessidade de aliar inovação tecnológica, qualidade dos dados e competências humanas. Num ambiente empresarial cada vez mais digital e interligado, a confiança afirma-se como um ativo estratégico para a competitividade, a sustentabilidade e o crescimento das organizações.