A energia está a afirmar-se como um dos pontos mais sensíveis na procura por espaço logístico na Europa, de acordo com o European Logistics Census 2026, da BGRE e da Savills.

O estudo, que envolveu 628 participantes, dos quais 504 empresas ocupantes, mostra que a procura se mantém, mas está mais exigente. Assim, quase metade das empresas pretende edifícios novos ou à medida e 80,9% prevê o aumento das necessidades de potência elétrica nos próximos três anos.

Além disso, mais de um terço dos ocupantes (38%) diz que o negócio está melhor do que há um ano e 41% espera melhorias nos próximos 12 meses. Só 8% antecipa uma deterioração. Perto de metade (47%) conta aumentar a área de armazenagem nos próximos um a três anos, mas 54% admite deixar pelo menos um edifício. O fim dos contratos é a ocasião para trocar espaços desajustados por instalações mais produtivas.

Até junho, a área contratada na Europa chegou aos 14,01 milhões de m², mais 21% do que um ano antes. “A atividade continua apoiada em fatores estruturais, como a resiliência das cadeias de abastecimento, o nearshoring e a necessidade de redes de distribuição mais eficientes. É por isso que o volume de ocupação se manteve elevado, mesmo num contexto económico mais difícil”, enquadra Kevin Mofid, head of EMEA Industrial & Logistics Research da Savills.

Entre os ocupantes, 47% procura construção nova e a mesma percentagem admite soluções build-to-suit, contra 19% que equaciona imóveis usados. Para o relatório, trata-se da continuação do flight to quality, que deverá afastar ainda mais os ativos modernos do resto do mercado. Potência elétrica, especificações técnicas, acesso a mão de obra e capacidade de adaptação passaram a definir o que é um armazém prime.

Portugal é nono na procura

A energia é o ponto mais sensível e 89% dos ocupantes antecipam necessidades de potência maiores nos próximos três anos. Mais de um quarto (26%) diz já não ter capacidade suficiente nas instalações atuais e 50% aponta o investimento em infraestruturas energéticas como a medida pública mais útil. A tecnologia vai aumentar esta pressão, com mais de metade dos ocupantes a planear investir mais em inteligência artificial e 42% em automação de armazéns.

Os ocupantes já não querem apenas espaço: “Procuram ativos capazes de acolher operações mais complexas, com maior peso da tecnologia, e de garantir eficiência a longo prazo”, comenta, a propósito, Ben Segelman, Head of Europe Industrial & Logistics da BGRE.

O relatório identifica ainda um desfasamento entre a procura e a construção. Os ocupantes dividem-se entre grandes armazéns e unidades de média dimensão, mas 62% dos promotores apostam agora no formato médio, contra 38% em 2025. A disponibilidade de energia é o principal travão, apontado por 77%.

Do lado do investimento, o volume aplicado em logística na Europa somou 18,7 mil milhões de euros até junho, 10% abaixo da média de longo prazo. Só 34% dos investidores esperam uma subida nos próximos 12 meses, contra 57% em 2025, mas 81% apontam a logística prime como alvo, mais do que os 73% do ano anterior.

Investidores e ocupantes escolhem mercados diferentes: quem investe prefere o Reino Unido, Espanha e Alemanha, enquanto quem ocupa olha primeiro para França e Alemanha, com Portugal a ser nono lugar nessa lista.

Para Tiago Cortez, associate director, Industrial, Logistics & Data Centres da Savills Portugal, a energia joga a favor do país: “Subimos duas posições face ao estudo de 2025. A disponibilidade de energia é um fator central nas decisões de investimento e pesa ainda mais na indústria e na logística. As tecnologias que os ocupantes querem implementar são, por ordem de importância, a inteligência artificial, a eletrificação das frotas e a robótica e automação, e as empresas pretendem acelerar o caminho para a neutralidade carbónica. Portugal parte com vantagem nestas áreas, com potência disponível, uma das maiores quotas de renováveis e preços de energia entre os mais baixos da Europa.”