O que uma organização compra, a quem e em que condições tem consequências que se estendem por toda a cadeia de abastecimento. Margarida Natal Mendes, Head of Sustainability Consulting Department da Aliados Consulting, analisa como as compras públicas e privadas podem dar expressão aos compromissos de sustentabilidade e incentivar melhorias ambientais e sociais junto dos fornecedores.
Falamos frequentemente de sustentabilidade como um compromisso das organizações. Mas e se uma parte significativa da transformação que procuramos estiver, afinal, nas relações económicas que estabelecemos todos os dias?
Segundo o CDP, as emissões associadas às cadeias de fornecimento das empresas analisadas são, em média, 26 vezes superiores às suas emissões operacionais. E o desafio vai muito além do carbono.
Uma organização pode apresentar operações ambientalmente eficientes e, simultaneamente, contribuir para impactos sociais negativos através das suas compras, nomeadamente ao nível dos direitos humanos e das condições laborais nas cadeias de subcontratação. Afinal, nenhuma organização existe isoladamente: fazemos parte de um ecossistema económico, social e ambiental, do qual dependemos e sobre o qual exercemos influência.
É neste contexto que as compras responsáveis assumem uma dimensão estratégica, ao permitirem transformar compromissos em incentivos concretos para o mercado. Um desafio complexo, que exige cooperação entre diferentes partes interessadas, frequentemente com prioridades, recursos e níveis de maturidade distintos.
No setor privado, a maior flexibilidade na definição de políticas de compra e na gestão das relações comerciais abre espaço a diferentes abordagens. Contudo, essa liberdade não garante, por si só, a transformação. Tudo começa com o compromisso da liderança e uma governação capaz de articular compras, sustentabilidade, operações e gestão financeira. De pouco serve uma estratégia ambiciosa se as decisões de compra continuarem a privilegiar exclusivamente o preço de aquisição.
E não precisamos de esperar por grandes investimentos. Amanhã, uma organização pode rever as especificações de uma categoria de compras, dialogar com fornecedores prioritários sobre riscos sociais e ambientais ou integrar objetivos de melhoria no acompanhamento contratual.
Importa, porém, reconhecer que avaliar não é o mesmo que transformar. O índice de sustentabilidade da EcoVadis de 2026 revela que apenas 26% das empresas avaliadas possuem um inventário de emissões de gases com efeito de estufa. A avaliação permite identificar prioridades, mas é através da capacitação, de planos de melhoria e do acompanhamento contínuo que o diagnóstico se traduz em progresso.
Existem, aliás, alternativas a uma relação exclusivamente transacional: partilha de conhecimento, inovação colaborativa e investimentos conjuntos. Empresas da mesma cadeia de valor podem tornar-se parceiras na resolução de desafios comuns, sem abdicar da exigência e da responsabilização.
No setor público, o enquadramento jurídico é distinto, mas o potencial transformador é igualmente significativo. Em Portugal, a ECO360, Estratégia Nacional para as Compras Públicas Ecológicas 2030, reforça esta ambição. A contratação pública pode orientar a procura e valorizar desempenhos de sustentabilidade verificáveis. A CO₂ Performance Ladder, instrumento que utiliza a contratação para incentivar a descarbonização empresarial, ilustra esse potencial: segundo o seu Relatório de Impacto de 2024, as organizações certificadas apresentam reduções de emissões, em média, duas vezes mais rápidas do que as não certificadas.
Mas uma contratação responsável começa muito antes da adjudicação. Implica questionar a necessidade da aquisição, conhecer a capacidade do mercado e construir modelos de avaliação que valorizem resultados verificáveis, assegurando o seu acompanhamento durante a execução contratual. De pouco serve premiar compromissos de sustentabilidade se não existirem mecanismos para verificar o seu cumprimento.
Os setores público e privado têm, por isso, muito a ganhar com uma maior aproximação. A procura pública pode estimular soluções que o setor privado desenvolve e escala, enquanto a inovação empresarial pode contribuir para uma contratação pública mais eficaz.
Comprar responsavelmente não significa procurar fornecedores perfeitos. Significa compreender os nossos impactos, assumir responsabilidades e utilizar a influência económica que temos para promover melhorias reais.
A transformação começa com um compromisso, consolida-se através da governação e ganha escala quando mobilizamos toda uma cadeia de valor. Porque a verdadeira mudança não está apenas em fazer diferente, mas em conseguir que outros evoluam connosco.
Margarida Natal Mendes, Head of Sustainability Consulting Department | Aliados Consulting


