A maioria dos líderes séniores de procurement espera que a inteligência artificial melhore significativamente o desempenho da função nos próximos três anos, mas apenas um quarto dos líderes já redesenhou funções em consequência da sua implementação. A Gartner alerta para os riscos de transformar a tecnologia sem preparar as equipas.

A inteligência artificial está a mudar o trabalho em procurement, mas a reorganização das funções não acompanha as expectativas sobre os seus benefícios. Segundo resultados divulgados pela Gartner a 8 de outubro, 63% dos líderes séniores de procurement antecipam melhorias significativas no desempenho nos próximos três anos, enquanto apenas 25% dos líderes já alteraram funções e responsabilidades como consequência direta da implementação de IA.

Os dados provêm de dois inquéritos concluídos em abril de 2026: o “Gartner Chief Procurement Officer Survey”, com 213 líderes séniores de procurement, e o “Gartner C-Suite AI Survey”, que reuniu 1.303 participantes de várias funções empresariais, incluindo 134 responsáveis de procurement. As percentagens refletem, por isso, amostras distintas.

Para a Gartner, o desfasamento pode deixar as organizações com competências desajustadas às suas necessidades, afetar a motivação dos trabalhadores e comprometer a competitividade. Fareen Mehrzai, analista sénior da área de Supply Chain, defende que a implementação de IA exige uma revisão do trabalho: que responsabilidades mudam, que capacidades passam a ser necessárias e que percurso fica disponível para os profissionais.

Rever tarefas e preparar as pessoas

Na análise da Gartner, as funções de qualificação intermédia estão particularmente expostas, por concentrarem trabalho padronizado suscetível de ser automatizado. A consultora antecipa uma deslocação da procura para funções de menor exigência de qualificação, fortemente apoiadas por IA, e para posições de maior qualificação, que exigem criatividade e resolução de problemas complexos.

A recomendação é que os responsáveis de procurement avaliem as funções em conjunto com as equipas, identificando as tarefas que devem permanecer nas mãos das pessoas e aquelas que podem passar para a tecnologia. Essa avaliação deve acompanhar o desenvolvimento de competências como a capacidade de influência, a adaptação à mudança e o discernimento ético.

A Gartner propõe ainda que as organizações criem condições para os trabalhadores experimentarem ferramentas e novas formas de trabalhar, com espaço para aprender e corrigir tentativas que não resultem. Explicar os objetivos da adoção de IA, ouvir as preocupações das equipas e promover a partilha de experiências fazem parte desse processo.

O redesenho das funções deve, assim, ser revisto à medida que a tecnologia evolui e a sua utilização revela o que funciona na prática. Para os responsáveis de procurement, fica uma questão: à medida que a IA assume tarefas, estão as equipas a ganhar condições para assumir novas responsabilidades?

 

Fontes e leitura adicional: Os resultados e as recomendações estão disponíveis no comunicado público da Gartner. A consultora remete também para o relatório The AI Talent Stack: Managing Job Chaos in Procurement,