Operadores logísticos e clientes partilham uma visão próxima sobre as soluções para reduzir emissões. A dificuldade está em concretizá-las, sobretudo quando exigem investimento elevado, infraestruturas e coordenação entre empresas e poderes públicos. É uma das principais conclusões do primeiro Global Sustainable Logistics Survey, que recolheu respostas de 1.085 profissionais em 64 países.

Promovido pela Kühne Logistics University e pelo Kuehne Climate Center, o estudo identifica um desfasamento entre a eficácia atribuída às soluções de sustentabilidade e a sua adoção. A otimização de rotas, a coordenação digital, a otimização das cadeias de abastecimento e a eficiência operacional surgem entre as medidas consideradas mais disseminadas. São também soluções que as empresas conseguem concretizar com maior autonomia e que podem trazer benefícios económicos diretos.

Entre as medidas consideradas menos adotadas encontram-se as infraestruturas de abastecimento e carregamento de baixo carbono, os combustíveis de baixo carbono, os mecanismos de preço do carbono e a descarbonização ferroviária e intermodal. Embora reconhecidas como eficazes, estas soluções são vistas como mais difíceis de implementar.

A comparação das respostas de prestadores de serviços logísticos e de empresas clientes revela avaliações muito próximas das 21 soluções analisadas. Para os autores, os resultados sugerem que a menor adoção de determinadas medidas está sobretudo associada à sua viabilidade de execução. O avanço depende de condições que ultrapassam a capacidade de decisão de uma empresa: redes de carregamento, terminais, ligações ferroviárias, enquadramento político e investimento coordenado.

 

Adaptação climática exige redesenhar redes

A adaptação às alterações climáticas acrescenta outra pressão sobre o setor. No conjunto da amostra, 83% dos profissionais consideram que a adaptação climática exigirá um redesenho profundo das redes logísticas, mas apenas 45% entendem que os esforços atuais são adequados para o futuro previsível. Entre os inquiridos europeus, essa proporção desce para 23%.

O calor extremo surge como o risco mais urgente para ativos e operações em todas as regiões e modos de transporte analisados. Reforçar a resistência das infraestruturas aos impactos climáticos, avaliar riscos e desenvolver cenários, bem como utilizar ferramentas digitais de monitorização, são as medidas de adaptação consideradas mais eficazes pelos participantes.

Os resultados apontam também para uma possível complementaridade entre as duas frentes da transição: 77% dos inquiridos consideram que os esforços de adaptação climática estão alinhados com as estratégias de descarbonização.

 

Competências também condicionam a mudança

O relatório identifica ainda necessidades de competências que variam entre regiões. Na Europa Ocidental, 43% dos inquiridos assinalam escassez de pensamento sistémico, entendido como a capacidade de compreender as ligações entre as diferentes componentes de uma operação ou cadeia de abastecimento. Noutras regiões, as carências percebidas concentram-se mais no cálculo e reporte de emissões.

Os autores admitem que estas diferenças possam refletir momentos distintos da transição. Nas regiões onde algumas competências técnicas estão mais consolidadas, ganham maior expressão as necessidades de análise, visão estratégica e envolvimento da gestão de topo.

As respostas ao primeiro Global Sustainable Logistics Survey foram recolhidas entre março e agosto de 2026. A Ásia representa 29,6% da amostra, a América do Norte 27,6% e a Europa 25,6%. O estudo abrange o transporte de mercadorias e a armazenagem e assenta nas perceções dos participantes, analisadas através de estatística descritiva.

Esta primeira edição estabelece uma base para acompanhar a evolução da logística sustentável ao longo da Década das Nações Unidas para o Transporte Sustentável, de 2026 a 2035. O relatório apresenta ainda dez recomendações para decisores políticos e 12 para profissionais do setor.

A leitura proposta pelos autores coloca a execução no centro do debate: acelerar a transição exige criar condições para que soluções já reconhecidas pelo setor possam passar dos projetos-piloto à operação quotidiana.