Depois de mais de três décadas de carreira, vividas em empresas familiares, multinacionais e organizações portuguesas de diferentes dimensões, Carla Lacerda questiona o verdadeiro significado de “vestir a camisola”. Entre o compromisso, a pressão operacional e o necessário equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, defende que o sentido de pertença não se impõe: conquista-se.

 

O setor da logística e dos transportes está sempre acordado!… e não é para qualquer um. Imprevistos constantes, sucessos invisíveis e, quando há erros… toda a gente nota.

Tenho 52 anos e comecei a trabalhar aos 19. Tenho uma paixão pela gestão operacional e pela adrenalina dos desafios. Não passei por dezenas de empresas, mas vivi realidades profundamente diferentes: trabalhei na empresa média e familiar do meu pai, hoje já reformado, mas ainda um grande conselheiro, passei por duas multinacionais, por duas grandes empresas portuguesas e, hoje, estou numa pequena organização.

É extremamente interessante notar que, em todas elas, sem exceção, ouve-se aqui e ali a mesma expressão, quase como uma reza ou um guia sagrado: “Temos de vestir a camisola!”

A minha perspetiva, como colaboradora, ensinou-me que o significado desta frase era totalmente diferente em cada uma delas.

  • Na empresa familiar, espera-se sacrifício. Para quem não é da família, o papel pedido é “fazer parte da família”. O limite entre o profissional e o pessoal é quase invisível. As decisões dependem mais das dinâmicas familiares do que das empresariais. A empresa quase exige que o colaborador sofra, por solidariedade, como se o negócio também fosse dele. As decisões não seguem manuais; dependem das dinâmicas, humores e urgências da mesa dos jantares de família. A intuição manda nas decisões.
  • Nas multinacionais, a camisola mede-se em KPI (Key Performance Indicators). Saímos da intuição e entramos no método. A camisola vem com mil manuais em inglês e SOPs (Standard Operating Procedures). Significa aceitar procedimentos, processos de avaliação, ROI (Return on Investment), pipelines, targets, SLA (Service Level Agreement), performance, forecast, budget, onboarding, compliance e PowerPoint, tudo em inglês. Agitam-se as bandeiras de padrões corporativos que mudam constantemente, mas que são sempre anunciados como “os tais” que nos levarão a atingir os targets. E este ano é que vai ser. O problema? Se fizermos isto tudo e não atingirmos os resultados, a camisola fica pequena. Se atingirmos os resultados, mas falharmos na burocracia dos processos, a camisola fica pequena também…
  • Nas grandes empresas portuguesas, o “amor à camisola” ainda está colado ao relógio de ponto. Por um lado, tentam copiar a sofisticação das multinacionais; por outro, não há como fugir às nossas raízes. Ver as luzes dos gabinetes dos chefes acesas fora de horas cria quase um sentimento de culpa por se sair a horas. É um “presentismo” obrigatório, onde o emprego parece ter de ser mais importante do que a vida pessoal e onde a progressão é lenta, baseada na antiguidade ou na confiança de quem manda, e não no mérito.
  • Nas pequenas empresas, onde estou hoje, a camisola tem de ser elástica: exige agilidade. Somos sobreviventes. Apagamos fogos constantemente. Não há linhas visíveis onde começa e acaba a função de cada um, nem linhas de comando. Temos de ser 100% autónomos porque, aqui, cada pessoa tem de contar por mais do que uma. O erro é o problema de todos, mas a vitória também, porque as pessoas conhecem-se pelo nome, partilham o mesmo teto — bastante pequeno — e resolvem os problemas e as crises dos clientes lado a lado, literalmente.

Pelo que fui aprendendo, vestir a camisola depende de quem lidera e da organização. É quase um valor imposto que parece ténue, mas que afeta profundamente a nossa forma de atuar, quase de forma inconsciente.

 

 

O fascinante mundo da pressão operacional

Sempre tive um verdadeiro fascínio pela gestão da parte operacional sob pressão. Para mim, o stresse e o trabalho sob pressão funcionam como um motor de discernimento.

Muitos questionam-me como é possível gerir este nível de exigência profissional sendo mãe de 6+2 filhos. A resposta está precisamente em desmontar o que deve ser o “amor à camisola”.

A gestão de uma família numerosa e a gestão de uma operação logística partilham mais semelhanças do que se possa imaginar: exigem planeamento estratégico, organização, capacidade de definição de prioridades, resiliência, rapidez de pensamento e resolução, poder de relativizar e uma liderança baseada no exemplo e na empatia.

A pressão do trabalho não me assusta; muito pelo contrário, estimula-me. Mas é preciso distinguir a pressão saudável da eficácia operacional da pressão tóxica da cultura organizacional.

Nas grandes estruturas corporativas, o que vemos hoje é aquilo a que chamo “tirania da felicidade”. As paredes das empresas enchem-se de slogans motivacionais bonitos, oferecem-se sessões de mindfulness e de ioga, criam-se salas de jogos e discursa-se longamente sobre o bem-estar dos colaboradores. Iniciativas que, analisadas lá no fundo, esbarram rapidamente em processos rígidos e métricas frias.

O verdadeiro “amor à camisola” não nasce de benefícios abstratos, de cabazes de fruta biológica no escritório ou de discursos sobre bem-estar. Nasce da reciprocidade real.

Vestir a camisola não significa, de forma alguma, anularmo-nos como indivíduos. Não significa comprometer o tempo sagrado com os nossos maridos, com os nossos filhos, com o nosso descanso ou com os nossos interesses fora da empresa. Pelo contrário: somos melhores profissionais quando conseguimos equilibrar estas duas esferas.

Alguém que tem espaço para respirar, para viver fora do escritório, para cuidar dos seus e de si própria regressa ao trabalho com muito mais foco, discernimento e capacidade para resolver as crises diárias. O equilíbrio não é uma utopia para se escrever em manuais de Recursos Humanos; é uma prática diária.

Após três décadas a respirar este setor, a minha maior certeza é que as empresas são, e continuarão a ser, feitas de pessoas. E as pessoas precisam de uma vida inteira para viver, e não apenas de uma vida de trabalho.

Tive a enorme felicidade de trabalhar e crescer tanto na escala macro das multinacionais, onde aprendi a escala do negócio e a resistência ao stresse elevado, como na escala micro das pequenas organizações, onde reaprendi o valor humano da cooperação direta. Ambas as realidades fizeram-me mais “rica”.

O setor da logística enfrenta hoje um dos seus maiores desafios históricos: a atração e retenção de talento. Se queremos que as novas gerações vistam a camisola deste setor tão exigente, as lideranças têm de compreender que o tamanho e o material dessa camisola têm de ser ajustados ao corpo de quem a usa.

O compromisso já não se compra com a imposição do medo ou com o apelo ao sacrifício cego. Para as novas gerações, e bem, a vida pessoal conta. E isso não faz delas piores ou menos dedicadas profissionalmente.

O compromisso conquista-se com respeito mútuo, com autonomia na gestão do caos e com a garantia de que a organização estará lá para o colaborador, tal como espera que o colaborador esteja lá para ela.

Vestir a camisola, sem dúvida!

Pelo sentido de pertença e pelo orgulho na empresa que representamos, quando somos respeitados e reconhecidos pelo nosso valor. Muitas organizações já mostram grandes melhorias, mas a liderança, transversal às empresas de todas as dimensões, ainda tem um longo caminho a percorrer nesse sentido.

A melhor camisola que podemos vestir é sempre a da nossa própria integridade. E essa, serve sempre. A todos. Sem esforço.

Carla Lacerda, Business Development Specialist | X-Trans, Lda.