O que têm o realizador James Cameron, o pensador Reinhold Niebuhr, e o autor e jornalista Michael Pollan em comum com uma conferência focada na cadeia de abastecimento farmacêutica? A associação, à partida inesperada, ganhou evidência no início de mais uma edição do Pharma Supply Chain, iniciativa da Supply Chain Magazine que esta quinta-feira, 17 de setembro, tomou conta do auditório do IAPMEI, em Lisboa. Mas não ganhou apenas evidência na intervenção de abertura – foi sendo confirmada ao longo do evento.
“Logística em contexto crítico: decidir, priorizar, garantir”. Foi este o tema que convocou a reflexão dos oradores, cujo olhar e cuja experiência levaram a palco diferentes perspetivas sobre os desafios que o setor enfrenta, mas também sobre as respostas que encontram para os superar e antecipar, bem como sobre as ferramentas ao seu dispor, entre novas embalagens e novos sistemas.
A esperança não é – ou não pode ser – uma dessas ferramentas. Foi o que deixou claro Bart Louwen, senior director for EMEA da Amgen’s Global Distribution Network, numa intervenção em que apresentou “Três princípios para cadeias de abastecimento em permanente disrupção”.
Foi ele o responsável por trazer à colação o realizador porventura mais conhecido pelo filme Titanic, para demonstrar como eficiência e criatividade se conjugaram para tornar possível um sucesso de bilheteira. Em 1984, para “O Exterminador Implacável”, tinha apenas um orçamento de 6,4 milhões de dólares e 42 dias para filmar. Constrangimentos que o obrigaram a ser criativo e a ser eficiente e esta foi a base da inovação que aportou ao mundo do cinema. “A esperança não é uma estratégia, a sorte não é um fator, o medo não é uma opção”, citou o porta-voz da Amgen, contrapondo à esperança a intenção que define o caminho, à sorte as opções que resultam em alternativas preparadas; e ao medo a coragem que permite a ação. Na supply chain farmacêutica, há que ter um objetivo claro, não necessariamente para prever a disrupção, mas, sobretudo, para estar preparado para quando ela chegar.
Recuando no tempo, trouxe à sua apresentação a “oração da serenidade”, do pensador Reinhold Niebuhr: “Deus, concedei-me serenidade para aceitar o que não posso mudar, coragem para mudar as coisas que posso mudar, e sabedoria para distinguir a diferença”. Em supply chain, há que aceitar os conflitos, as fronteiras, as disrupções – fatores que não se podem mudar. Mas, pode-se mudar a exposição da cadeia a esses eventos – nas rotas, no inventário, nas decisões –, continuando a servir o cliente.
Mas, como passar esta mensagem para as equipas? É aqui que entra Michael Pollan e o seu livro “Em defesa da comida”. O que devemos comer é o que procura mostrar; porém, são 600 páginas e – como comentou Bart Louwen – “ninguém lê 600 páginas”. O mesmo é válido numa estratégia: se for demasiado longa, demasiado complexa, ninguém a consegue digerir. O autor foi então desafiado a sintetizar a sua visão, reduzindo-a a sete palavras: “Eat food. Not too much. Mostly plants.” E uma estratégia que permite tomar decisões também pode ser resumida: explicar – em cascata – decidir – alinhar. “Idealmente, uma estratégia avança com os quatro eixos; no mínimo, não contradiz nenhum”, preconizou, advogando a importância de simplificar.
Mas, se um filme pode falhar, em saúde não há lugar para o erro, o que coloca sob a cadeia de abastecimento uma pressão constante. Uma pressão muito alimentada pela imprevisibilidade, como notou Jorge Alves, Supply Chain manager da Generis Farmacêutica, na intervenção que partilhou com Nuno Ramalho, managing director – Contract Logistics da Rangel. É uma imprevisibilidade que se mede ao dia, com a grande amplitude de procura a condicionar a operação. A preocupação – como notou – transferiu-se do “quando” para o “quanto”, obrigando a uma nova estratégia marcada pela gestão da variabilidade, pela antecipação de picos, pela flexibilidade, pela definição do stock como proteção estratégica, por encarar os pendentes como procura futura e, acima de tudo, por uma gestão end-to-end. “O desafio logístico deixa de ser apenas o crescimento, passa a ser, também, absorver a variabilidade e a imprevisibilidade”, sublinhou.
(notícia em atualização)


