O webinar “Tecnologia e Sistemas de Informação na logística: da decisão à prática” reuniu Hernâni Andrés, managing partner da BuildUp Value, Pedro Ferreira Queimado, founder & senior efficiency consultant na KronoLog Solutions, e Hugo Carvalho, purchasing and logistics director da Teijin Automotive Technologies Europe, para debater os desafios e as oportunidades da aplicação tecnológica nas operações logísticas.

“Eu acho que o maior desafio não é ter acesso à tecnologia. Nunca houve tanta tecnologia disponível. O problema é perceber onde é que ela realmente cria valor”, começou por apontar Pedro Ferreira Queimado. Para o consultor, o caminho passa por delinear uma estratégia capaz de alinhar tecnologia, processos e pessoas. Na sua experiência, as empresas recorrem aos seus serviços para resolver problemas, mas apresentam primeiro os “sintomas”. Para chegar à raiz do problema, é preciso ir para o terreno com as equipas. Nessa análise surgem dois obstáculos recorrentes: a centralização do conhecimento num colaborador – por norma sénior – e a dependência de processos manuais ou baseados em Excel, gerando ineficiências em toda a cadeia.

Hugo Carvalho corrobora a ideia da importância de pessoas na implementação de tecnologia, sublinhando que são elas que desenham os processos para implementar essa mesma tecnologia. Sob a perspetiva da indústria automóvel, destaca outro desafio: o facto de a logística em Portugal ainda ser vista como uma atividade secundária. “É difícil obtermos investimentos para a digitalização de processos logísticos”, afirma. Isto deve-se ao facto de Portugal ser um país pequeno, sem escala e de os salários não competirem com os padrões europeus. Adicionalmente, aponta a pressão da velocidade como um fator crítico, já que a urgência de agir rapidamente pode comprometer a precisão e validade dos dados.

 

“A tecnologia nunca pode ser o ponto de partida”

No processo de consultoria, primeiro analisa-se a operação atual, identifica-se a raiz do problema e desenha-se, em conjunto com a equipa, o modelo TO-BE [desenho do processo futuro e otimizado]. Pedro Ferreira Queimado revela que só após esta etapa se avalia a real necessidade de implementar tecnologia. “A tecnologia nunca pode ser o ponto de partida”, afirma. Por vezes a solução passa apenas por otimizar, eliminar desperdícios, simplificar processos e estandardizar procedimentos. “Não é preciso investir em tecnologia para melhorar uma operação. Primeiro é preciso perceber qual é o problema, e só depois entender se a tecnologia é a solução adequada”, sublinha.

Quanto aos fatores que levam um diretor de logística a implementar uma nova ferramenta, como por exemplo um WMS ou ERP, Hugo Carvalho nota que da perspetiva organizacional, essa necessidade nasce quase sempre de uma necessidade financeira, e não de uma necessidade logística. O motivo pelo qual considera que isto acontece deve-se ao facto de, na indústria automóvel, ser comum os departamentos de compras e procurement estarem separados da logística. Ainda assim, defende que o impulso para a digitalização ganha força quando todas as áreas estão integradas, como acontece em empresas de grandes dimensões.

 

Uma boa liderança faz a diferença

Houve ainda tempo para abordar uma questão pertinente apresentada por um dos participantes do webinar: se as empresas investem em sistemas mas evitam reter profissionais experientes para liderar a transformação, até que ponto a resistência à tecnologia não é apenas um sintoma de falhas na liderança e na gestão de pessoas? Sobre a questão, Hernâni Andrés começou por dizer que a gestão está encarregue da estratégia, nomeadamente no que diz respeito aos processos, tecnologia e pessoas. “Mas a forma como nós comunicamos essa visão de liderança é o que faz com que as pessoas se sintam parte da solução”, refere. 

Fica claro que a tecnologia só traz valor quando responde a uma necessidade concreta, antecedida pela revisão de processos e por uma estratégia clara, algo que depende, inevitavelmente, das pessoas, o maior ativo de qualquer empresa.

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