Juliana Helbling, Strategic Marketing & Positioning, defende, neste artigo de opinião que a divergência entre os volumes reais e o valor em euros, aliada ao desfasamento entre importações e exportações, transformou a leitura dos fluxos de mercadorias num imperativo estratégico, no qual a vantagem competitiva de 2027 dependerá de identificar de oportunidades que a concorrência ainda não encontrou.

O orçamento para 2027 começa a ganhar forma. As metas comerciais estão a ser definidas e as empresas começam a decidir onde querem concentrar esforços no próximo ano. Para muitas, a estratégia de 2027 está a ser decidida agora. A questão é: com base em quê?

Os números do primeiro semestre de 2026 não permitem prever o próximo ano. Mas já mostram mudanças que merecem atenção e podem ajudar a orientar as decisões que estão a ser tomadas agora. Segundo os dados do INE, divulgados pela AICEP, no primeiro semestre de 2026 as exportações portuguesas aumentaram 2,7% em volume, enquanto as importações subiram 6,3%.

Os portos portugueses mostram outro sinal importante. De acordo com a AMT, deram entrada 25,7 milhões de toneladas de mercadorias, mais 2,7% do que no mesmo período de 2025. No sentido oposto, as saídas totalizaram 16,2 milhões de toneladas, uma queda de 4,8%. Isto não significa que a oportunidade esteja agora nas importações. Significa que as entradas e as saídas estão a evoluir a ritmos diferentes — e a estratégia de 2027 deveria ter isso em conta.

Estamos a olhar para o crescimento certo?

Junho é um bom exemplo do cuidado que é preciso ter ao interpretar os números. As exportações portuguesas de bens aumentaram 10,0% face ao mesmo mês de 2025, enquanto as importações subiram 19,6%. São números expressivos, mas não significam que tenha circulado mais 10% ou 19,6% de mercadoria. Parte desse crescimento resulta também da subida dos preços, e não apenas de uma maior quantidade de mercadoria. Para quem decide onde investir, que mercados explorar ou onde concentrar a equipa comercial, esta diferença importa.

Euros não ocupam espaço num contentor. Mercadorias, sim.

Um mercado pode crescer muito em euros sem que a quantidade de carga aumente na mesma proporção. Da mesma forma, um mercado menos expressivo em valor pode esconder uma oportunidade interessante para uma empresa de logística. Por isso, quando se olha para 2027, não basta saber quanto Portugal exporta ou importa. É preciso perceber o que está a circular, em que quantidade, para onde vai e de onde vem. É aí que os números começam realmente a ajudar uma decisão.

Estamos a olhar suficientemente para o que entra?

Quando se fala de internacionalização das empresas portuguesas, é natural pensar primeiro nas exportações. Para a logística, porém, olhar apenas para o que sai significa observar apenas uma parte do mercado.

No primeiro semestre de 2026, as importações cresceram 6,3% em volume, contra 2,7% das exportações. Nos portos, o movimento foi semelhante: as entradas de mercadorias aumentaram e as saídas recuaram. Vale, portanto, colocar uma questão no planeamento de 2027: a estratégia comercial está a acompanhar os dois sentidos dos mercados em que a empresa já trabalha? Não se trata de trocar exportações por importações. Trata-se de conhecer melhor os fluxos que já fazem parte do negócio. O que entra? O que sai? Que empresas estão a comprar e a vender? Onde a procura está a aumentar? Temos os parceiros certos? Há capacidade para crescer? Onde conseguimos acrescentar valor?

Para algumas empresas, a oportunidade de 2027 pode não estar num novo país. Pode estar no sentido inverso de uma rota que já conhecem.

Nem todo o volume representa a mesma oportunidade

Os dados dos portos mostram outra diferença interessante. No primeiro semestre de 2026, o movimento de contentores com origem ou destino efetivo em Portugal cresceu 1,9%. Já o movimento de contentores que passam pelos portos portugueses apenas para seguir viagem noutro navio caiu 4,4%, segundo a AMT. A distinção parece pequena, mas é importante. Um contentor que passa por um porto português não representa necessariamente uma oportunidade para uma empresa que procura clientes em Portugal. Por isso, não basta saber quanto passa pelos nossos portos. É preciso perceber quanto desse movimento está ligado às empresas que podemos efetivamente servir.

A mesma lógica aplica-se aos mercados. Os maiores parceiros comerciais de Portugal oferecem volume. Mas isso não significa que representem a melhor oportunidade para todas as empresas. Um mercado grande pode ter muita concorrência, forte pressão sobre preços e pouca margem para fazer algo diferente. Um mercado menor pode ser mais interessante quando a empresa conhece bem aquele negócio, tem bons parceiros, experiência com determinado tipo de carga ou consegue oferecer um serviço mais especializado. Por isso, antes de transformar um ranking dos maiores mercados numa lista de prioridades para 2027, há uma pergunta mais importante: onde temos condições reais para ser escolhidos?

Talvez a oportunidade já esteja dentro da empresa

Quando chega o momento de decidir onde crescer no ano seguinte, é comum procurar novos mercados, novos clientes e novas rotas. Nem sempre é preciso começar por aí. A oportunidade pode estar numa rota que a empresa já conhece, num tipo de carga que começa a ganhar importância ou dentro da própria carteira de clientes, em negócios que ainda não explorámos. Pode também estar numa competência que a empresa já domina, mas ainda não conseguiu transformar numa vantagem comercial. Ou num mercado relativamente pequeno, onde existe mais margem e menos pressão da concorrência. Antes de procurar a próxima grande oportunidade fora, talvez valha a pena perceber quanto negócio existe onde já estamos presentes e ainda não estamos a captar.

Agora é o momento de fazer escolhas. A discussão já não deveria ser apenas sobre o que aconteceu em 2026. Deveria ser sobre o que fazer com essa informação.

Onde queremos concentrar o crescimento em 2027?

Que clientes queremos conquistar — e onde ainda podemos crescer com os atuais? Onde existe volume, mas pouca margem? E que oportunidades ainda não estamos a explorar? Há ainda uma pergunta que considero particularmente importante:  Estamos realmente a repensar a estratégia ou apenas a aumentar os objetivos? Aumentar a meta de vendas não é definir uma estratégia. Escolher onde competir é. Escolher onde não competir também.

Janeiro é para executar.

Entre identificar uma oportunidade e transformá-la em negócio existe um caminho. É preciso decidir onde crescer, com que clientes, que recursos serão necessários e o que fará a empresa ser escolhida em vez da concorrência. Isso leva tempo. Por isso, janeiro não deveria ser o mês em que uma empresa começa a perguntar onde quer crescer em 2027. Janeiro deveria ser o início da execução.

Os dados não dizem à gestão onde investir ou que mercado escolher. Essa decisão depende da realidade de cada empresa, dos seus clientes, das suas capacidades e daquilo que consegue fazer melhor do que os outros. Mas fazem algo essencial: mostram onde vale a pena olhar com mais atenção.

Os números de 2026 já deixam alguns sinais. Importações e exportações estão a crescer a ritmos diferentes. O aumento do comércio em euros não significa necessariamente o mesmo aumento na quantidade de mercadoria movimentada. E os grandes números podem esconder oportunidades que só aparecem quando olhamos com mais detalhe.

A vantagem em 2027 talvez não esteja em prever o que vai acontecer. Pode estar em perceber antes dos outros onde o mercado está a mudar — e decidir o que fazer com essa mudança. Porque, quando uma oportunidade se torna evidente para todos, todos começam a disputá-la. As escolhas para 2027 começam agora.

Fontes: Instituto Nacional de Estatística (INE), Comércio Internacional de Bens e Contas Nacionais; AICEP Portugal Global; Autoridade da Mobilidade e dos Transportes (AMT), dados do mercado portuário. Dados disponíveis à data de elaboração do artigo, setembro de 2026.

Juliana Helbling, Strategic Marketing & Positioning