A indústria europeia está a perder terreno não apenas na produção de matérias-primas, mas também no fornecimento de componentes essenciais para diferentes setores. A Eurometal alerta que esta dependência pode colocar em risco milhares de postos de trabalho e reduzir a capacidade da Europa para controlar as suas próprias cadeias de valor.
A crescente presença da China nas cadeias de fornecimento de componentes industriais está a levantar preocupações quanto ao futuro da produção europeia, à autonomia estratégica da União Europeia e à capacidade das empresas para manterem sob controlo etapas críticas das suas cadeias de abastecimento.
Em declarações ao The Guardian, Alexander Julius, presidente da Eurometal, alertou que a estratégia chinesa já não passa apenas pelo fornecimento de matérias-primas, mas por assegurar uma presença crescente em cadeias de produtos e componentes essenciais.
“Quando se controla a cadeia de abastecimento, controla-se toda a cadeia de valor.”
Segundo o responsável, a China procura tornar-se fornecedora de produtos acabados e ocupar posições críticas em cadeias de abastecimento que sustentam diferentes áreas da indústria europeia. Esta evolução é particularmente relevante nos metais e nos produtos químicos, materiais utilizados em cerca de 90% da produção industrial.
A Eurometal estima que a indústria da União Europeia possa perder 300 mil postos de trabalho até ao final de 2026 devido ao aumento da concorrência chinesa, embora este número seja uma projeção da associação europeia de distribuidores de metais e não uma estimativa independente ou oficialmente confirmada pelas instituições europeias.
Indústria leva protesto a Bruxelas
O alerta coincide com a realização, esta segunda-feira, 7 de setembro, do European Convoy for Industrial Competitiveness, uma iniciativa que reúne empresas, associações e trabalhadores diante do edifício Berlaymont, sede da Comissão Europeia, em Bruxelas.
A ação conta com 68 organizações, 15 camiões e mais de 200 participantes confirmados. Entre as entidades participantes encontram-se organizações e empresas portuguesas, como a AIMMAP e a Metalogalva.
Durante a iniciativa serão transportados dez caixões simbólicos em redor do edifício da Comissão Europeia. Estes representam a capacidade produtiva, os postos de trabalho e o conhecimento industrial que, segundo os promotores, a Europa arrisca perder caso se mantenham as atuais condições de concorrência. A Eurometal apresenta a iniciativa como um apelo à manutenção da produção industrial no espaço europeu.
A associação sublinha que não está a pedir subsídios ou um tratamento especial, mas condições de concorrência equivalentes. As empresas europeias têm de cumprir algumas das normas ambientais e climáticas mais exigentes do mundo, enquanto uma parte dos produtos importados entra no mercado europeu sem estar sujeita a obrigações semelhantes.
Para Alexander Julius, preservar a indústria na Europa significa também proteger o investimento, o emprego qualificado, a resiliência das cadeias de abastecimento e a autonomia estratégica europeia.
Pressão chinesa chega aos componentes
A preocupação com a capacidade industrial chinesa e com a entrada de produtos a preços reduzidos no mercado europeu tem vindo a aumentar. Segundo a Eurometal, a imposição de novas tarifas norte-americanas em 2025 terá contribuído para desviar para a Europa volumes anteriormente destinados aos Estados Unidos.
O problema, inicialmente associado a setores industriais específicos, adquiriu uma dimensão política mais ampla. Associações empresariais europeias têm pedido à Comissão Europeia mecanismos de defesa comercial mais rápidos e uma abordagem que considere toda a cadeia de valor, incluindo os componentes incorporados nos produtos importados.
O excedente comercial da China com a União Europeia ronda atualmente mil milhões de euros por dia, num momento em que vários grupos industriais europeus estão a rever a sua capacidade produtiva e estrutura de custos.
Um dos exemplos mais recentes é o Grupo Volkswagen. O fabricante aprovou um plano de transformação que prevê a redução de mais 50 mil postos de trabalho a nível mundial, além dos 50 mil cortes já em curso. A reestruturação, a mais extensa da história do grupo, procura responder às tarifas norte-americanas, ao excesso de capacidade e à pressão dos concorrentes chineses, segundo a Reuters.
Mais do que uma disputa comercial, o alerta da indústria coloca o foco sobre quem controla os elos essenciais da cadeia. A dependência de matérias-primas já era uma preocupação para a Europa e a crescente dependência de componentes acrescenta uma nova dimensão ao problema, porque transfere para fornecedores externos não apenas a produção, mas também conhecimento, capacidade de resposta e poder sobre toda a cadeia de valor.


