Depois de avaliar mais de 70 alternativas, a Kimberly-Clark selecionou a hesperaloe, uma planta que necessita de pouca água e poderá fornecer fibra ao longo de todo o ano. A empresa está a investir mais de 100 milhões de dólares numa unidade-piloto no Arizona, que deverá entrar em funcionamento em 2027.
A próxima matéria-prima da Kimberly-Clark pode vir de uma planta capaz de crescer no deserto. A fabricante de marcas como Huggies, Kleenex e Scott apresentou um programa de inovação centrado na hesperaloe, uma planta suculenta originária do sudoeste dos Estados Unidos que poderá tornar-se uma fonte alternativa de fibra natural para os seus produtos de higiene.
O projeto encontra-se ainda numa fase-piloto e a utilização da nova fibra à escala industrial não está decidida. Mas a iniciativa revela como a procura de materiais alternativos começa a entrar na estratégia de resiliência das cadeias de abastecimento: não apenas para responder a objetivos ambientais, mas também para diversificar fontes, reduzir a exposição à volatilidade dos custos e preparar opções antes de uma disrupção tornar urgente encontrá-las.
Segundo a informação divulgada pela Kimberly-Clark, os investigadores da empresa avaliaram mais de 70 possíveis fibras, considerando critérios de desempenho, sustentabilidade e custo. A hesperaloe foi identificada como a solução mais promissora, devido à sua capacidade para crescer num clima árido, ao reduzido consumo de água e ao potencial para fornecer matéria-prima ao longo de todo o ano.
A empresa desenvolveu também uma tecnologia própria para transformar as fibras da planta num material suscetível de ser incorporado nos seus produtos. Os testes realizados até ao momento indicam, de acordo com a fabricante, que a nova matéria-prima poderá cumprir os requisitos de desempenho e qualidade das suas marcas. As conclusões baseiam-se, contudo, em investigação e ensaios internos, e os testes prosseguem.
100 milhões de dólares para testar a nova cadeia
Como parte do programa, a Kimberly-Clark está a construir uma unidade-piloto em Yuma, no estado norte-americano do Arizona. De acordo com a Arizona Commerce Authority, o projeto representa um investimento superior a 100 milhões de dólares e ocupará uma área de cerca de 4.645 metros quadrados. A construção já está em curso, devendo a unidade ficar concluída e iniciar operações em 2027. O projeto deverá criar aproximadamente 50 postos de trabalho a tempo inteiro.
A instalação será utilizada para extrair as fibras da hesperaloe e avaliar a sua possível incorporação nos futuros produtos de higiene da Kimberly-Clark. A empresa está também a trabalhar com produtores agrícolas, especialistas técnicos e entidades locais no Arizona, na Califórnia e noutras zonas do sudoeste dos Estados Unidos.
Michael Todd, vice-presidente e Managing Director da Kimberly-Clark, considera que Yuma reúne uma combinação de experiência agrícola, recursos naturais e talento que torna a região adequada para a instalação. O investimento, acrescenta, traduz a intenção da empresa de explorar fontes de fibra rapidamente renováveis e de colaborar com os produtores e restantes entidades locais.
A escolha de Yuma tem igualmente uma dimensão logística. A região dispõe de produção agrícola ao longo de todo o ano, terrenos industriais, infraestruturas de transporte e proximidade aos mercados da Califórnia e do México. São condições que poderão facilitar a passagem de uma experiência agrícola e tecnológica para uma cadeia de abastecimento com capacidade industrial.
A localização ganha particular relevância num território onde a disponibilidade de água condiciona a agricultura. Segundo a Kimberly-Clark, a hesperaloe necessita de menos água do que várias culturas atualmente produzidas na região, embora a empresa ainda não tenha apresentado dados sobre os volumes esperados, os custos de produção ou o impacto ambiental ao longo de toda a cadeia.
Também não são conhecidos os modelos de fornecimento que poderão vir a ser adotados, a localização das unidades industriais que utilizariam a fibra ou os requisitos logísticos associados ao transporte, armazenamento e processamento da matéria-prima. Essas variáveis serão determinantes para saber se a solução consegue ultrapassar a fase experimental.
Uma matéria-prima alternativa só se transforma numa verdadeira segunda fonte de abastecimento quando pode ser fornecida de forma regular, com a qualidade necessária e a um custo total competitivo. Além do preço de aquisição, será necessário considerar o rendimento obtido durante a transformação, as necessidades de armazenamento, as distâncias de transporte, as perdas e a consistência entre diferentes colheitas e lotes.
Reduzir a dependência
A Kimberly-Clark não anunciou a substituição das fibras florestais utilizadas atualmente. O que está em desenvolvimento é uma plataforma de materiais que poderá, se os testes e a produção-piloto confirmarem o seu potencial, ser integrada em diferentes produtos do portefólio.
Essa possibilidade permitiria à empresa dispor de maior flexibilidade na escolha e combinação de matérias-primas. Uma nova fonte não precisa de substituir integralmente as atuais para produzir valor: pode funcionar como complemento, capacidade de contingência ou alternativa para determinadas marcas, fábricas e mercados.
Craig Slavtcheff, Chief Research and Development Officer da Kimberly-Clark, classifica o programa como um projeto de grande ambição, resultante de mais de duas décadas de experiência da empresa nas áreas dos materiais e da ciência das plantas. O responsável considera que a fibra poderá melhorar o desempenho dos produtos, reforçar a resiliência da supply chain e reduzir a dependência de fontes tradicionais.
Ainda assim, a própria companhia inclui entre os fatores de incerteza o resultado dos testes, a produção à escala-piloto, o preço e a disponibilidade das matérias-primas, os custos energéticos, as condições meteorológicas e possíveis disrupções na cadeia de abastecimento.
Transformação mais ampla
A iniciativa surge no contexto da transformação operacional anunciada pela Kimberly-Clark em 2024. O programa inclui a modernização da supply chain, a utilização de tecnologia e análise de dados e a criação de uma operação mais integrada, adaptável e com maior visibilidade.
A empresa estima que esta modernização possa gerar mais de três mil milhões de dólares em ganhos brutos de produtividade e aproximadamente 500 milhões de dólares em libertação de fundo de maneio. Estes valores correspondem a objetivos projetados pela companhia e não a poupanças já integralmente alcançadas.
O plano inclui ainda a ambição de eliminar do seu portefólio a utilização de fibras provenientes de florestas naturais. A Kimberly-Clark pretende ter percorrido mais de metade desse caminho até 2030, apostando na redução da quantidade de material utilizada e na incorporação de fontes consideradas mais sustentáveis.
A transformação chegou igualmente ao procurement. No início de 2026, a companhia confirmou a implementação global de ferramentas digitais destinadas a aumentar a transparência e o controlo sobre as compras. Nos resultados do segundo trimestre, indicou que 90% dos fornecedores já estavam ligados à plataforma.
A fibra de hesperaloe permanece, para já, uma possibilidade em teste. A unidade de Yuma deverá ajudar a determinar se é apenas uma inovação promissora ou se pode tornar-se uma alternativa industrialmente viável, mas o projeto deixa desde já um sinal relevante: perante matérias-primas expostas à volatilidade, às alterações climáticas e a exigências ambientais crescentes, a resiliência também pode começar no campo e vários anos antes de a nova fonte chegar à fábrica.
FOTO: David J. Stang/Wikimedia Commons


