Ultrapassar o desafio dos custos de importação não depende apenas de uma redução da despesa, mas também da capacidade de otimizar processos através da tecnologia. É esta a visão de Rúben Lamy, fundador e CEO da BIGhub, plataforma europeia de crescimento de Marketplace. Em entrevista à SCM, analisa o impacto das recentes tarifas nos negócios online e nas estratégias que estão ao alcance das empresas para mitigar esse impacto, da diversificação de fornecedores e dos canais de venda à automatização.
Que alterações concretas estão a ser sentidas pelos vendedores da BIGhub desde que as novas condições tarifárias entraram em vigor?
O principal impacto tem sido o aumento da necessidade de adaptação. Hoje, os vendedores estão mais atentos aos custos de importação, aos prazos de abastecimento e à gestão das margens, fatores que passaram a influenciar diretamente a competitividade das suas operações. Temos observado um maior interesse em diversificar fornecedores, procurar alternativas dentro da Europa e reforçar a presença em diferentes marketplaces para reduzir a dependência de um único mercado ou canal de venda.
Ao mesmo tempo, estamos a verificar uma procura crescente por soluções de automatização que permitam responder mais rapidamente às alterações do mercado, desde a atualização de preços até à gestão de stocks e encomendas. Num contexto de maior pressão, a capacidade de adaptação tornou-se um fator determinante para manter a competitividade.
Que categorias de produto e que mercados estão a sentir mais este condicionamento?
As categorias mais expostas são, sobretudo, aquelas que dependem fortemente de cadeias de abastecimento internacionais, como eletrónica, acessórios tecnológicos, artigos para o lar, decoração e alguns segmentos de moda e lifestyle. Nestes casos, qualquer aumento dos custos de importação ou alteração das regras comerciais tem um impacto mais direto na estrutura de custos.
Ao nível dos mercados, o efeito faz-se sentir principalmente nas empresas que operam com fornecedores de fora da União Europeia. Em contrapartida, temos percebido que há um interesse cada vez maior em reforçar relações comerciais dentro do mercado europeu, procurando reduzir riscos logísticos e aumentar a previsibilidade das operações.
Como estão a evoluir as margens e os custos de importação para estes lojistas?
Os custos de importação estão, de facto, a aumentar e, de um modo geral, quando esta é a tendência, as empresas acabam por sentir uma maior pressão sobre as margens, o que exige que os lojistas redefinam as áreas da operação em que podem contrair ganhos de eficiência. Falamos dos benefícios decorrentes da automatização de processos, da otimização logística ou da diversificação de fornecedores, por exemplo. Mais do que aumentar preços, este cenário traz às empresas, principalmente as de menores dimensões, o desafio de manter a competitividade sem comprometer a rentabilidade.
Além dos custos de importação, o mercado está cada vez mais focado em soluções que respondam verdadeiramente às necessidades do comércio eletrónico e da integração nas mais diversas plataformas de marketplaces. Dispor de ferramentas que vão ao encontro dessas necessidades e que resolvam problemas concretos através da tecnologia tornou-se um dos fatores mais decisivos para os nossos clientes.
Ultrapassar o desafio dos custos de importação não depende apenas de uma redução da despesa, mas também da capacidade de otimizar processos através da tecnologia. Esta otimização permite aumentar a eficiência operacional, melhorar a produtividade e promover uma gestão orçamental mais sustentável.
A BIGhub dispõe de dados agregados que permitam quantificar estas mudanças? De que ordem de grandeza estamos a falar?
Na BIGhub, acompanhamos diariamente a evolução das operações dos nossos clientes e temos verificado uma tendência clara: o foco está, cada vez mais, em otimizar custos, diversificar canais de venda e automatizar processos para proteger as margens. O impacto nas empresas varia bastante consoante o setor, a origem dos produtos e o grau de dependência de mercados externos, mas é esta diversidade que reforça a importância de soluções tecnológicas capazes de oferecer flexibilidade e rapidez na resposta aos desafios.
As novas regras europeias para as encomendas de baixo valor estão a alterar a concorrência entre operadores europeus e asiáticos?
A atualização das regras tem sempre o propósito de contribuir para uma concorrência mais equilibrada, evitando que determinados operadores beneficiem de condições mais favoráveis que outros ou tenham vantagem competitiva, independentemente do continente de origem. Isto significa que os fatores decisivos são a qualidade do serviço, a rapidez da entrega, o apoio ao cliente e a fiabilidade das marcas, não tanto a região onde se encontra o operador.
Adaptação é a palavra de ordem
Há empresas a aumentar preços, mudar de fornecedores ou a abandonar determinados mercados?
Temos observado diferentes estratégias de adaptação. Enquanto algumas empresas optaram por rever os seus fornecedores, privilegiando parceiros europeus ou distribuindo o aprovisionamento por várias origens para reduzir a exposição ao risco, outras ajustaram os preços de forma seletiva, apenas nas referências onde o aumento dos custos era inevitável, procurando preservar a competitividade do restante catálogo.
Por outro lado, também acompanhamos casos de empresas que decidiram suspender temporariamente a comercialização dos produtos com menor margem, focando-se apenas nas categorias mais rentáveis. Em vez de assistirmos a um abandono dos mercados, estamos a assistir a uma redefinição das prioridades comerciais, sendo atribuído maior valor à eficiência operacional e à rentabilidade a longo prazo.
A diversificação de marketplaces está a tornar-se uma forma de reduzir risco?
Sem dúvida. Depender de um único canal de venda é um risco para qualquer empresa. No universo digital, estar presente em vários marketplaces e em diferentes plataformas permite diversificar mercados, alcançar novos perfis de consumidores e reduzir a exposição a alterações específicas de um determinado canal ou país. A estratégia multicanal é muito mais do que uma forma de desenvolver um negócio, é também um símbolo de resiliência.
Que decisões podem já ser automatizadas nesta gestão de preços e fornecedores, e quais continuam a exigir intervenção humana?
Grande parte das tarefas operacionais já podem ser automatizadas, como a atualização de preços e/ou a gestão de encomendas, logística, dados e vendas. Para além disso, a tecnologia facilita a tomada de decisões, porque consegue agregar grandes quantidades de informação e organizá-la de forma quase instantânea.
Ainda assim, a delineação da estratégia continua a ser humana. Definir o posicionamento da marca, identificar oportunidades de negócio, escolher novos mercados, criar relações com parceiros e encontrar soluções para desafios como as alterações estruturais no mercado exigem sensibilidade, conhecimento, experiência e capacidade de adaptação, ou seja, áreas em que o fator humano é insubstituível.
Se pudesse dar um único conselho a um lojista português que vende em marketplaces europeus, qual seria?
Diria para não encarar o contexto atual como uma ameaça, mas como um incentivo para tornar o negócio mais eficiente e com fontes de rentabilidade mais diversas. Garantir rápida adaptação às condições externas, operar em novos mercados, estar presente em diferentes canais e plataformas, investir na automatização de processos e tomar decisões suportadas por dados são ações que preparam uma empresa para eventuais mudanças. E num cenário marcado pelo dinamismo e pela volatilidade, a reinvenção e a superação são as maiores vantagens competitivas.


