A ilusão de que o congestionamento portuário e a volatilidade logística seriam episódios passageiros no período do pós-pandemia foi superada pelo atual cenário em que se encontra o comércio global. Bruno Mendonça, da área de Importação, [Private Label, Distac Distribuidora], defende que a perda de previsibilidade nas cadeias de abastecimento transformou a logística num tema estratégico, no qual a verdadeira vantagem competitiva passou a depender da sua permanente capacidade de resiliência e adaptação. 

Nos últimos anos, tornou-se comum associar o congestionamento portuário aos impactos da pandemia, e muitos acreditaram que os episódios mais severos ficariam para trás. Os números recentes mostram, contudo, uma realidade diferente.

Um recorde que ultrapassa a pandemia

Dados recentes divulgados pela Linerlytica revelam que mais de 4,3 milhões de TEU aguardam atualmente atracação em portos de contentores em todo o mundo, superando os níveis registados durante a pandemia. O cenário é agravado por fenómenos climáticos que afetam importantes polos logísticos da Ásia, por constrangimentos em rotas estratégicas e por uma pressão crescente sobre a capacidade do transporte marítimo global, num contexto em que a confiabilidade dos serviços continua próxima dos 60% a 65%.

Nessa perspetiva, o dado mais preocupante não reside apenas no número recorde de contentores à espera de movimentação. O verdadeiro sinal de alerta encontra-se nas consequências que este congestionamento tem gerado sobre a previsibilidade das cadeias globais de abastecimento. Afinal, quando a confiança nos cronogramas logísticos diminui, a incerteza deixa de ser uma exceção operacional e passa a fazer parte do processo de tomada de decisão das empresas.

A perda de previsibilidade como verdadeiro impacto

Quem atua diariamente com importação sabe que grande parte das decisões empresariais é construída sobre previsões: compras planeadas com meses de antecedência, campanhas comerciais dependentes da disponibilidade de produtos, níveis de stock definidos com base em cronogramas logísticos. Quando estes deixam de ser confiáveis, toda a operação precisa de se adaptar constantemente.

Os atrasos observados nos principais polos logísticos internacionais não permanecem confinados aos terminais portuários. Propagam-se ao longo de toda a cadeia logística, afetando escalas, transbordos, tempos de trânsito e previsões de chegada. Um atraso registado na origem dificilmente desaparece ao longo da viagem; pelo contrário, tende a produzir efeitos sucessivos até ao destino final.

O que esta realidade significa na prática

Para empresas dependentes dos fluxos internacionais, qualquer alteração na cadeia logística reflete-se rapidamente no planeamento e no abastecimento.

Tornou-se comum acompanhar embarques sujeitos a sucessivas alterações de ETA, exigindo novas análises e tomadas de decisão. Na prática, o congestionamento deixa de ser um problema localizado e passa a produzir efeitos em escala global, refletindo-se na disponibilidade de produtos, nos custos logísticos e nas decisões empresariais. É precisamente esta perda de previsibilidade que transforma um desafio operacional num tema estratégico para as organizações que dependem do comércio internacional.

Da eficiência para a resiliência

Talvez seja esta uma das maiores mudanças dos últimos anos. Durante muito tempo, a competitividade logística esteve associada sobretudo à eficiência operacional, com foco na redução de custos e na eliminação de desperdícios. Estes fatores continuam fundamentais, mas a capacidade de adaptação passou a ocupar um papel igualmente estratégico.

As empresas mais preparadas para enfrentar períodos de instabilidade são, geralmente, as que têm maior capacidade de reação. Diversificar fornecedores, construir relações sólidas com parceiros logísticos e antecipar riscos deixaram de ser boas práticas para se tornarem elementos essenciais da gestão. Durante anos, os modelos logísticos privilegiaram estruturas cada vez mais enxutas; hoje, procura-se um equilíbrio que permita responder à incerteza sem comprometer a competitividade.

Uma variável permanente do negócio

O congestionamento recorde que observamos deve ser interpretado como mais do que um indicador operacional. É um reflexo da crescente complexidade do comércio internacional e da interdependência das cadeias globais de abastecimento. Mais do que atrasar navios, evidencia a fragilidade que ainda existe em diversos elos da cadeia logística global. 

A logística internacional continua a demonstrar que a eficiência, por si só, já não é suficiente. Num ambiente marcado por congestionamentos, alterações climáticas, tensões geopolíticas e limitações de infraestrutura, a verdadeira vantagem competitiva reside na capacidade de adaptação. Dificilmente regressaremos aos níveis de previsibilidade considerados normais há uma década. A incerteza tornou-se uma variável permanente do negócio. 

Talvez a principal competência das empresas não seja evitar essa incerteza, mas desenvolver a capacidade de a antecipar. Para quem depende do comércio global, a resiliência deixou de ser um diferencial. Passou a ser uma condição essencial para crescer de forma sustentável.

Bruno Mendonça, Importação | Private Label | Distac Distribuidora
Recife, Pernambuco, Brasil