A inteligência artificial já está a transformar tarefas na logística, mas o retorno continua muitas vezes a perder-se entre processos fragmentados, sistemas que não comunicam e decisões que atravessam várias organizações. Luís Silva Lopes analisa por que razão o verdadeiro desafio não está apenas na tecnologia, mas na capacidade de redesenhar fluxos de trabalho, clarificar responsabilidades e ligar informação, decisão e execução.

A inteligência artificial está a entrar rapidamente nas cadeias de abastecimento. Já auxilia previsões de procura, calcula rotas, analisa documentos, identifica anomalias e recomenda alterações aos planos. Os projetos multiplicam-se e poucos operadores querem admitir que estão a ficar para trás. O retorno, porém, continua frequentemente aquém da ambição.

Um estudo de 2026 do Boston Consulting Group ajuda a medir esta contradição. Num inquérito a 30 grandes operadores logísticos globais, 97% dos executivos classificaram a inteligência artificial como prioridade estratégica, 70% afirmaram possuir uma estratégia e 67% dispunham de orçamento dedicado. Apenas 13% disseram obter impacto financeiro mensurável.

A explicação mais imediata seria concluir que a tecnologia foi sobrevalorizada. Mas o problema pode ser outro: muitas empresas estão a introduzir IA em processos fragmentados, suportados por dados incompletos e organizados segundo uma divisão do trabalho anterior à própria tecnologia. Acrescentar um modelo a esta arquitetura pode acelerar uma tarefa. Não transforma necessariamente o processo.

O retorno continua aquém da ambição porque muitas empresas estão a acrescentar inteligência artificial sem redesenhar os processos onde as decisões acontecem.

 

Automatizar uma tarefa não transforma um processo

Grande parte dos primeiros projetos de IA na logística concentra-se em problemas delimitados: processar uma fatura, responder a um pedido, prever uma chegada, recomendar uma rota ou extrair informação de um documento. São utilizações relevantes e algumas produzem ganhos rápidos. O seu impacto permanece, contudo, local quando a decisão seguinte depende de outro sistema, de uma validação manual ou da transferência de informação entre departamentos.

Uma previsão mais rigorosa da procura não cria valor por si só se não alterar atempadamente compras, inventários, capacidade, transporte e prioridades comerciais. Do mesmo modo, uma estimativa de chegada mais precisa pouco acrescenta se não desencadear a reorganização do armazém, a alteração de uma reserva de transporte ou a comunicação ao cliente afetado.

É aqui que surge uma distinção decisiva: utilizar várias ferramentas de IA não é o mesmo que as ligar dentro de um workflow. No primeiro caso, acumulam-se melhorias independentes. No segundo, uma decisão alimenta a seguinte e o valor pode reforçar-se ao longo do processo. A unidade de transformação deixa, assim, de ser o caso de uso isolado e passa a ser o fluxo entre informação, decisão e execução.

Esta mudança obriga a rever dados, interfaces, responsabilidades, indicadores e critérios de decisão. Exige também determinar quando o sistema pode agir, quando deve solicitar validação e em que circunstâncias a decisão tem de ser escalada. A pergunta relevante já não é apenas «o que consegue fazer esta ferramenta?». É «como queremos que o processo funcione quando parte das decisões puder ser produzida ou executada por máquinas?».

A verdadeira unidade de transformação não é o caso de uso. É o fluxo completo entre informação, decisão e execução.

 

O retorno perde-se entre empresas

As cadeias de abastecimento são especialmente vulneráveis à fragmentação. Uma operação atravessa encomendas, inventários, produção, armazéns, transporte, alfândegas, fornecedores, clientes e prestadores externos. Cada interveniente observa apenas parte do problema e pode trabalhar com uma versão diferente da realidade.

A IA depende de dados, mas depende sobretudo de contexto. Um contentor atrasado não é apenas uma coordenada num mapa. Pode transportar componentes críticos para uma linha de produção, mercadorias com inventário alternativo disponível ou produtos destinados a clientes com níveis de serviço distintos. Sem esta informação, um sistema pode identificar corretamente o atraso e, ainda assim, recomendar uma resposta inadequada.

Mesmo uma integração interna bem-sucedida resolve apenas parte do problema, porque uma supply chain é, por definição, multiempresa. O fornecedor, o fabricante, o operador logístico, o transportador, o porto, o distribuidor e o cliente possuem sistemas, contratos e objetivos próprios. A decisão que otimiza uma empresa pode aumentar custos ou risco noutra.

Uma rede operacional capaz de relacionar o atraso do navio com as encomendas transportadas, o inventário disponível, os clientes afetados e as alternativas de transporte oferece uma visão muito mais útil. Mas introduz uma questão mais difícil: quem pode autorizar uma decisão que produz consequências em várias organizações? Uma mudança de rota pode proteger o serviço ao cliente e aumentar o custo do operador; uma reserva preventiva de capacidade pode reforçar a resiliência individual e agravar a escassez no mercado.

Mais informação não produz automaticamente uma decisão comum. Para que a IA atue através da rede, será necessário definir que dados podem circular, quem pode decidir, como se reparte o benefício e quem responde quando o resultado diverge do esperado. O próximo bloqueio da IA nas supply chains poderá, portanto, não ser computacional. Poderá ser institucional.

Mais informação não produz automaticamente uma decisão comum.

 

Quando supervisionar já não significa controlar

A integração da IA nos workflows altera também o conteúdo do trabalho. Enquanto as ferramentas permanecem isoladas, o profissional executa grande parte do processo e usa a tecnologia como apoio. Quando diferentes decisões começam a ser coordenadas automaticamente, o trabalho humano desloca-se para a supervisão, a validação e a gestão de exceções.

Isto não implica necessariamente o desaparecimento do planner. Significa que poderá deixar de tratar todos os casos para se concentrar nos mais ambíguos, raros ou críticos. A mudança contém um paradoxo: as decisões regulares são precisamente aquelas através das quais os profissionais constroem experiência, reconhecem padrões e desenvolvem conhecimento tácito. Se o sistema absorver essa componente, o humano será chamado sobretudo quando o caso não corresponde ao histórico, os dados são insuficientes ou os objetivos entram em conflito. Poderá intervir menos vezes, mas nos problemas mais difíceis.

A automação pode reduzir trabalho transacional e libertar capacidade para análise. Pode também produzir perda de consciência situacional, dependência excessiva das recomendações e erosão do conhecimento operacional. As empresas terão de preservar a capacidade humana para intervir quando o sistema falha, através de simulação de anomalias, rotação de funções, revisão de decisões automatizadas e formação em raciocínio causal não apenas na utilização de ferramentas.

Também a expressão human in the loop exige precisão. Uma pessoa pode validar cada recomendação antes da execução, supervisionar centenas de decisões já tomadas ou ser chamada apenas depois de o sistema identificar uma exceção. Em todos os casos existe presença humana, mas a capacidade real de controlo não é a mesma. Se o volume e a velocidade das recomendações ultrapassarem a capacidade de análise, a validação torna-se formal: o profissional continua responsável, mas deixa de possuir tempo, informação ou autoridade efetiva para questionar a decisão.

Para cada decisão automatizada importa definir:

  • O objetivo e os limites de atuação;
  • O nível de incerteza admissível;
  • As situações que obrigam a escalamento;
  • Quem pode contrariar a recomendação;
  • Quem responde pelas consequências.

O profissional poderá intervir menos vezes, mas precisamente nos problemas mais difíceis.

 

Menos ferramentas, melhores ligações

A pressão para adotar IA continuará. Responder-lhe com mais projetos isolados poderá, contudo, ampliar a fragmentação. Antes de acrescentar ferramentas, as organizações deveriam identificar os workflows onde a ligação entre dados, decisão e execução pode produzir valor mensurável – e construir a infraestrutura técnica e organizacional necessária para os coordenar sem perder controlo.

Isso implica começar pelo destino, e não pela tecnologia: que tipo de supply chain se pretende construir, que decisões devem tornar-se mais rápidas, quais podem ser delegadas e onde o julgamento humano permanece indispensável? A maturidade não deve ser medida pelo número de algoritmos em produção, mas pela capacidade de transformar informação em decisões coordenadas, com responsabilidade identificável e resultados verificáveis.

A inteligência artificial pode acelerar tarefas. Só a organização consegue redesenhar o trabalho. E só uma rede de empresas pode decidir se está preparada para partilhar o contexto, a autoridade e o risco necessários para que a cadeia funcione como um sistema.

A maturidade não se mede pelo número de algoritmos em produção, mas pela qualidade das decisões que a organização consegue coordenar.

A tecnologia já entrou na logística. A logística é que ainda não foi inteiramente reorganizada à volta dela.

Luís Silva Lopes

 

Fontes-base:

Boston Consulting Group — AI Hasn’t Fully Paid Off Yet in Logistics. But It Will (2026)

Talking Logistics — What Happens When AI Meets a Supply Chain Operating Network? (2026)

Cohen et al. — Supply Chain Management in the AI Era: A Vision Statement from the Operations Management Community