A rastreabilidade e a avaliação do impacto ambiental estão a ganhar peso nas decisões de compra. Mas a multiplicação de normas, certificações e auditorias ameaça aumentar os custos ao longo da cadeia, sem garantir melhorias no terreno. Na COP17, que termina esta sexta-feira, na Mongólia, o debate chegou diretamente ao procurement: como exigir mais sustentabilidade sem deixar os fornecedores presos a sucessivos exercícios de conformidade?

Depois do carbono, a terra começa também a entrar no mapa de risco das empresas. A origem das matérias-primas, a utilização da água, a degradação dos solos e os efeitos da produção sobre os ecossistemas estão a ganhar relevância numa agenda que acabará inevitavelmente por chegar aos processos de qualificação, seleção e avaliação de fornecedores.

A 17.ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD COP17), que decorre desde 17 de agosto em Ulaanbaatar, na Mongólia, colocou as cadeias de valor no centro da discussão sobre a proteção e recuperação dos solos. Embora não seja uma conferência sobre procurement, algumas das questões levantadas dizem diretamente respeito às equipas de compras: que informação exigir aos fornecedores, como comprovar a origem responsável dos produtos e até onde pode ir a acumulação de critérios, normas e certificações.

O alerta tornou-se particularmente evidente no Fashion4Land, fórum realizado no âmbito da COP17 e dedicado à relação entre a indústria da moda, as fibras naturais e a utilização da terra. Durante a sessão foi referido que existem mais de 400 normas e certificações apenas no setor têxtil e da moda.

Para produtores, cooperativas, fabricantes e fornecedores, cada novo referencial pode significar uma auditoria adicional, novos consultores, mais documentação e taxas que, em muitos casos, se renovam todos os anos. O problema, segundo os participantes, é que uma parte significativa do investimento acaba por financiar a demonstração do cumprimento, em vez de chegar à proteção ou recuperação dos territórios onde as matérias-primas são produzidas.

Mais exigência e também maior coerência

O debate não colocou em causa a necessidade de elevar os critérios ambientais. Pelo contrário, a COP17 reforçou a importância da rastreabilidade, da produção responsável e da transparência das cadeias de abastecimento. A questão está na forma como essas exigências são aplicadas e, sobretudo, na falta de harmonização entre referenciais.

Quando diferentes clientes pedem informação semelhante em formatos distintos, não reconhecem as mesmas certificações ou repetem auditorias sobre um único fornecedor, a sustentabilidade pode transformar-se num processo pesado e dispendioso. O impacto tende a ser maior no início da cadeia, entre pequenos produtores, agricultores, pastores, cooperativas e PME com menor capacidade técnica e financeira.

A discussão aponta, por isso, para a necessidade de tornar as normas, as ferramentas de due diligence e os sistemas de reporte mais claros e interoperáveis. Para o  procurement, isso pode significar rever não apenas os critérios incluídos nos cadernos de encargos, mas também a forma como a informação é solicitada, validada e partilhada ao longo da cadeia.

O Programa das Nações Unidas para o Ambiente defendeu, neste contexto, métodos de reporte mais normalizados, capazes de permitir a medição e verificação do desempenho ambiental sem multiplicar desnecessariamente os encargos administrativos. Entre as áreas em desenvolvimento encontram-se os sistemas digitais de informação de produto, a responsabilidade alargada do produtor, os modelos de conceção sustentável e uma maior compatibilidade entre normas.

A natureza entra na avaliação do risco

A discussão ultrapassa o setor têxtil. Alimentação, papel e embalagem, madeira, construção, cosmética, indústria automóvel e outras atividades dependentes de produtos agrícolas, água ou fibras naturais estão igualmente expostas à degradação dos solos e à seca.

Essa exposição pode traduzir-se em menor disponibilidade de matérias-primas, volatilidade dos preços, alterações na qualidade, interrupções de fornecimento ou necessidade de procurar novas geografias de abastecimento. O risco associado à natureza começa, assim, a aproximar-se dos processos de supplier risk management, obrigando as empresas a olhar para além do fornecedor direto e a conhecer melhor a origem dos produtos que compram.

Para as equipas de procurement, o desafio será conciliar duas necessidades que nem sempre avançam ao mesmo ritmo: obter informação suficientemente rigorosa para avaliar o risco e evitar que a resposta passe pela acumulação de questionários, certificações e auditorias com pouco efeito prático.

A COP17 termina esta sexta-feira, 28 de agosto. As decisões finais poderão acrescentar novas medidas ou compromissos com impacto sobre as empresas e as respetivas cadeias de fornecimento.