A sustentabilidade não representa uma mudança de rumo para a logística, mas uma evolução natural da eficiência operacional. José Guilherme Tavares, diretor corporativo do Grupo ETE, defende que a descarbonização começa muito antes da adoção de novas tecnologias: começa na eliminação do desperdício, na utilização inteligente dos recursos e nas decisões tomadas diariamente ao longo das operações.
Durante muito tempo, a logística foi encarada sobretudo como uma função de suporte, responsável por garantir que os produtos e as matérias-primas chegavam ao local certo, no momento certo e ao menor custo possível.
Contudo, a crescente instabilidade dos mercados, a pressão sobre os recursos naturais, a escalada dos custos energéticos, o reforço das exigências regulamentares e a valorização das questões ambientais por parte dos consumidores transformaram profundamente esta visão.
Hoje, a logística ocupa um lugar central na estratégia das organizações. A sua influência estende-se muito para além do transporte e da armazenagem, abrangendo a resiliência das cadeias de abastecimento, a eficiência na utilização dos recursos, a capacidade de adaptação à mudança e a criação de valor sustentável. O que outrora era visto como uma atividade operacional é agora reconhecido como um dos principais fatores de competitividade.
Esta transformação resultou, em grande medida, de uma nova forma de compreender a relação entre sustentabilidade e desempenho logístico. No passado, estes conceitos eram frequentemente apresentados como se servissem objetivos distintos: a eficiência procurava reduzir custos, enquanto a sustentabilidade se concentrava na redução dos impactos ambientais. No entanto, a experiência demonstrou que esta divisão é muitas vezes artificial e que, em ambos os casos, o princípio é o mesmo: utilizar os recursos disponíveis de forma mais inteligente, eliminando desperdícios, aumentando a produtividade e criando mais valor com menos recursos.
Menos desperdício, menos consumo e mais valor
Sempre que uma organização reduz desperdícios, está a diminuir consumos, custos e emissões. Sempre que aumenta a produtividade, está a extrair mais valor dos recursos que utiliza. E, quando melhora os seus processos, está simultaneamente a reforçar a competitividade e a reduzir a pressão sobre o ambiente. No fundo, a sustentabilidade não surge como uma alternativa à eficiência; surge como a sua evolução natural.
Quem trabalha diariamente na logística sabe que os ganhos mais significativos raramente resultam de uma única decisão. São, antes, o resultado de uma sucessão de melhorias operacionais que, acumuladas ao longo do tempo, produzem resultados consistentes.
Vejamos alguns exemplos práticos: uma rota redesenhada, uma carga mais bem consolidada, a utilização de um equipamento mais eficiente, uma deslocação evitada ou até um tempo de espera eliminado. Muitas outras oportunidades poderiam ser identificadas, mas, na realidade, cada uma destas melhorias representa um pequeno avanço que, quando multiplicado por centenas ou milhares de operações, se transforma num impacto relevante na rentabilidade e na sustentabilidade de qualquer organização.
É precisamente aqui que reside uma das principais oportunidades do setor. O desperdício continua a ser um dos maiores inimigos da competitividade. Sempre que uma viatura faz uma deslocação adicional devido a um mau planeamento, está a consumir recursos sem criar valor. Quando uma operação de transporte de carga é executada abaixo da sua capacidade ótima de ocupação, existe potencial desaproveitado. Da mesma forma, sempre que um armazém utiliza mais energia do que a estritamente necessária, existe um custo oculto que compromete a eficiência global da operação.
Por isso, acredito que, para a logística, a sustentabilidade começa exatamente quando se questiona aquilo que efetivamente acrescenta valor. Esta visão ganha particular relevância quando analisamos o tema da descarbonização.
A descarbonização começa nas decisões operacionais
Grande parte do debate sobre a descarbonização na logística tem-se concentrado, legitimamente, nas novas tecnologias, nos combustíveis alternativos e na eletrificação das frotas e dos terminais. Estas medidas têm já um papel importante no presente e terão certamente um papel ainda maior no futuro das cadeias de abastecimento. Contudo, existe uma questão anterior a todas elas: estamos a utilizar os nossos recursos da forma mais inteligente possível?
O transporte de mercadorias mais sustentável nem sempre é aquele que utiliza a tecnologia mais avançada. Muitas vezes, é simplesmente aquele que evita movimentos desnecessários, maximiza a utilização dos ativos disponíveis e reduz desperdícios ao longo de toda a operação.
Antes de substituir combustíveis, eletrificar frotas ou investir em novas tecnologias, existe uma pergunta fundamental que deve ser colocada: esta atividade é realmente necessária? Em muitos casos, o maior ganho ambiental não resulta apenas da forma como transportamos, mas também da capacidade de evitar operações que não acrescentam valor. Esta lógica aplica-se igualmente aos armazéns, centros logísticos, terminais e plataformas operacionais.
Muitas organizações têm vindo a compreender que as oportunidades de melhoria mais imediatas não estão necessariamente associadas a grandes investimentos – que, indiscutivelmente, terão de acabar por acontecer –, mas à capacidade de conhecer melhor os seus processos e consumos.
Uma utilização mais eficiente da energia, a adoção de equipamentos ajustados às necessidades reais da operação, a monitorização contínua dos consumos, a otimização dos períodos de funcionamento e uma manutenção preventiva e preditiva eficaz podem gerar ganhos significativos. Isoladamente, cada medida pode parecer modesta. No entanto, quando integradas numa abordagem consistente, estas medidas contribuem para uma redução sustentada dos custos, um aumento da eficiência operacional e uma vantagem competitiva difícil de igualar.
A energia é um dos exemplos mais evidentes desta transformação. Deixou de ser encarada apenas como um custo inevitável da atividade para assumir, cada vez mais, o papel de recurso estratégico, cuja utilização eficiente influencia diretamente a competitividade, a resiliência e a sustentabilidade das organizações.
Neste contexto, a informação desempenha um papel particularmente relevante. A logística atual produz dados em volumes que eram impensáveis há poucos anos. Hoje, é possível conhecer com precisão onde está cada ativo, como está a ser utilizado, quanto consome, quanto produz e qual é o seu impacto. Contudo, mais do que recolher dados, o verdadeiro desafio consiste em transformá-los em conhecimento útil para a tomada de decisão.
A tecnologia não substituirá a experiência e o conhecimento das pessoas e das equipas, mas permitir-lhes-á, cada vez mais, decidir com maior rapidez e rigor e com uma maior capacidade de antecipação.
Competências, cultura e compromisso
No centro de todas as cadeias de abastecimento continuam a estar as pessoas. São elas que planeiam operações, conduzem veículos, movimentam cargas, mantêm os equipamentos a funcionar, asseguram a continuidade do serviço e resolvem diariamente problemas que nenhum sistema consegue prever na totalidade.
Por isso, quando falamos de sustentabilidade, não podemos limitar-nos às emissões de carbono ou aos indicadores ambientais. Temos necessariamente de falar da formação das equipas, da segurança no trabalho, do desenvolvimento de competências, da saúde ocupacional, da ergonomia, entre muitos outros fatores.
Numa atividade em que a pressão dos prazos, a exigência operacional e a necessidade de resposta rápida fazem parte do quotidiano, investir nas pessoas não é apenas uma responsabilidade social: é uma condição para a sustentabilidade do próprio negócio.
Um contexto de exigência crescente
Ao mesmo tempo, o mercado está a redefinir as suas expectativas. Os clientes querem compreender o impacto dos serviços que adquirem e os investidores procuram organizações mais resilientes e preparadas para o futuro. Simultaneamente, as instituições financeiras incorporam, cada vez mais, critérios de sustentabilidade nos seus processos de avaliação.
As cadeias de abastecimento internacionais reforçam os pedidos de informação, nomeadamente sobre as emissões totais da atividade, expressas em toneladas de CO₂ equivalente, as práticas laborais e a gestão dos riscos. Esta evolução leva a que a sustentabilidade deixe de ser vista apenas como uma vantagem reputacional para se tornar um requisito competitivo à escala global.
A questão já não é saber se as organizações devem integrar estes princípios nas suas operações, mas com que rapidez o conseguem fazer. É precisamente neste contexto que a relação entre logística e sustentabilidade assume uma nova relevância, tornando-se cada vez mais indissociável.
A logística precisa da sustentabilidade porque o futuro exige operações capazes de criar mais valor com menos recursos, reduzir riscos e responder com agilidade a um contexto em permanente mudança. Por sua vez, a sustentabilidade precisa da logística porque nenhuma transformação se concretiza sem a capacidade de execução que esta proporciona. Em última análise, é a logística que transforma intenções, metas e compromissos em resultados concretos.
Basta olhar para o exemplo da economia circular para compreender esta realidade: trata-se de um modelo que depende de redes logísticas eficientes, integradas e devidamente articuladas. O mesmo acontece na luta contra o desperdício alimentar, que exige cadeias de abastecimento capazes de disponibilizar os produtos certos, no momento adequado e nas quantidades necessárias, evitando perdas ao longo de todo o processo.
Também a reutilização de materiais e recursos só se torna viável através de sistemas logísticos preparados para assegurar fluxos de retorno cada vez mais complexos, garantindo que aquilo que anteriormente era considerado um resíduo pode voltar a gerar valor.
O sistema Volta, o sistema português de depósito e reembolso de embalagens de bebidas, constitui um exemplo claro desta interdependência. Sem uma operação logística capaz de recolher, movimentar e gerir eficazmente os fluxos de embalagens, seria impossível garantir a sua recuperação e reintegração no ciclo económico.
Em todos estes exemplos, a sustentabilidade não acontece por si só. Sem a logística, permanece uma intenção; sem a sustentabilidade, a logística perde progressivamente a sua capacidade de responder às exigências do futuro.
Talvez por isso, a grande oportunidade das próximas décadas não esteja apenas na adoção de novas tecnologias ou no cumprimento de novos requisitos regulamentares, mas numa mudança que nos leve a questionar os modelos atuais e a procurar novas respostas: estamos a utilizar os recursos certos da forma mais eficiente? Que desperdícios continuam a consumir valor sem contribuir para os resultados? Como podemos gerar mais valor económico, ambiental e social com menos recursos? E como podemos converter a eficiência operacional numa vantagem competitiva sustentável?
As empresas que conseguirem responder a estas questões não estarão apenas a tornar-se mais sustentáveis. Estarão a construir operações mais inteligentes, mais resilientes e mais preparadas para competir num ambiente cada vez mais exigente.
Porque, no final, a sustentabilidade não representa uma mudança de rumo para a logística, mas a sua próxima etapa de evolução. Num contexto em que os recursos são cada vez mais escassos e as exigências cada vez maiores, vencerão não as organizações que fizerem mais, mas aquelas que conseguirem criar mais valor com menos desperdício.
José Guilherme Tavares, diretor corporativo | Grupo ETE


