Num contexto marcado pela instabilidade geopolítica, pela volatilidade dos custos energéticos e pela sucessão de disrupções, transportar deixou de ser apenas uma questão de preço. Neste artigo de opinião, Bernardo Guinea analisa a forma como o risco, a flexibilidade e a capacidade de adaptação estão a redefinir as decisões das empresas e a desenhar uma nova geografia dos transportes.

Durante três décadas, o setor dos transportes e da logística viveu segundo um princípio relativamente simples: otimizar custos, reduzir inventários e globalizar as cadeias de abastecimento. O modelo just-in-time tornou-se uma referência mundial, sustentado por combustíveis acessíveis, uma relativa estabilidade geopolítica e rotas marítimas previsíveis.

Hoje, este paradigma está profundamente alterado.

A logística deixou de ser apenas uma função operacional para se transformar num fator estratégico de competitividade e, em muitos casos, de previsibilidade económica. As empresas portuguesas já não perguntam apenas “quanto custa transportar esta carga?”, mas também “quais são os riscos associados a este transporte?”. Esta mudança de mentalidade representa uma das maiores transformações da história recente do setor.

A atual realidade geopolítica desempenha um papel central nesta mudança. As guerras no Médio Oriente, as tensões comerciais, o conflito na Ucrânia e as sucessivas interrupções das cadeias de abastecimento criaram níveis de incerteza que seriam impensáveis há alguns anos. A crise do Mar Vermelho mostrou como um único ponto de estrangulamento pode afetar milhares de empresas em todo o mundo, alterando rotas e obrigando os navios a contornar África, com o consequente aumento dos tempos de trânsito, do consumo de combustível e dos custos.

O combustível representa uma parte significativa dos custos do transporte rodoviário, marítimo e aéreo. Perante este contexto, as empresas passaram a valorizar mais a previsibilidade do transporte e não apenas a redução de custos. Os mecanismos de proteção financeira e os modelos de otimização de rotas assumem, por isso, uma relevância crescente na decisão sobre o transporte.

A negociação tradicional, centrada exclusivamente no preço, está a dar lugar a acordos que privilegiam a flexibilidade, a resiliência e a partilha de risco. Os contratos logísticos incluem cada vez mais cláusulas relacionadas com acontecimentos geopolíticos, indexação ao custo do combustível, garantias de capacidade e planos alternativos de transporte.

Verifica-se também uma clara tendência para o nearshoring. Muitas organizações estão a aproximar os centros de produção dos mercados consumidores ou a privilegiar países considerados geopoliticamente mais estáveis. O objetivo não passa apenas por reduzir distâncias, mas também por aumentar a segurança das cadeias de abastecimento. A procura da eficiência extrema está, assim, a dar lugar a uma maior valorização da resiliência operacional.

A digitalização constitui igualmente uma resposta a este novo contexto. Atualmente, saber onde se encontra uma carga já não é suficiente. É cada vez mais importante antecipar os riscos antes que estes se concretizem.

A sustentabilidade representa outra dimensão importante desta transformação. A logística do futuro será, simultaneamente, mais tecnológica, mais sustentável e mais resiliente.

Mas o maior desafio dos próximos anos não será apenas tecnológico ou ambiental. Será, acima de tudo, estratégico. A logística, tal como a conhecemos, está a entrar numa nova fase, na qual os critérios de eficiência terão de coexistir com fatores geopolíticos, energéticos e de segurança.

O custo continuará a ter um peso determinante, mas já não poderá ser avaliado isoladamente. A logística do século XXI deixou de consistir apenas em transportar carga do ponto A para o ponto B. Passou a significar garantir continuidade, competitividade e resiliência num mundo cada vez mais imprevisível.

O futuro dos transportes será cada vez menos definido pela velocidade e mais pela capacidade de adaptação. E essa será, provavelmente, uma das maiores revoluções que o setor já enfrentou.

Bernardo Guinea, Branch manager | Robert Kukla Portugal