A rastreabilidade não pode ser vista apenas como uma questão tecnológica, deve, antes, ser encarada como uma decisão que afeta o desempenho operacional. É a partir desta ilação que o diretor de Inovação e Projetos da Luís Simões Logística Integrada, António Fernandes, desenvolve a sua análise sobre a importância da rastreabilidade na logística.
“Durante anos, a rastreabilidade foi vista como um complemento útil para responder a incidências pontuais ou cumprir determinados requisitos regulamentares. No entanto, atualmente essa ideia mudou radicalmente: num contexto marcado pela volatilidade, pela pressão sobre os custos e por uma crescente complexidade operacional, poder rastrear as mercadorias assume uma importância fundamental.
Esta realidade também se verifica na Península Ibérica. Portugal e Espanha enfrentam um crescimento sustentado da atividade logística – impulsionado pelo dinamismo do mercado interno, pela reconfiguração das cadeias de abastecimento e pelo papel estratégico do sul da Europa como elo de ligação. Este crescimento exige controlo, visibilidade e capacidade de resposta, bem como uma gestão mais eficiente dos recursos, imprescindível para evoluir para modelos logísticos sustentáveis.
Na prática, a rastreabilidade já não pode ser abordada apenas como uma questão tecnológica, mas sim como uma decisão que afeta o próprio desenho do modelo operacional. Afeta a forma como se configuram os fluxos, se tomam decisões e se antecipam riscos ao longo de toda a cadeia e, sobretudo, a capacidade de construir uma rastreabilidade realmente transversal, que acompanhe a mercadoria desde a sua saída da fábrica até à entrega final.
Cadeias de abastecimento mais resilientes
Num ecossistema logístico composto por fabricantes, operadores, transportadores e clientes, a interoperabilidade dos sistemas e a partilha de informação tornam-se imprescindíveis. Esta necessidade é especialmente visível em setores com impacto direto na saúde do consumidor, como os da alimentação, da higiene pessoal e o farmacêutico.
A digitalização da documentação, como a carta de porte digital ou e-CMR, é um bom exemplo de como pequenas mudanças estruturais podem ter um impacto significativo. Ao eliminar o papel e sincronizar o fluxo físico com o administrativo, ganhamos controlo, transparência e agilidade, ao mesmo tempo que reduzimos erros e “tempos mortos”.
Este tipo de iniciativas não depende de grandes discursos tecnológicos, mas de uma verdadeira vontade de colaboração, normalização e confiança entre os diferentes intervenientes.
Da visibilidade reativa à capacidade de antecipação
No que diz respeito ao transporte, tradicionalmente o acompanhamento limitava-se a saber onde está um veículo. Hoje, essa abordagem é claramente insuficiente. A rastreabilidade moderna deve fornecer contexto – refiro-me a fatores como os tempos estimados, possíveis incidências ou o impacto de elementos externos como o trânsito, a meteorologia ou as restrições regulamentares.
A combinação da digitalização com a análise de dados suportada por IA está a permitir avançar para modelos preditivos, capazes de antecipar atrasos ou desajustes. Pela nossa experiência, esta capacidade não só melhora o nível de serviço, como também reduz custos ocultos associados a esperas ou atrasos na tomada de decisões.
Num contexto como o ibérico, em que se regista uma forte dependência do transporte rodoviário e uma crescente congestão dos ambientes urbanos, esta antecipação torna-se não apenas uma vantagem operacional fundamental, como também uma ferramenta para reduzir ineficiências estruturais que impactam diretamente o consumo energético e as emissões associadas ao transporte.
O armazém: o elo que permite consolidar a visibilidade de toda a cadeia de abastecimento
Embora o transporte tenha avançado de forma notável em termos de visibilidade, a gestão do armazém foi tradicionalmente uma das áreas em que a informação operacional se revelou mais complexa de integrar em tempo real. No entanto, esta situação está a mudar: os centros logísticos estão a deixar de ser espaços de passagem para se tornarem nós inteligentes de criação de informação.
A implementação de sistemas avançados de gestão de armazéns, combinados com automatização seletiva, permite conhecer em tempo real a localização, o estado e o tempo de permanência de cada produto em armazém. O resultado? Menos erros, fluxos de saída acelerados e uma melhor utilização do espaço e planeamento das cargas.
Para além disso, uma gestão precisa do stock reduz o capital imobilizado e evita excessos de aprovisionamento, contribuindo, igualmente, para uma utilização mais racional do espaço, da energia e dos recursos disponíveis, com um impacto direto tanto na eficiência como na sustentabilidade da operação.
Rastreabilidade e sustentabilidade: uma relação direta
Tal como referi anteriormente, a sustentabilidade na logística não é um eixo independente da eficiência, mas a sua consequência direta quando a rastreabilidade é bem desenhada. Sem visibilidade completa, não é possível medir com precisão consumos, emissões ou ineficiências. E, sem medição, não há melhoria real.
Otimizar rotas, reduzir viagens em vazio, melhorar a ocupação dos veículos ou racionalizar a utilização do espaço nos armazéns são decisões que dependem diretamente da qualidade da informação disponível. Neste sentido, a rastreabilidade não é um objetivo em si mesmo, mas o meio para operar de forma mais eficiente e responsável.
Naturalmente, estas mudanças não são apenas tecnológicas, mas também culturais. É necessário transformar a forma de operar e fazer com que os dados passem a ser encarados como um ativo, e não como uma carga administrativa. Formar as equipas, simplificar processos e desenhar ferramentas utilizáveis é tão importante como investir em tecnologia.
Num mercado cada vez mais exigente, a rastreabilidade tornou-se uma condição básica para uma logística eficiente. Contar com informação fiável ao longo de toda a cadeia permite reduzir ineficiências e responder com maior solidez às mudanças do contexto. Avançar para uma rastreabilidade transversal será determinante para nos mantermos competitivos – agora e no futuro.”
António Fernandes, diretor de Inovação e Projetos, Luís Simões Logística Integrada


