Agosto abrandou a agenda, mas não parou as cadeias de abastecimento. Entre aquisições, custos de transporte em alta, novas restrições à circulação, antecipação de importações, sinais contraditórios da economia europeia e impacto das alterações climáticas, reunimos o essencial dos últimos dias para quem esteve longe das notícias.

 

Grupo português reforça operação em Espanha

O Grupo Paulo Duarte adquiriu 70% da Barquín y Otxoa, transportadora basca com mais de 40 anos de experiência no transporte e logística de mercadorias a temperatura controlada.

Com mais de 500 trabalhadores e clientes como a Mercadona, em Espanha, e o Lidl na Península Ibérica, a empresa reforça a presença do grupo português num dos principais polos industriais e logísticos espanhóis.

A operação deverá elevar a faturação consolidada do Grupo Paulo Duarte para cerca de 240 milhões de euros em 2026. E poderá não ser a última: o grupo admite concretizar novas aquisições ainda este ano, no âmbito de um plano de crescimento que aponta para uma faturação de 600 milhões de euros em 2030.

Mais do que acrescentar capacidade, a aquisição reforça a especialização na temperatura controlada, aumenta a cobertura geográfica e aproxima o grupo de clientes estratégicos do retalho e da indústria espanhola.

 

Transportar para a grande distribuição ficou 10% mais caro

Os custos de transporte suportados pelos supermercados e hipermercados portugueses terão aumentado, em média, cerca de 10% entre abril e junho.

A volatilidade do petróleo voltou a pressionar as operações logísticas e a distribuição alimentar. Segundo a Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED), os combustíveis representam entre 25% e 30% dos custos operacionais de um veículo pesado de mercadorias.

A subida levanta uma questão que deverá acompanhar o setor nos próximos meses: quanto deste aumento ainda pode ser absorvido pelos operadores, fornecedores e distribuidores antes de chegar ao preço final dos produtos?

A pressão é particularmente difícil de gerir nos contratos de maior duração, negociados com base em pressupostos de custos que podem deixar de ser válidos poucas semanas depois.

 

Novo regime da VCI preocupa operadores logísticos

A partir de 15 de setembro, determinados veículos pesados de mercadorias ficam proibidos de circular na Via de Cintura Interna do Porto nos dias úteis, entre as 07h00 e as 21h00.

A restrição abrange veículos com peso bruto superior a 3.500 quilogramas, três ou mais eixos e altura igual ou superior a 1,1 metros, medida na vertical do primeiro eixo. Em paralelo, estes veículos passam a beneficiar de isenção de portagens na Circular Regional Exterior do Porto, numa tentativa de desviar da VCI o tráfego pesado de atravessamento.

As operações de carga e descarga com origem ou destino nos municípios do Porto e de Vila Nova de Gaia permanecem autorizadas. Contudo, as empresas terão de obter uma habilitação prévia para cada movimento de transporte através de uma plataforma digital.

O procedimento implica o preenchimento de um formulário e a submissão do documento de transporte, com informação sobre os locais de carga e descarga, data e hora de início da operação, matrícula do veículo e código atribuído pela Autoridade Tributária.

A Associação Portuguesa de Operadores Logísticos apoia o objetivo de reduzir o congestionamento da VCI e considera positiva a isenção de portagens na CREP, mas alerta para a complexidade administrativa criada pelo processo de habilitação. A associação receia que os custos de contexto e os encargos operacionais adicionais acabem por se repercutir ao longo da cadeia de abastecimento.

 

Tarifas rodoviárias aceleram na Europa

A pressão observada em Portugal acompanha uma subida mais generalizada dos preços do transporte rodoviário europeu. No segundo trimestre, o índice das tarifas contratadas atingiu 148 pontos, mais 7,9 pontos do que no trimestre anterior e mais 15,2 pontos em termos homólogos, segundo o relatório da IRU, Upply e Transport Intelligence.

No mercado spot, a aceleração foi ainda mais acentuada. O índice alcançou 146,8 pontos, depois de subir 14,6 pontos num único trimestre e 13,9 pontos face ao mesmo período de 2025.

A evolução mostra que os operadores estão a transferir para os preços uma parte crescente dos custos de combustível. No mercado spot, onde os valores reagem mais rapidamente às condições operacionais, essa transferência tornou-se particularmente visível.

 

Tarifas comerciais antecipam a época alta

Os portos norte-americanos movimentaram 2,5 milhões de TEU de importações em julho, o quarto valor mais elevado de sempre para esse mês.

O volume não traduz apenas maior procura. Muitos importadores anteciparam encomendas antes da entrada em vigor de novas tarifas nos Estados Unidos, procurando evitar custos adicionais e reduzir a exposição à incerteza comercial.

As importações provenientes da China atingiram 873 mil TEU, o valor mensal mais elevado do último ano. Grandes retalhistas como Walmart, Amazon e Home Depot representam, em conjunto, cerca de metade das importações contentorizadas norte-americanas.

A tradicional época alta do transporte marítimo está, assim, a começar mais cedo e a prolongar-se. As decisões políticas estão a alterar calendários de compras, níveis de stock, contratação de capacidade e utilização dos portos. O resultado pode ser um pico artificial de volumes, seguido por um abrandamento, quando as empresas começarem a consumir os stocks acumulados.

 

Maersk olha para os congestionamentos em terra

O CEO da Maersk, Vincent Clerc, defendeu um novo ciclo de investimento em portos, terminais, ferrovia e transporte rodoviário, alertando para os estrangulamentos que se estão a formar fora do mar.

Segundo o responsável, vários mercados enfrentam as consequências de cerca de 15 anos de investimento insuficiente nas infraestruturas terrestres. O aumento dos volumes está a pressionar terminais e ligações ferroviárias, rodoviárias e fluviais, dificultando o transporte dos contentores até ao destino final.

O alerta surgiu na apresentação dos resultados do segundo trimestre. A Maersk registou um EBITDA de 3 mil milhões de dólares, acima dos 2,3 mil milhões observados um ano antes, e reviu em alta as previsões para 2026.

A mensagem é clara: recuperar a normalidade nas rotas marítimas não resolve, por si só, os problemas de capacidade existentes nos portos e nas ligações ao hinterland.

Comércio europeu recupera, mas a indústria continua frágil

A Zona Euro registou um excedente comercial de bens de 8,6 mil milhões de euros em junho, acima dos 4,8 mil milhões observados um ano antes. As exportações aumentaram 14,4% e as importações 13,1%.

O resultado mensal esconde, contudo, um primeiro semestre menos favorável. No acumulado dos primeiros seis meses, o excedente comercial da Zona Euro caiu cerca de 88%, passando de 82,2 mil milhões para 9,8 mil milhões de euros.

As exportações recuaram 0,2% no semestre, enquanto as importações aumentaram 4,9%.

Também não há ainda sinais de uma recuperação industrial sólida. Em junho, a produção industrial permaneceu estagnada na Zona Euro e cresceu apenas 0,2% na União Europeia.

A economia europeia continua a avançar (o PIB cresceu 0,4% na Zona Euro e 0,5% na União Europeia no segundo trimestre), mas sem um dinamismo industrial capaz de afastar as dúvidas sobre a sustentabilidade da recuperação.

 

Seca coloca o Reno num mínimo histórico

A seca e a ausência prolongada de chuva fizeram o nível do Reno atingir um novo mínimo histórico em Kaub, um dos pontos mais críticos para a navegação comercial no rio.

O nível medido chegou aos oito centímetros em 14 de agosto. Este valor não corresponde à profundidade total do rio, mas funciona como referência para calcular o calado disponível e a quantidade de carga que cada embarcação pode transportar.

Com níveis tão baixos, os navios têm de reduzir drasticamente a carga para evitar encalhar. Algumas viagens foram suspensas e parte das mercadorias começou a ser transferida para o transporte ferroviário e rodoviário, aumentando a pressão sobre modos que já enfrentam limitações de capacidade.

O Reno é uma das principais artérias logísticas da Europa, ligando os portos de Roterdão, Amesterdão e Antuérpia ao coração industrial alemão e a mercados mais a sul. Por esta via circulam combustíveis, produtos químicos, carvão, minério, cereais, contentores e matérias-primas essenciais à indústria.

Empresas dos setores químico, siderúrgico, energético e agrícola já alertaram para custos adicionais, atrasos e possíveis limitações à produção. A interrupção do transporte num troço próximo de Kaub pode, na prática, impedir a navegação contínua entre o norte e o sul do rio.

A situação mostra como um fenómeno climático localizado pode rapidamente transformar-se num problema industrial e logístico europeu e transferir volumes da via fluvial para a estrada e a ferrovia.

 

Projeto europeu cria vias de recrutamento de motoristas no Norte de África

Um projeto cofinanciado pela União Europeia vai testar vias legais de mobilidade laboral para motoristas profissionais entre o Norte de África e dois Estados-membros.

O Skilled Driver Mobility for Europe II pretende formar 600 motoristas no Egito e em Marrocos. Destes, 200 deverão ser encaminhados para processos de mobilidade laboral: 100 candidatos egípcios para a Roménia e 100 candidatos marroquinos para Itália.

A iniciativa, que decorre até dezembro de 2028, procura responder à falta de motoristas nos dois mercados europeus, aproximando formação, certificação, recrutamento e integração profissional.

Embora tenha ainda uma escala limitada e não inclua Portugal, o projeto mostra como a mobilidade laboral proveniente de países terceiros começa a ser testada como resposta à escassez estrutural de motoristas na União Europeia.

Seca no Danúbio chega à energia e à produção automóvel

A descida do nível do Danúbio deixou de ser apenas um problema para a navegação. Na Roménia, a falta de água obrigou ao encerramento dos dois reatores da central nuclear de Cernavodă, que utiliza o rio no sistema de arrefecimento.

A central assegura normalmente cerca de 20% da produção de eletricidade do país. Um dos reatores já tinha sido retirado de serviço no final de julho e o segundo começou a ser encerrado de forma controlada a 13 de agosto, depois de o nível do rio ter descido abaixo dos limites necessários ao seu funcionamento.

A situação levou as autoridades romenas a declarar uma emergência energética e a pedir às empresas que reduzissem voluntariamente o consumo nos períodos de maior procura.

A Dacia e a Ford suspenderam temporariamente a produção nas fábricas romenas até 19 de agosto. Segundo o Governo, a decisão das duas empresas permitiu reduzir o consumo nacional de eletricidade em cerca de 200 megawatts.

A crise está também a afetar outros países atravessados pelo Danúbio. Na Sérvia, a principal central hidroelétrica chegou a operar com apenas 20% da capacidade, enquanto a Hungria acompanhava os níveis do rio devido ao risco para o funcionamento da central nuclear de Paks.

O episódio mostra como a seca pode percorrer rapidamente diferentes elos da economia: começa por limitar a navegação, reduz a produção de energia e acaba por chegar às linhas de montagem.

 

Várias pressões em simultâneo

Os acontecimentos dos últimos dias convergem num mesmo ponto: as cadeias de abastecimento continuam a enfrentar pressão em várias frentes ao mesmo tempo.

Os combustíveis estão a elevar os custos do transporte. As tarifas comerciais alteram o calendário das encomendas e a gestão dos stocks. Novas regras de circulação acrescentam exigências administrativas. As infraestruturas terrestres dão sinais de saturação e a escassez de profissionais mantém-se.

Não há uma única grande disrupção a dominar a agenda; há, isso sim, várias pressões sobrepostas, com impactos diferentes conforme o setor, o mercado e a posição ocupada por cada empresa na cadeia. É esta acumulação que deverá continuar a marcar as próximas semanas.