A geopolítica é, hoje, o principal catalisador da transformação das cadeias logísticas porque condiciona decisões que têm impacto direto nos fluxos globais de mercadorias. Esta visão, partilhada à SCM por Ana Esteves, vice-presidente da APLOG, é o fio condutor do 28.º congresso da associação, marcado para os dias 13 e 14 de outubro, em Oeiras, subordinado precisamente ao tema “Geopolítica e Logística: Cadeias em Transformação”.

Uma escolha que a profissional enquadra com as mudanças que têm vindo a moldar a logística nos últimos anos. Nota, a propósito, que deixou de ser vista apenas como uma função operacional focada em transportar, armazenar e distribuir produtos.  Afinal, hoje, as cadeias de abastecimento são influenciadas por fatores globais que vão muito além do controlo das empresas: “Conflitos geopolíticos, tensões comerciais, alterações nas políticas energéticas, preocupações com a segurança do abastecimento e novas exigências regulatórias passaram a fazer parte do quotidiano dos gestores da cadeia de abastecimento”, analisa.

É a necessidade de compreender esta nova realidade que está na génese do tema que estará em foco este ano. Porque, afirma a vice-presidente da associação, “as empresas encontram-se num momento em que já não basta procurar eficiência e redução de custos, é necessário desenvolver cadeias mais resilientes, capazes de responder rapidamente à instabilidade e à incerteza”.

Ao mesmo tempo – acrescenta – assiste-se a uma aceleração da digitalização, da automação e da utilização da inteligência artificial, fatores que estão a alterar profundamente a forma como as cadeias são planeadas e geridas. “O congresso pretende, por isso, proporcionar um espaço de reflexão sobre os grandes vetores de mudança que estão a moldar o futuro da logística”, aponta.

A geopolítica é um desses vetores, com Ana Esteves a concretizar que uma guerra, uma alteração nas relações comerciais entre países ou uma restrição à circulação de determinadas matérias-primas podem provocar efeitos imediatos nos custos, nos prazos de entrega e na disponibilidade dos produtos.

Durante décadas – recorda – as cadeias de abastecimento foram desenhadas sobretudo com base na lógica da eficiência global.: “procuravam-se os fornecedores mais competitivos, muitas vezes localizados em geografias distantes, e os stocks eram reduzidos ao mínimo”. Porém, os acontecimentos dos últimos anos vieram demonstrar que este modelo tem vulnerabilidades importantes.

“Talvez a maior mudança que estamos a viver seja a passagem de uma lógica centrada exclusivamente na eficiência para uma lógica onde a capacidade de adaptação se tornou um fator de sobrevivência. A resiliência, a diversificação de fornecedores, a proximidade aos mercados e a gestão do risco passaram a ter um peso semelhante ao da eficiência económica”, argumenta, considerando que as cadeias de abastecimento estão a ser redesenhadas para responder a um mundo mais fragmentado e menos previsível.

Sublinha, no entanto, que a geopolítica não atua sozinha: “A transformação resulta também da combinação entre tecnologia, sustentabilidade, automação e evolução dos modelos de consumo”, analisa, realçando que o grande desafio das organizações é gerir simultaneamente todas estas forças de mudança.

 

O desafio de manter a competitividade num contexto volátil

Neste cenário, Ana Esteves partilha que, em Portugal, a principal preocupação passa por garantir que o país e as suas empresas conseguem manter a competitividade num contexto internacional cada vez mais complexo e volátil.

Lembra, a propósito, que, sendo uma economia fortemente dependente do comércio externo, Portugal está particularmente exposto às alterações dos fluxos globais de abastecimento. Por isso, defende que se torna essencial reforçar a resiliência das cadeias logísticas, melhorar as infraestruturas de transporte e potenciar o papel estratégico dos portos nacionais e das plataformas logísticas na ligação entre a Europa, o Atlântico e os restantes mercados internacionais.

Neste âmbito, o foco da APLOG é promover a partilha de conhecimento, incentivar a inovação e contribuir para o desenvolvimento de cadeias de abastecimento mais robustas, sustentáveis e tecnologicamente evoluídas. “Mais do que discutir os problemas atuais, importa preparar empresas e profissionais para antecipar riscos, identificar oportunidades e responder com maior agilidade aos desafios que se avizinham”, defende.

E isto porque “a incerteza deixou de ser uma exceção e passou a fazer parte do contexto de decisão das empresas”. O desafio – adianta Ana Esteves – já não é evitar essa realidade, mas aprender a competir e a crescer dentro dela. Afinal, “num mundo em rápida transformação, a logística deixou de ser apenas uma função de suporte ao negócio para assumir um papel estratégico na criação de valor e no crescimento da economia portuguesa”.