A Shein ultrapassou uma das principais etapas para avançar com a entrada na Bolsa de Hong Kong, mas deverá chegar ao mercado com uma avaliação muito inferior à alcançada em 2022. Os novos custos aduaneiros, o escrutínio sobre fornecedores e a necessidade de reforçar a infraestrutura logística estão a obrigar a empresa a demonstrar que a cadeia de abastecimento que sustentou o seu crescimento também consegue resistir a um mercado mais regulado e exigente.

A Shein recebeu a aprovação do comité de admissões da Bolsa de Hong Kong para avançar com a sua oferta pública inicial (IPO na sigla inglesa), aproximando-se de uma operação que poderá concretizar-se ainda durante o terceiro trimestre de 2026.

Segundo fontes citadas pela Reuters, a empresa poderá apresentar formalmente o pedido de admissão à bolsa na última semana de julho e lançar a operação no final de agosto, embora o calendário permaneça dependente das condições de mercado. A plataforma estará a procurar uma avaliação entre 40 e 50 mil milhões de dólares.

O intervalo fica muito abaixo dos cerca de 100 mil milhões de dólares atribuídos à Shein numa ronda de financiamento realizada em 2022 e traduz uma leitura mais prudente do seu potencial de crescimento, rentabilidade e exposição regulatória.

Depois de tentativas de cotação em Nova Iorque e Londres, condicionadas pelo escrutínio político e regulatório sobre a empresa e a sua cadeia de fornecimento, Hong Kong surge como a alternativa para uma das entradas em bolsa mais aguardadas do setor do comércio eletrónico.

 

Supply chain como vantagem… e fator de risco

A redução da avaliação não decorre apenas do abrandamento do crescimento. Reflete também as dúvidas sobre a capacidade da Shein para preservar as margens num contexto em que o comércio eletrónico transfronteiriço enfrenta custos mais elevados, maior fiscalização e novas obrigações de conformidade.

O modelo da empresa assenta numa extensa rede de fornecedores, localizada sobretudo na China, capaz de produzir pequenos lotes em ciclos muito curtos. Os novos artigos são inicialmente fabricados em quantidades reduzidas, sendo a produção reforçada à medida que os dados recolhidos pela plataforma demonstram a existência de procura.

Esta estrutura permitiu à Shein reduzir o risco de excesso de stock, encurtar os ciclos de desenvolvimento dos produtos e disponibilizar rapidamente um elevado número de novas referências. Mas depende igualmente de uma logística internacional de baixo custo e da expedição direta de grandes volumes de pequenas encomendas a partir da Ásia. É precisamente esta componente do modelo que está agora sob maior pressão.

 

Nova taxa europeia altera economia das pequenas encomendas

Desde 1 de julho de 2026, os produtos incluídos em encomendas de valor não superior a 150 euros, importadas de países terceiros, passaram a estar sujeitos a um direito aduaneiro temporário de três euros por artigo. A medida deverá vigorar até 1 de julho de 2028, altura em que está prevista a aplicação do novo regime aduaneiro europeu.

A nova regra atinge diretamente plataformas como a Shein e a Temu, cujo modelo depende de milhões de pequenas remessas expedidas sobretudo a partir da Ásia. De acordo com o Conselho da União Europeia, os fluxos abrangidos pelo regime Import One-Stop Shop representam cerca de 93% das importações de comércio eletrónico para a União Europeia.

A Europa representa aproximadamente um terço das receitas da Shein, segundo fontes citadas pela Reuters, tornando o mercado particularmente relevante para a rentabilidade da operação. O agravamento dos custos estará já a afetar as taxas de conversão, a obrigar a empresa a reduzir despesas de marketing e a pressionar a avaliação pretendida para a entrada em bolsa.

Nos Estados Unidos, a eliminação da isenção de minimis para encomendas provenientes da China e de Hong Kong já tinha retirado outra das vantagens económicas que ajudaram a impulsionar o crescimento das plataformas asiáticas de comércio eletrónico.

O problema para a Shein não está apenas no valor da taxa e sim no efeito acumulado que os novos direitos aduaneiros, controlos, requisitos de segurança dos produtos e custos de processamento podem ter sobre um modelo baseado em artigos de preço muito reduzido.

 

Aproximar o stock dos consumidores

Uma das respostas da empresa passa por aproximar o inventário dos principais mercados de consumo e aumentar a utilização de centros de distribuição regionais. Na Europa, a Shein tem vindo a reforçar a capacidade de armazenagem na Polónia, numa tentativa de reduzir os prazos de entrega e diminuir a dependência da expedição direta de cada encomenda a partir da China. Esta adaptação logística é apontada como uma das medidas adotadas pela empresa para responder à nova realidade regulatória.

A “regionalização” da rede pode reduzir a exposição aos custos aplicados às pequenas remessas internacionais, melhorar o nível de serviço e facilitar a gestão das devoluções, mas obriga-a também a assumir mais stock, infraestruturas e custos fixos nos mercados de destino. Trata-se de uma mudança relevante para uma empresa que cresceu precisamente através de um modelo relativamente leve em ativos, produzindo em função da procura e evitando acumular grandes quantidades de inventário.

A Shein terá, por isso, que encontrar um novo equilíbrio entre a agilidade da produção asiática e a necessidade de manter mercadoria mais perto dos consumidores. Quanto maior for o volume armazenado regionalmente, maior será também o risco de previsão e obsolescência associado a um negócio sujeito a tendências de consumo muito rápidas.

 

GlobalData aponta investimento em logística e tecnologia

A GlobalData considera que a avaliação mais baixa poderá tornar a oferta mais atrativa para os investidores, ao aproximar as expectativas das atuais condições de mercado e dos riscos associados ao modelo de negócio da Shein.

Segundo a consultora, a empresa terá indicado uma quase duplicação do lucro líquido, de 1,1 mil milhões de dólares em 2024 para cerca de dois mil milhões em 2025, sinalizando que o negócio continua a apresentar uma forte capacidade de geração de caixa apesar da moderação do crescimento.

Para Sharon Iles, senior apparel analyst da GlobalData, uma entrada em bolsa bem-sucedida permitiria à Shein acelerar o investimento em infraestrutura logística, merchandising suportado por inteligência artificial e capacidades de supply chain.

O capital obtido poderá também apoiar a expansão da empresa na Europa de Leste, Médio Oriente e América do Sul, mercados nos quais a penetração do comércio eletrónico de moda continua a aumentar, segundo a analista.

A capacidade de investir na rede logística será essencial para que a empresa consiga manter a rapidez e os preços que distinguem a sua proposta, ao mesmo tempo que adapta as operações a diferentes regras aduaneiras, requisitos de conformidade e expectativas dos consumidores.

 

Fornecedores continuam sob escrutínio

A cadeia de abastecimento permanece, contudo, um dos principais fatores de risco associados à operação. A Shein continua a enfrentar críticas relacionadas com as condições de trabalho nos fornecedores, a rastreabilidade das matérias-primas, o impacto ambiental do modelo de ultra-fast fashion e a conformidade dos produtos vendidos através da plataforma.

Estas questões tiveram peso nas anteriores tentativas de entrada em bolsa e deverão continuar a influenciar a perceção dos investidores. Embora tenha sede em Singapura e não comercialize diretamente os seus produtos na China, a empresa depende de milhares de fabricantes e subcontratados chineses.

A pressão concorrencial também está a aumentar. A Temu continua a expandir-se internacionalmente, enquanto grupos como a Inditex e a Primark reforçam as suas propostas dirigidas ao segmento de preço mais baixo.

Na análise da GlobalData, estas empresas apresentam ainda uma vantagem ao nível das credenciais de sustentabilidade e dos mecanismos de controlo da supply chain. A consultora destaca os investimentos da Primark em auditorias e no programa Primark Cares, bem como a infraestrutura de conformidade e auditoria de fornecedores desenvolvida pela Inditex ao longo de vários anos.

A entrada na Bolsa de Hong Kong será, por isso, apenas uma etapa. O verdadeiro teste será perceber se a Shein consegue demonstrar um crescimento duradouro, preservar as margens e aumentar o controlo sobre uma cadeia de fornecimento que se tornou demasiado relevante para permanecer fora do escrutínio dos reguladores e dos investidores.

A operação poderá dar à empresa os recursos necessários para reforçar a logística, investir em tecnologia e diversificar os mercados, mas também tornará mais visíveis as fragilidades de um modelo construído numa altura em que enviar milhões de pequenas encomendas diretamente da China era significativamente mais simples e mais barato.

📸 Imagem gerada com recurso a IA