A Escola Superior de Ciências Empresariais do Instituto Politécnico de Setúbal venceu o Prémio de Excelência Logística 2026, na categoria Academia, com uma pós-graduação em logística marítima e portuária, construída a partir das necessidades do setor. Em entrevista à Supply Chain Magazine, Luís Silva Lopes explica o que o estudo de competências revelou de surpreendente, o impacto de duas edições do curso e por que razão o investimento previsto na Estratégia Portos 5+ só dará frutos “através das pessoas”.
Foi um dos premiados da cerimónia dos Prémios de Excelência Logística 2026, promovida pela APLOG a 9 de julho, em Oeiras [LINK para a reportagem], na categoria Academia com o projeto “Da Investigação à Capacitação Setorial: Pós-Graduação em Logística Marítima e Portuária no Ecossistema Academia NEXUS”, uma formação desenhada em conjunto com as empresas e entidades do ecossistema marítimo-portuário e que caminha agora para a terceira edição. À Supply Chain Magazine, Luís Silva Lopes detalha as lacunas de competências que o setor enfrenta e defende que a resposta à procura de quadros da próxima década tem de ser, sobretudo, feita em casa.
SCM – A pós-graduação nasceu das necessidades identificadas pelas empresas do ecossistema marítimo-portuário. Que lacunas de competências mais vos surpreenderam nesse levantamento e que hoje consideram críticas para o futuro da logística marítima e portuária?
Luís Silva Lopes – O que mais nos surpreendeu não foi a existência de lacunas técnicas, que naturalmente existem num setor em forte transformação, mas sim a importância atribuída pelo próprio ecossistema às competências de integração, adaptação e decisão.
No estudo que realizámos sobre competências essenciais em logística marítima e portuária, envolvendo benchmarking de programas de referência e auscultação de stakeholders do setor, tornou-se claro que as necessidades das empresas já não se organizam apenas em torno do conhecimento técnico tradicional. Esse conhecimento continua a ser indispensável, em áreas como operações portuárias, transporte marítimo, multimodalidade, regulação, carga contentorizada ou gestão logística, mas deixou de ser suficiente.
A principal lacuna identificada foi a capacidade de combinar diferentes tipos de competências. O setor precisa de profissionais que compreendam a operação portuária, mas que também saibam analisar dados, tomar decisões estratégicas, colaborar com equipas multidisciplinares, dialogar com clientes e parceiros, gerir mudança e atuar em contextos de grande incerteza. Aliás, o ranking de competências do estudo é muito revelador: as mais valorizadas pelos stakeholders foram a flexibilidade e adaptabilidade, o trabalho em equipa com profissionais de diferentes áreas, a capacidade de decisão estratégica na otimização da cadeia de abastecimento e a análise de dados para apoio à decisão.
Diria que identificámos quatro grandes lacunas críticas. A primeira é a lacuna de integração sistémica: os portos têm de ser compreendidos como nós críticos de cadeias logísticas globais, intermodais e cada vez mais complexas, e não apenas como infraestruturas de movimentação de carga. A segunda é a lacuna digital e analítica: a digitalização, a automação, a interoperabilidade, a cibersegurança e a inteligência artificial exigem profissionais capazes de interpretar dados e transformá-los em melhores decisões. A terceira está associada à sustentabilidade e à transição energética: a descarbonização, a eletrificação, os combustíveis alternativos e os novos requisitos ambientais vão alterar profundamente a forma como os portos são planeados, operados e geridos. A quarta é a lacuna de competências transversais e de gestão da mudança.
Foi precisamente esta leitura que procurámos transportar para a pós-graduação. O objetivo não foi criar apenas uma formação técnica, mas uma formação aplicada e integrada, capaz de preparar profissionais para um setor mais digital, mais global, mais sustentável, mais regulado e mais exigente do ponto de vista estratégico.
O curso vai agora para a terceira edição. Que impacto concreto já conseguem identificar?
O impacto mais evidente é a criação de uma comunidade de aprendizagem muito próxima do setor marítimo-portuário. A pós-graduação não se limitou a transmitir conhecimento académico; criou um espaço de contacto entre profissionais de diferentes organizações, com experiências distintas, mas com desafios comuns. Tivemos participantes ligados a administrações portuárias, operadores logísticos, empresas de transporte, consultoria e outras áreas do ecossistema. Essa diversidade permitiu discutir problemas reais, comparar práticas e construir uma linguagem comum sobre a transformação da logística marítima e portuária.
Os dados do inquérito de satisfação da última edição reforçam esta perceção. Num universo de 21 estudantes, com uma taxa de resposta de 71%, e numa escala de 0 a 6, a satisfação por frequentar o curso no IPS foi avaliada em 4,9, tal como a recomendação do curso a um colega. O desempenho pedagógico dos docentes obteve 5,2 e o desenvolvimento de competências transversais também. Destaco ainda o relacionamento entre colegas, avaliado em 5,4, porque demonstra que o curso tem também uma função importante de criação de rede profissional.
Em termos concretos, vemos impacto em três planos. No plano individual, através de profissionais que reforçam competências técnicas, estratégicas e transversais; no plano organizacional, porque muitos trabalhos desenvolvidos no curso partem de problemas reais das empresas e instituições de origem dos participantes; e no plano do ecossistema, porque a pós-graduação tem ajudado a aproximar academia, empresas, administrações portuárias e operadores em torno de uma agenda comum de capacitação.
Naturalmente, alguns impactos só serão plenamente visíveis a médio prazo. Mas a mudança mais visível está na forma como os participantes passam a olhar para os portos: há uma maior consciência de que os portos são hoje plataformas logísticas, digitais, energéticas e industriais, e de que a competitividade portuária depende tanto de infraestruturas e tecnologia como de competências humanas.
A Estratégia Portos 5+ prevê milhares de milhões de investimento e 15 novas concessões na próxima década. O sistema de formação português tem escala para responder a essa procura de quadros ou vamos importar competências?
A Estratégia Portos 5+ coloca uma questão central: não basta investir em infraestruturas, equipamentos, digitalização ou transição energética. É indispensável garantir que existem pessoas qualificadas para planear, executar, operar e gerir essa transformação.
Portugal tem uma base relevante de competências na área da logística, dos transportes, da gestão, da engenharia e da economia do mar. Não parto da ideia de que teremos inevitavelmente de importar competências de forma estrutural. Mas também seria pouco realista considerar que o sistema atual, tal como está, consegue responder sozinho, e à mesma velocidade, à escala dos desafios que se aproximam.
O que precisamos é de aumentar escala, especialização e coordenação. Precisamos de mais programas aplicados, mais formação executiva, mais requalificação de profissionais no ativo, mais ligação entre ensino superior e empresas, e maior capacidade de antecipar perfis profissionais emergentes. Projetos como esta pós-graduação são uma parte dessa resposta, mas não podem ser a resposta única. Devem funcionar como demonstradores de um modelo: formação aplicada, construída com o setor e orientada para problemas reais.
Na minha perspetiva, Portugal deve desenvolver internamente a maior parte dessas competências, sem fechar a porta à atração de talento internacional quando necessário. Mas, importar competências, não pode ser a solução principal. Se a Estratégia Portos 5+ pretende afirmar Portugal como uma plataforma portuária mais competitiva, mais digital, mais sustentável e mais integrada nas cadeias internacionais, então a formação tem de ser tratada como infraestrutura estratégica.
Em síntese, a competitividade futura dos portos portugueses não dependerá apenas do investimento físico. Dependerá da capacidade de transformar esse investimento em conhecimento, inovação, produtividade e valor económico. E isso faz-se, necessariamente, através das pessoas.


