O SCM Automation Day levou a Aveiro indústria, retalho alimentar, bebidas, saúde, operadores e investigação/academia para responder a uma pergunta que já não é “se”, mas “como”. Da rolha de cortiça aos robôs humanoides, fica o balanço de uma tarde passada dentro de uma fábrica: a Horse Aveiro.

Não foi por acaso que o SCM Automation Day aconteceu dentro de uma unidade industrial. Ontem, 7 de julho, a conferência dedicada à logística e às operações instalou-se na HORSE Aveiro, longe das salas de hotel, com uma declaração de intenções implícita: a automação prova-se, ou desmente-se, no chão de fábrica e de armazém. E foi aí, perto da operação, que ao longo de uma tarde se cruzaram indústria, retalho alimentar, bebidas, saúde, operadores logísticos e centros de investigação em torno de uma única palavra e fornecedores de equipamentos e soluções: critério.

A pergunta que atravessou o programa já não foi se se deve automatizar. Essa discussão, assumiu-se logo na abertura, está feita. A questão é como automatizar com critério. Onde está o valor real, como se constrói um retorno de investimento credível e o que aprenderam, incluindo com os erros, as empresas que já começaram a fazer o caminho.

Coube a Raquel Miranda, diretora da Unidade de Gestão e Engenharia Industrial do INEGI, fixar a grelha de leitura. O contexto que traçou não deixa margem para adiamentos: a produtividade por hora trabalhada na União Europeia está cerca de 30% abaixo da norte-americana, e Portugal fica ainda cerca de 20% abaixo da média europeia. Mais de 70% das empresas industriais europeias apontam a escassez de mão de obra qualificada como fator limitador da produção. Ao mesmo tempo, a tecnologia acelera. Em 2024 instalaram-se 542 mil robôs industriais no mundo, o dobro de dez anos antes, mas com a Ásia a absorver 74% das novas instalações e a Europa apenas 16%.

Perante esta pressão, a tese da responsável do INEGI foi clara: automatizar com critério não é automatizar tudo, é automatizar onde a execução limita produtividade, segurança, qualidade ou capacidade. A decisão deve começar pelo problema, não pela tecnologia disponível, e exige processos estáveis, dados fiáveis e pessoas preparadas, porque a automação amplifica a maturidade existente, e se o processo for frágil, a tecnologia amplifica a fragilidade. O valor, defendeu ainda, mede-se para além do retorno financeiro imediato: também em ergonomia, qualidade, nível de serviço e capacidade de crescimento.

 

A rolha que deixou de transportar ar

Se a abertura deu a teoria, a Amorim Cork trouxe a prova, com aquele que foi porventura o caso mais completo da tarde. Rui Castanheira e Bruno Queda contaram uma jornada que começa num cenário quase artesanal: rolhas a viajar em sacos de ráfia de cinco mil unidades, dezasseis sacos empilhados à mão por palete, dependentes da “arte de bater o saco” de operadores experientes. O resultado eram cargas instáveis, ráfia rasgada e, sobretudo, transporte de ar, com as formas irregulares dos sacos a gerar vazios enormes em volume pago.

Em 2016, a empresa quebrou o paradigma com o conceito de “torre de rolhas”: caixas rígidas em vez de sacos flexíveis, rolhas orientadas com precisão milimétrica e as primeiras células robóticas de paletização. E aqui a apresentação teve o mérito raro da honestidade. É que, como explicaram, a teoria da automação embateu na complexidade real do chão de fábrica, com falhas de integração e de conceito mecânico que impediram, ao início, a cadência necessária. Foram precisos anos de engenharia de detalhe até dominar a tecnologia. Quando o conhecimento se tornou interno, a expansão foi rápida: mais duas células de segunda geração, com capacidade duplicada, a cumprir os KPI logo no primeiro ano.

Os números finais justificam a insistência: de 5.000 para 7.176 rolhas por embalagem, mais 43,5%, e de 80.000 para quase 115.000 rolhas por palete, com carga autoportante em vez de instável. O impacto traduziu-se numa redução de cerca de 40% nos custos de transporte intercompany e numa poupança na ordem dos 900 mil euros entre 2023 e 2025. A lição, alinhada com o mote do dia: por vezes o retorno não está no robô mais espetacular, está na densidade de carga.

Do lado do retalho alimentar, Marlos Silva, da SONAE MC, situou a discussão no ambiente porventura mais exigente para a automação: milhares de referências, frescos e congelados, validades curtas, picos de procura… A sua intervenção enquadrou o momento tecnológico, o ciclo de inovação mais acelerado de sempre, sustentado na convergência de dados massivos, capacidade computacional e algoritmos cada vez mais eficientes, e mostrou como a robótica sobe uma escada de autonomia em que o humano passa progressivamente de executante a supervisor. No terreno, os exemplos percorreram toda a cadeia, do fornecedor à loja: da inspeção de peixe por imagem em segundos aos robôs móveis em armazém e ao reconhecimento automático de prateleira.

 

O debate: onde está o ROI, e onde desilude

O grande momento de discussão da tarde juntou quatro perspetivas raramente sentadas à mesma mesa: Carla Neiva (HORSE Aveiro), com automação avançada já em escala na indústria automóvel; Vítor Figueiredo, CEO da Logifrio, operador de temperatura controlada em expansão multi-site; Miguel Simões (Sumol+Compal), com a sazonalidade forte dos centros de distribuição de bebidas; e Sérgio Quinteiro (Luz Saúde), a voz da logística hospitalar, onde o “vital” e o “acessório” não se medem apenas em euros. O debate percorreu os critérios reais de decisão sobre o que automatizar primeiro, os erros mais comuns, o paradoxo do talento, em que a automação responde à escassez de mão de obra mas exige competências novas, e a forma como o ROI se defende internamente, perante administrações, clientes e investidores.

Durante a pausa para café houve tempo para a área prática, o espaço onde a conversa se confrontava com a tecnologia a funcionar. Ali estiveram representados os parceiros do evento, a Inspire Robotics (by Follow Inspiration), a iDR Domótica e Robótica, a Boomerang Systems (Imeguisa), a Europneumaq, a Brother e a Flowbotic, a quem os participantes puderam fazer diretamente as perguntas difíceis sobre soluções de automação, robótica e intralogística.

O programa regressou depois, literalmente, a casa: Óscar Lopes e Rogério Simões abriram as portas da operação da HORSE Aveiro para um dos desafios mais clássicos da intralogística industrial, a automatização do transporte de peças entre processos de fabrico, com fluxo contínuo, sincronização com a produção e convivência segura entre máquinas e pessoas. Este projeto já havia sido distinguido com uma menção honrosa em 2025 pela APLOG.

 

Dos AMR aos humanoides, sem perder o pé

O olhar para o futuro coube a Manuel Silva, do INESC TEC, que trouxe também dados nacionais preocupantes: num inquérito a 62 empresas do setor, apresentado no 27.º Congresso da APLOG, a escassez de talento confirma-se como desafio central, com Portugal já como terceiro país onde os empregadores reportam mais dificuldade em atrair pessoas qualificadas. É neste contexto que a automação muda de natureza: de sistemas rígidos e CAPEX pesado para soluções flexíveis e modulares, com os AMR, robots móveis autónomos, a tornarem-se padrão nas operações de escala, dispensando infraestrutura fixa e escalando com facilidade.

O investigador mostrou protótipos que vão de rebocadores e porta-paletes autónomos à teleoperação de empilhadores via rede pública 5G e à descarga autónoma de contentores. Quanto aos humanoides, a triagem foi serena: são o próximo passo, desenhados para ambientes feitos para humanos, mas falta desenvolver as aplicações e vencer problemas de fiabilidade. Mais do que uma tecnologia, concluiu, os AMR são um novo modelo operacional: de operações rígidas para adaptativas, do planeamento estático para a execução dinâmica.

Francisco Rocha e João Félix, do HAVI TechHub, completaram a equação com a camada de inteligência. A visão apresentada desenha uma operação autónoma de ponta a ponta, da previsão da procura à faturação, com casos de uso em cada elo: previsão com IA e copilotos que analisam sinais externos de risco alimentar, gémeos digitais da cadeia, visão computacional na receção, armazenagem automática, cobots no embalamento e rastreabilidade total na expedição. Mas, o mais relevante, foi a passagem do conceito ao caso de negócio em curso: a automação inteligente do armazém, combinando visão computacional, voz e digitalização documental, com benefícios estimados entre 4 e 5 milhões de euros em três anos, 15 a 20 equivalentes a tempo inteiro automatizados e ganhos de produtividade de 3 a 6%, e um agente de análise ABC preparado para escalar a 44 centros de distribuição. A pergunta com que fecharam ficou a pairar: se o valor já se prova caso a caso, o que impede a transformação numa logística verdadeiramente autónoma?

A resposta do lado dos operadores veio pela via da colaboração. António Fernandes, diretor de Inovação e Processos da Luís Simões, mostrou como o operador ibérico respondeu à fragmentação operacional, aos picos de procura e às dificuldades de recrutamento com um modelo logístico centralizado e escalável, cocriado entre equipas operacionais, tecnológicas e de engenharia, e híbrido por desenho, combinando armazenamento automatizado de alta densidade com zonas convencionais. Os resultados validam a aposta: mais 20% de produtividade no picking, redução de 45% em recursos humanos e equipamentos, precisão de inventário de 99,95% e um desempenho de movimentação 25% superior ao de um armazém tradicional. A tese subjacente é a de que a logística evolui para ecossistemas colaborativos, em que operadores e clientes partilham informação, riscos e benefícios, e em que os investimentos acompanham o crescimento do cliente.

 

A lição final: a tecnologia é a parte fácil

Coube a Pedro Nabais, diretor do Departamento de Projetos e Manutenção dos CTT, fechar o dia com a mais honesta das perguntas: o que se aprende, de facto, ao automatizar? A resposta veio em forma de lições de uma operação com cinco séculos de história a viver a sua transição mais acelerada, do correio tradicional para o e-commerce. A inovação disruptiva cria a oportunidade, mas é a inovação contínua que consolida a liderança, como mostra a rede de lockers com tecnologia 100% CTT, que evoluiu de conceito para ecossistema de self-service. A velocidade vence a perfeição, porque o maior risco não é falhar, é chegar tarde, e um MVP a 80% em produção gera mais valor do que um plano perfeito em PowerPoint.

Segundo este responsável, o ecossistema universitário/académico funciona, e produz não apenas tecnologia mas o talento futuro da organização. Comprar tecnologia sem conhecimento é comprar dependência, daí a aposta em equipas internas que instalam, integram e fazem evoluir os sistemas. E a IA é um amplificador, não uma estratégia: os casos de uso devem nascer de problemas reais, como por exemplo a inspeção automática de tabuleiros por visão artificial.

O remate do responsável dos CTT podia ter servido de epígrafe a toda a tarde: a tecnologia é a parte fácil; a transformação é 100% sobre pessoas, e joga-se na liderança, na comunicação e na formação.

Dito de outra forma, e fechando o círculo aberto na primeira intervenção do dia, a tecnologia é o meio, a operação é o fim. Foi com a palavra “critério” que o Automation Day abriu, e foi com ela, já bem mais preenchida, que a audiência saiu de Aveiro no final da tarde.