Na preparação da Imersão na Filosofia de Liderança Japonesa para Negócios, que levará um grupo de líderes ao Japão, em novembro, Abbadhia Vieira reflete sobre um dos princípios mais simples, e mais exigentes, do Kaizen: a capacidade de identificar pequenas melhorias, repetidas de forma consistente, que podem produzir transformações profundas nas organizações, na liderança e na vida quotidiana.
1% de alguma coisa todos os dias, de forma sustentável, vale mais do que 30% de impacto que não consegue sobreviver até à próxima segunda-feira.
Calma. Não estou falando de dieta, academia ou daqueles posts motivacionais que aparecem quando você mais precisa de um café. Estou falando de Kaizen.
Existe uma história famosa no universo Lean.
Um colaborador observou que precisava dar alguns passos extras para descartar resíduos durante uma operação. A solução? Mover uma lixeira alguns centímetros.
Parece ridículo. Aliás, é exatamente por parecer ridículo que muita gente ignora a genialidade da coisa.
Porque executivos são treinados para procurar grandes oportunidades, grandes investimentos e grandes transformações. E faz sentido. Se eu estivesse na cadeira deles, provavelmente faria o mesmo.
Mas existe uma verdade escondida no Kaizen que o Ocidente às vezes quase joga no lixo: O Kaizen não procura milhões. Procura três segundos. Porque três segundos repetidos milhares de vezes por dia deixam de ser segundos. Transformam-se em horas. Dias. Meses. Anos.
A pergunta então deixa de ser: “Qual é a próxima grande transformação?”; e passa a ser: “Que pequenas ineficiências já se tornaram invisíveis porque convivemos com elas há demasiado tempo?”
Toda a organização tem as suas lixeiras invisíveis. Relatórios que ninguém lê. Reuniões que ninguém questiona. Aprovações criadas para problemas que já não existem. Sistemas paralelos que continuam vivos porque ninguém teve coragem de lhes dar uma despedida digna.
O mais curioso?
Quase nunca faltam soluções. Falta gente treinada para enxergá-las.
E talvez o Kaizen mais importante nem esteja no processo. Talvez esteja no espelho. Porque a mesma pergunta vale para as organizações e para as pessoas: O que você pode melhorar hoje em apenas 1%? Na sua rotina. Na forma como lidera. Na maneira como escuta. Ou até na forma como olha para si próprio.
Afinal, grandes transformações raramente chegam fazendo barulho. Normalmente entram pela porta dos fundos, 1% de cada vez.
Abbadhia Vieira*, Cientista do Humor Corporativo, doutoranda em Ecologia Humana e fundadora da Moodfy Academy.
* – Há mais de 15 anos pesquisa comportamento humano, aprendizagem, comunicação e culturas organizacionais, ajudando empresas a desenvolver ambientes mais produtivos. Atualmente conduz a Imersão na Filosofia de Liderança Japonesa para Negócios, em novembro de 2026, uma experiência de aprendizagem no Japão que investiga, na prática, conceitos como Kaizen, Lean, Omotenashi e excelência operacional através de visitas, experiências culturais e contacto direto com organizações japonesas. Os leitores da Supply Chain Magazine beneficiam de 250€ de desconto na inscrição.


