A Inteligência Artificial já tem uma significativa influência nas cadeias de abastecimento globais, mas o seu avanço no setor healthcare, apesar de estratégico, levanta questões sobre a relevância da decisão humana. Sandra Durães, service manager na Logista Pharma e professora convidada na Licenciatura em Gestão da Distribuição e da Logística no IPS, nesta reflexão, defende que o sucesso operacional já não depende apenas da capacidade de implementar sistemas baseados em IA, mas sim da sensibilidade e do pensamento crítico de quem os lidera.

A Inteligência Artificial (IA) deixou de ser uma previsão futurista para se tornar uma realidade progressivamente integrada nas cadeias de abastecimento globais. Na logística farmacêutica e no setor healthcare, esta transformação tem vindo a assumir particular relevância, não apenas pela crescente complexidade operacional, mas sobretudo pela criticidade associada à disponibilidade, rastreabilidade e integridade dos produtos.

Nos últimos anos, temos assistido a uma aceleração significativa da adoção de soluções baseadas em IA aplicadas à previsão de procura, gestão de inventário, otimização de rotas, monitorização de temperatura, automação documental e análise preditiva de risco. A evolução tecnológica permitiu que muitas organizações passassem de modelos reativos para abordagens progressivamente mais antecipatórias, aumentando a capacidade de resposta e reduzindo desperdícios operacionais.

Num setor particularmente sensível como o farmacêutico, onde atrasos, ruturas ou desvios logísticos podem ter impacto direto na saúde pública, esta evolução representa uma oportunidade relevante de reforço da eficiência, da resiliência e da capacidade de decisão.

As tendências internacionais apontam precisamente nesse sentido. Cadeias de abastecimento mais conectadas, sistemas autónomos de apoio à decisão, integração crescente entre plataformas digitais e utilização de modelos preditivos cada vez mais sofisticados começam a redefinir o funcionamento das operações logísticas em saúde. A Inteligência Artificial surge, assim, não apenas como uma ferramenta operacional, mas como um elemento estratégico de transformação organizacional. Contudo, no meio deste entusiasmo tecnológico, existe uma reflexão que importa não ignorar.

A crescente capacidade da IA para executar tarefas tradicionalmente humanas tem vindo a alimentar um debate recorrente sobre substituição profissional. E, de facto, é inegável que muitas funções operacionais sofrerão alterações significativas nos próximos anos. Processos repetitivos, análises de grande volume de dados e decisões baseadas em padrões estatísticos serão progressivamente automatizados com níveis de precisão dificilmente alcançáveis exclusivamente por intervenção humana. Mas reduzir esta discussão à substituição de funções é, provavelmente, simplificar excessivamente a questão.

A Inteligência Artificial pode substituir parte daquilo que fazemos. Pode automatizar tarefas, acelerar análises e otimizar processos. No entanto, permanece uma dimensão profundamente humana que continua impossível de replicar de forma integral: o julgamento crítico, a leitura contextual, a ética da decisão e a responsabilidade associada às consequências dessa decisão. Particularmente em contextos farmacêuticos e healthcare, onde as decisões logísticas podem afetar diretamente doentes, profissionais de saúde e comunidades inteiras, esta componente humana mantém-se central.

A tecnologia pode recomendar ações. Pode identificar probabilidades. Pode sinalizar riscos. Mas a decisão continua, inevitavelmente, dependente de pessoas. E é precisamente por isso que as competências humanas assumem hoje uma importância ainda maior. Num contexto cada vez mais automatizado, características como pensamento crítico, adaptabilidade, capacidade analítica, inteligência emocional, proatividade e flexibilidade deixam de ser competências complementares para se tornarem verdadeiros fatores de diferenciação. Paradoxalmente, quanto mais evolui a Inteligência Artificial, mais relevante se torna a qualidade da intervenção humana.

O desafio das organizações não será apenas tecnológico. Será também cultural e humano. Não bastará investir em sistemas avançados se não existirem profissionais preparados para interpretar informação, questionar resultados, compreender impactos e tomar decisões de forma consciente e responsável.

A verdadeira maturidade organizacional não estará apenas na capacidade de implementar Inteligência Artificial, mas na capacidade de equilibrar eficiência tecnológica com discernimento humano. Num momento em que o setor discute automação, digitalização e transformação acelerada, talvez seja importante recordar que a tecnologia deve continuar a servir pessoas, e não substituir aquilo que nos torna capazes de decidir com consciência.

O futuro da logística farmacêutica será inevitavelmente mais tecnológico. Mas continuará a depender da qualidade humana de quem a lidera, a interpreta e a transforma diariamente. Porque, no final, a Inteligência Artificial poderá redefinir muitos processos. Mas continuará a ser a inteligência humana a definir o propósito das decisões.

© 2026 Sandra Durães · ORCID: 0009-0009-7043-8466

Sandra Durães, Service Manager na Logista Pharma | Professora Convidada na Licenciatura em Gestão da Distribuição e da Logística (ESCE, IPS)