A AD Ports Group acordou adquirir a brasileira CLI – Corredor Logística e Infraestrutura, numa operação avaliada em 835 milhões de dólares. A transação, a maior operação de M&A da história do grupo de Abu Dhabi, marca a entrada da empresa na América do Sul e reforça a sua aposta na logística alimentar, através de dois terminais estratégicos de exportação agrícola nos portos de Santos e Itaqui.

A AD Ports Group vai adquirir a CLI – Corredor Logística e Infraestrutura, operador brasileiro de terminais portuários de granéis agrícolas, numa operação avaliada em 835 milhões de dólares. A transação foi anunciada como a maior aquisição de sempre do grupo de Abu Dhabi e representa a entrada da empresa no mercado sul-americano.

A operação, ainda sujeita às habituais condições de fecho, incluindo aprovações regulatórias e de concorrência, envolve a compra da CLI aos atuais acionistas Macquarie Asset Management e IG4 Capital. A conclusão da transação está prevista para a segunda metade de 2026.

A CLI opera dois terminais de exportação de granéis agrícolas, em concessões de longo prazo: CLI Sul, no Porto de Santos, e CLI Norte, no Porto de Itaqui, no Maranhão. A empresa detém 100% da CLI Norte e 80% da CLI Sul.

 

Dois terminais em corredores estratégicos

A CLI Sul é o principal terminal brasileiro de exportação de açúcar e tem também atividade relevante no escoamento de milho e soja. Já a CLI Norte está localizada no Porto de Itaqui, integrado no chamado Arco Norte, região que inclui a bacia amazónica e que se tem afirmado como um corredor logístico emergente para as exportações agrícolas brasileiras.

Em 2025, os dois terminais movimentaram cerca de 17 milhões de toneladas de granéis agrícolas. No mesmo ano, a CLI registou receitas de 178 milhões de dólares e um EBITDA de 98 milhões de dólares, de acordo com os dados divulgados pela AD Ports Group.

A empresa sublinha ainda que os portos e terminais do norte do Brasil registaram, em 2025, o crescimento mais rápido do país, reforçando o papel do Arco Norte na reconfiguração do mapa logístico brasileiro. O interesse pelos ativos é também explicado pela sua localização em corredores críticos de exportação e pela escassez de capacidade portuária, em particular em Santos, onde a limitação de expansão e o congestionamento deverão sustentar níveis elevados de utilização no longo prazo.

Brasil ganha peso na estratégia alimentar do Golfo

Para a AD Ports Group, a aquisição da CLI não representa apenas a compra de capacidade portuária no Brasil. O grupo enquadra a operação na sua estratégia de expansão internacional e na criação de um novo eixo comercial Este-Oeste, ligando a maior economia sul-americana ao subcontinente indiano, África Oriental e Sudeste Asiático.

A empresa refere também que pretende estabelecer novas rotas comerciais diretas entre o Brasil, Khalifa Port e o Abu Dhabi Food Hub, em KEZAD, apresentado como o maior hub alimentar da região. A operação aproxima, assim, a infraestrutura de exportação agrícola brasileira dos mercados do Médio Oriente e da Ásia, num contexto em que a segurança alimentar, a diversificação de rotas e o controlo de ativos logísticos críticos têm vindo a ganhar relevância estratégica.

Por outro lado, o Brasil é um dos principais exportadores mundiais de produtos agrícolas. No açúcar, a AD Ports Group refere que o país representa entre 40% e 50% das exportações globais. É também um dos maiores fornecedores mundiais de soja, milho e café, produtos que dependem fortemente de corredores logísticos eficientes para chegar aos mercados internacionais.

 

Uma estratégia que já vinha em movimento

A compra da CLI junta-se a outros investimentos recentes da AD Ports Group no segmento agroalimentar. Em dezembro de 2025, o grupo assinou, através da Karachi Gateway Multipurpose Terminal Ltd., um acordo de longo prazo com a unidade paquistanesa da Louis Dreyfus Company para desenvolver capacidade de manuseamento e armazenagem de granéis agrícolas no Porto de Karachi.

Em janeiro de 2025, a AD Ports Group acordou investir cerca de 30 milhões de dólares no terminal de cereais de Sarzha, no porto de Kuryk, no Cazaquistão. Mais recentemente, assegurou uma concessão de 30 anos para operar o porto multipurpose de Aqaba, na Jordânia, que movimenta mais de 3 milhões de toneladas de cereais por ano.

Na Europa, através da Noatum Ports, o grupo já está presente em operações de granéis agrícolas nos terminais de Tarragona e Sagunto, em Espanha, que movimentam cerca de 2 milhões de toneladas de cereais por ano. Foi também anunciado um investimento de 90 milhões de dirhams, cerca de 21 milhões de euros, para modernizar as instalações existentes no terminal de Tarragona.

A aquisição da CLI passa, assim, a ser a maior operação da história da AD Ports Group, superando a compra da espanhola Noatum, em 2023, por 720 milhões de dólares, e a aquisição de 51% da Global Feeder Shipping, em 2024, por 510 milhões de dólares.

Mais do que uma operação financeira, a entrada no Brasil confirma uma tendência crescente: a infraestrutura logística ligada à alimentação está a tornar-se um ativo estratégico global. Quem controla terminais, corredores e capacidade de escoamento controla também uma parte crítica da ligação entre produção agrícola, comércio internacional e segurança de abastecimento.