No rescaldo de quase 100 dias de forte condicionamento à navegação no Estreito de Ormuz, Fernando Cruz Gonçalves, professor na ENIDH, analisa a aparente resiliência do mercado petrolífero. Entre expectativas diplomáticas, rotas alternativas, reservas estratégicas, menor procura chinesa e abrandamento económico, o professor explica porque o preço do barril não atingiu os cenários mais extremos inicialmente previstos, mas alerta para a natureza temporária destes fatores de equilíbrio.
Causa alguma perplexidade que, estando o Estreito de Ormuz fortemente condicionado à navegação marítima há quase 100 dias, o preço do barril do petróleo continue a oscilar entre os 95 e os 110 dólares, sem que se tenham concretizado os cenários catastróficos inicialmente traçados.
A verdade é que o mercado negoceia expectativas futuras e não apenas a situação presente. A variação da cotação do barril de crude está essencialmente associada à perceção dos mercados quanto à proximidade, ou não, de uma resolução do conflito, na sequência de discursos mais ou menos inflamados de Donald Trump.
Criou-se a expectativa de que o encerramento será temporário, de que um acordo diplomático poderá estar próximo e de que a reabertura à navegação ocorrerá rapidamente. Nas últimas semanas, o prémio de risco geopolítico diminuiu de forma rápida, traduzindo-se numa descida do barril de Brent, apesar da manutenção das restrições à navegação no Estreito.
Da anunciada intervenção militar de duas a quatro semanas, evoluímos para a situação de crise atual, que se arrasta há quase 100 dias. Recorde-se que a procura é tipicamente inelástica e que o Golfo Pérsico era responsável pelo trânsito de cerca de 20 milhões de barris por dia. Como se explica, então, a resiliência do mercado perante esta situação?
A primeira justificação está na utilização da capacidade máxima dos oleodutos que fazem o bypass ao Estreito de Ormuz. O oleoduto Petroline Este/Oeste, da Arábia Saudita até Yanbu, permite exportar petróleo diretamente para o Mar Vermelho, contornando a zona em conflito. De igual forma, os Emirados Árabes Unidos dispõem de um pipeline de Abu Dhabi até Fujairah, permitindo também esta ligação direta por terra. Estima-se que ambos os pipelines tenham uma capacidade conjunta de escoamento entre 4,7 e 5 milhões de barris por dia.
A segunda resposta está no refrear do consumo da China. Responsável, em situações normais, pela importação de cerca de 11 milhões de barris por dia, a China reduziu as suas importações para 9,37 milhões de barris por dia em abril de 2026 e para 6,6 milhões de barris por dia em maio deste ano. O mesmo é expectável para junho. Na prática, a quebra das importações chinesas ajudou a absorver parte relevante da escassez mundial de petróleo resultante do bloqueio do Estreito de Ormuz.
As importações chinesas diminuíram, mas o consumo interno não caiu na mesma proporção, o que indicia a utilização de stocks acumulados. Recorde-se que a China possui a maior reserva estratégica de petróleo a nível mundial, estimada em 1,541 mil milhões de barris.
Em paralelo, com intervenção estatal, as refinarias chinesas concentraram-se na produção de combustíveis mais refinados, reduzindo a produção de derivados de menor valor acrescentado.
A terceira justificação está associada ao aumento das exportações de petróleo e produtos refinados dos EUA em cerca de 2,5 milhões de barris por dia, resultante da autorização para o recurso às suas reservas estratégicas. O mesmo é aplicável aos restantes países da Agência Internacional de Energia. Estas libertações de reservas estratégicas podem vir a prolongar-se durante vários meses, compensando a redução do fluxo proveniente do Golfo.
Outra resposta reside no abrandamento da procura determinado pela desaceleração económica causada pelo aumento do preço do petróleo. Perante preços elevados, os consumidores reduzem o consumo, a atividade industrial reflete o aumento dos custos no consumidor e a economia abranda. Alguns analistas estimam que a procura mundial tenha sido reduzida em vários milhões de barris por dia, aliviando a pressão sobre o mercado.
O que parece inquestionável é que a economia mundial está hoje menos dependente do petróleo do que estava nos choques petrolíferos da década de 1970. A diversificação energética, o recurso a energias renováveis e o aumento da eficiência dos processos produtivos aumentaram a elasticidade da procura, reduzindo o impacto destes choques na oferta.
Existe igualmente uma capacidade produtiva latente, potenciada pelo aumento do preço do barril. Da América do Norte, com EUA e Canadá, à América do Sul, com Brasil, Guiana e Venezuela, passando pela África Ocidental, Mar do Norte, Atlântico, Rússia e Mar Cáspio, vários produtores têm aumentado a sua produção petrolífera para compensar a escassez proveniente do Golfo Pérsico. O elevado preço do barril assim o justifica.
Em conclusão, uma série de fatores tem contribuído para que o preço do barril de Brent se mantenha anormalmente contido, apesar do forte condicionamento à navegação no Estreito de Ormuz. As expectativas de reabertura futura, a libertação de reservas estratégicas, a utilização de stocks acumulados, especialmente na China, e o abrandamento económico ajudam a explicar este comportamento.
São, no entanto, fatores de carácter temporário e, na maior parte dos casos, de curto prazo. Quanto maior for o período durante o qual o Estreito de Ormuz permanecer encerrado ou fortemente condicionado, maior será a probabilidade de um aumento abrupto do preço do barril de crude. Ambas as partes em negociação têm perfeita perceção disso.
Fernando Cruz Gonçalves, Professor da ENIDH – Escola Superior Náutica Infante D. Henrique


