A economia mundial em 2050 poderá ser marcada por abundância tecnológica, fragmentação geopolítica, transição climática acelerada ou maior concentração de riqueza e poder. Um novo estudo do BCG Henderson Institute, think tank da Boston Consulting Group, identifica quatro cenários possíveis para os próximos 25 anos e alerta as empresas para a necessidade de preparar estratégias mais flexíveis e resilientes.

O relatório Beyond Tomorrow: Four Scenarios for the World of 2050 parte da análise de mais de 100 megatendências

e de um século de dados históricos para projetar diferentes trajetórias para a economia global, com impacto direto no comércio internacional, no crescimento económico, na transição energética, no mercado de trabalho e nas cadeias de abastecimento.

Os cenários vão desde uma cooperação global em torno da Inteligência Artificial, capaz de mais do que triplicar o PIB mundial, até uma fragmentação geopolítica que devolveria o comércio a níveis da Guerra Fria. Para os autores, o objetivo não é prever o futuro, mas identificar sinais precoces que permitam às empresas reconhecer, em tempo útil, o rumo que o mundo está a tomar.

Pedro Pereira, Managing Director & Senior Partner da BCG em Lisboa, considera que o exercício tem implicações concretas para o tecido empresarial português. “Nenhum destes cenários é certo, mas todos são plausíveis e Portugal, como economia aberta, exportadora e profundamente integrada no mercado europeu, é particularmente exposto ao rumo que o mundo vier a tomar”, afirma.

Segundo o responsável, um cenário de Battling Blocs, com o comércio global a colapsar para níveis da Guerra Fria, seria “devastador” para setores como o turismo, a exportação industrial e os serviços. Já um cenário de AI Abundance poderia representar “uma oportunidade de reinvenção”, mas apenas para as empresas que tenham investido no reforço da resiliência das operações, na adaptação do talento à demografia e à IA, e na necessária flexibilidade digital. “O único erro estratégico verdadeiro é planear para um único futuro”, conclui.

Comércio global pode recuar para níveis da Guerra Fria

No cenário mais adverso para a globalização, designado “Blocos em confronto”, as tensões geopolíticas dividem o mundo em esferas rivais, reduzem a cooperação internacional e reorganizam os fluxos comerciais. Neste contexto, o comércio global poderia cair para cerca de 35% do PIB mundial, face a 57% em 2024, invertendo décadas de integração económica.

A despesa em defesa poderia subir para cerca de 7% do PIB global, à medida que os países passassem a privilegiar segurança, autonomia estratégica e autossuficiência. O crescimento económico mundial ficaria limitado a cerca de 1,8% ao ano, sustentado sobretudo por despesa pública em segurança, pensões e mitigação climática.

Segundo Pedro Pereira, um cenário deste tipo teria efeitos severos em setores nacionais como o turismo, a exportação industrial e os serviços, precisamente por dependerem da abertura dos mercados e da fluidez das cadeias internacionais.

IA, clima e trabalho redesenham a economia

No extremo oposto surge o cenário de “Abundância de Inteligência Artificial”, em que a cooperação global em normas de IA acelera a produtividade, democratiza o acesso à tecnologia e impulsiona a produção de energia de baixo carbono. Neste cenário, o PIB global mais do que triplicaria, crescendo cerca de 5% ao ano entre 2025 e 2050.

O impacto no trabalho seria também profundo: as horas médias trabalhadas poderiam cair cerca de 25%, com semanas de quatro ou mesmo três dias a generalizarem-se em algumas regiões.

Outro cenário, designado “Coligação climática”, parte de uma sucessão de fenómenos meteorológicos extremos no final da década de 2020 para projetar uma resposta coordenada de governos, empresas e consumidores. Neste caso, a resiliência climática passaria para o centro da agenda económica. O aquecimento global estabilizaria em cerca de 1,8 ºC, os mercados de carbono expandir-se-iam à escala global e a quota dos combustíveis fósseis no mix energético cairia dos atuais 81% para 35% em 2050.

Já o cenário de “Darwinismo digital” antecipa um mundo em que o progresso tecnológico continua acelerado, mas com regulação limitada. O PIB global cresceria cerca de 4% ao ano e quase triplicaria até 2050, mas com forte concentração de riqueza e poder. O 1% mais rico poderia deter quase metade da riqueza mundial, enquanto a classe média continuaria a encolher e a gig economy ganharia peso, impulsionada pela automação e pela substituição de tarefas rotineiras baseadas no conhecimento.

Empresas devem preparar-se para vários futuros

Embora os quatro cenários sejam distintos, o estudo identifica forças transversais: maior volatilidade geopolítica, transformação acelerada do trabalho pela IA, pressão demográfica crescente e custos climáticos inevitáveis.

Para as empresas portuguesas, muitas delas PME com recursos limitados para grandes apostas estratégicas, o desafio não está em tentar prever qual destes cenários se concretizará, mas em desenvolver capacidade de leitura e adaptação.

“O imperativo não é prever qual destes mundos vai materializar-se. É construir a agilidade para reconhecer, rapidamente, em que direção o mundo está a mover-se, e ter a capacidade de ajustar a estratégia antes que a janela se feche”, defende Pedro Pereira.

Num contexto em que as cadeias de abastecimento continuam expostas a tensões geopolíticas, transição energética, reconfiguração dos fluxos comerciais e transformação tecnológica, o estudo reforça uma ideia central: a resiliência deixou de ser uma resposta a crises pontuais para passar a ser uma competência estratégica permanente.

 

Os quatro cenários para a economia mundial em 2050
Cenário O que pressupõe Principais impactos
Abundância de Inteligência Artificial Cooperação global em normas de IA, aceleração da produtividade, democratização do acesso à tecnologia e maior oferta de energia de baixo carbono. O PIB global mais do que triplica, com crescimento médio de cerca de 5% ao ano entre 2025 e 2050. As horas médias de trabalho caem cerca de 25%, podendo generalizar-se semanas de quatro ou três dias em algumas regiões. Os avanços associados à IA colocam o mundo numa trajetória credível, ainda que tardia, rumo à neutralidade carbónica.
Blocos em confronto Tensões geopolíticas dividem o mundo em blocos rivais, reduzem a cooperação internacional e reorganizam o comércio mundial. O comércio global cai para cerca de 35% do PIB, face a 57% em 2024, invertendo décadas de globalização. A despesa em defesa sobe para cerca de 7% do PIB global e o crescimento mundial abranda para cerca de 1,8% ao ano.
Coligação climática Fenómenos meteorológicos extremos no final da década de 2020 levam governos, empresas e consumidores a colocar a resiliência climática no topo da agenda. O aquecimento global estabiliza em cerca de 1,8 ºC. Os mercados de carbono expandem-se à escala global e a quota dos combustíveis fósseis no mix energético desce dos atuais 81% para 35% em 2050. O PIB mundial cresce, em média, 2,5% ao ano.
Darwinismo digital O progresso tecnológico mantém-se acelerado, mas com regulação limitada, concentrando riqueza e poder nas maiores empresas e nos países tecnologicamente mais avançados. O PIB global cresce cerca de 4% ao ano e quase triplica até 2050. O 1% mais rico detém quase metade da riqueza mundial, a classe média continua a encolher e expandem-se a gig economy e os contratos de curta duração. A despesa em defesa sobe para cerca de 4% do PIB, embora comércio e cadeias de abastecimento se mantenham abertos por interesses económicos.