O encerramento do Estreito de Ormuz e a escalada dos custos energéticos estão a agravar a pressão sobre a indústria química global. Segundo a Crédito y Caución, se o bloqueio se prolongar durante vários meses, a produção do setor poderá cair 1,7% em 2026, com a Europa entre as regiões mais expostas.

O fecho do Estreito de Ormuz está a lançar nova incerteza sobre a indústria química global, num momento em que o setor já enfrenta custos energéticos elevados, tensão comercial e pressão crescente para investir em transformação tecnológica. De acordo com uma análise da Crédito y Caución, a duração do bloqueio será decisiva para o desempenho da produção química ao longo de 2026.

A importância estratégica da região do Golfo ajuda a perceber a dimensão do risco. A zona concentra cerca de metade das exportações mundiais de etilenoglicol e quase 40% de metanol, duas matérias-primas essenciais para a produção de plásticos e de vários químicos industriais. Qualquer perturbação prolongada nesta rota tem impacto direto no abastecimento e nos custos de produção em múltiplas cadeias industriais.

A seguradora de crédito traça dois cenários possíveis. No cenário base, que pressupõe a reabertura do Estreito de Ormuz ainda durante o mês de maio, a produção química global deverá crescer apenas 0,6% em 2026. Já num cenário mais adverso, em que o encerramento se prolonga até setembro, a projeção aponta para uma contração de 1,7%.

O efeito não se limita ao setor químico. Como os produtos químicos estão presentes numa vasta gama de processos industriais, o agravamento dos preços do petróleo e do gás repercute-se nos custos de fabrico, nos preços à produção e, em última instância, na inflação suportada pelo consumidor final.

Na Europa, o quadro é particularmente exigente. A Crédito y Caución antecipa uma quebra de 2,2% na produção química europeia, num contexto em que a subida recorrente do preço do gás continua a fragilizar a competitividade da indústria regional. O contraste com outros mercados é claro: na China, os produtores recorrem cada vez mais a matérias-primas baseadas em carvão, enquanto nos Estados Unidos o impacto dos preços energéticos tem sido mais moderado, favorecendo a posição dos fabricantes norte-americanos.

A pressão sobre as empresas europeias não se resume à energia. O setor enfrenta também exigências crescentes de investimento em automação, digitalização e descarbonização. As pequenas e médias empresas, sobretudo as que não dispõem de cobertura energética nem de capacidade financeira para acelerar esta transição, surgem entre as mais vulneráveis. O reflexo dessa perda de competitividade já se nota na quota europeia do mercado químico global, que caiu de cerca de 20% em 2014 para 14% em 2024.

Perante este contexto, a Crédito y Caución reviu em baixa as perspetivas de desempenho e o risco de crédito das empresas químicas industriais em países como Bélgica, Itália, Países Baixos e Reino Unido.

Outro fator de risco identificado é o potencial redirecionamento de produtos químicos chineses, inicialmente destinados ao mercado dos Estados Unidos, para outras geografias, em particular a Europa. Esse desvio poderá aumentar a pressão sobre os produtores europeus, ao introduzir no mercado volumes adicionais de produto a preços mais baixos, penalizando a procura interna e a produção local.

A seguradora conclui, por isso, que a indústria química entra em 2026 exposta a um conjunto alargado de ameaças: disrupções geopolíticas, preços energéticos voláteis, protecionismo, fragilidade logística e necessidade urgente de modernização. Num setor estrutural para múltiplas cadeias industriais, o impacto do que acontece em Ormuz pode ir muito além da química.

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