Melissa Vale analisa, neste artigo de opinião, o lançamento do novo serviço Amazon Supply Chain Services (ASCS). Ao unificar a sua rede e a abri-la a qualquer setor, a Amazon está a colocar as empresas entre a espada e a parede: abraçar a eficiência máxima ou proteger a independência e a soberania dos próprios dados.

É sabido que a Amazon tem frota própria, armazéns, aviação de carga e redes de entrega de última milha. O que mudou, em maio de 2026, foi outra coisa: ela decidiu abrir essa infraestrutura a qualquer empresa, em qualquer setor, independentemente de vender na plataforma Amazon. O serviço chama-se Amazon Supply Chain Services (ASCS). E o próprio paralelo que a Amazon usa para o descrever é revelador. 

A Amazon está a trazer a infraestrutura, a inteligência e a escala dos seus serviços de supply chain a empresas de todo o mundo, tal como a Amazon Web Services fez para a computação em cloud. (Amazon, 2026) 

O que é o ASCS, concretamente?

Organiza-se em quatro serviços distintos, que podem ser contratados de forma independente ou combinada, sem contratos de longo prazo obrigatórios. 

  • Freight: frete multimodal suportado por mais de 80.000 reboques, 24.000  contentores intermodais e mais de 100 aeronaves. Inclui desalfandegamento e rastreamento de ponta a ponta.
  • Distribution & Fulfillment: armazenamento centralizado com gestão de inventário unificada para múltiplos canais, incluindo grossista, direto ao consumidor, redes sociais e lojas físicas. 
  • Parcel Shipping: entregas em 2 a 5 dias, 7 dias por semana, com rastreamento desde a criação da etiqueta até à entrega, incluindo  fotografia no momento da entrega. 
  • Amazon Managed Service: gestão desde a fábrica ao cliente final, com reabastecimento automático de inventário por IA. A Amazon reporta um aumento médio de 15% nas vendas unitárias para empresas neste modelo. 

O impacto nos grandes operadores logísticos 

No próprio dia do anúncio, as ações da FedEx e da UPS caíram 10%. Analistas prevêem impacto significativo em transportadoras aéreas, operadores de  armazéns e armadores marítimos. O ASCS entra pelo mercado de operadores logísticos terceirizados (3PL) com escala, dados e IA que poucos conseguem igualar.

Porém, os operadores tradicionais têm algo que a automação ainda não compra: décadas de relações B2B construídas, conhecimento regulatório profundo em setores como farmacêutico, automóvel e industrial, e capacidade de resposta a operações complexas e atípicas. 

Os mais ameaçados de forma imediata são os operadores de médio porte que competem em preço e volume sem diferenciação clara. Para quem compete por especialização setorial, a pressão não é imediata. 

O que ganham as empresas que aderirem 

  • Consolidação de fornecedores: um único interlocutor para frete, armazenagem, distribuição e entrega final simplifica a gestão operacional. 
  • Acesso a modelos de previsão por IA: os algoritmos testados com biliões de encomendas ficam disponíveis para otimizar posicionamento de inventário. 
  • Escalabilidade sem investimento de capital: acesso a uma rede global sem construir infraestrutura própria. 
  • Flexibilidade contratual: sem compromissos obrigatórios de longo prazo ou adopção total do serviço. 

Os riscos que não devem ser ignorados 

  • Dependência operacional: transferir a gestão da cadeia para a Amazon cria uma dependência estrutural. Mudar de fornecedor depois de integrado é custoso e demorado. 
  • Acesso aos dados da empresa: a Amazon terá visibilidade sobre volumes, rotas, fornecedores e padrões comerciais dos seus clientes. Para empresas que concorrem em categorias onde a Amazon também atua diretamente, esta não é uma decisão neutra. 
  • Adequação a operações complexas: cadeias industriais com requisitos regulatórios exigentes ou especificações de manuseamento muito próprias podem não encontrar no ASCS a flexibilidade necessária. 
  • Cobertura europeia ainda irregular: a infraestrutura do ASCS está  construída à escala dos EUA. A expansão internacional é real, mas desigual, o que é relevante para operações que dependem de cobertura local na Europa.

Relevância no contexto da crise energética atual 

A instabilidade geopolítica no Estreito de Ormuz está a encarecer o frete marítimo e a pressionar o transporte rodoviário europeu. Num momento em que os custos operacionais sobem, otimizar rotas por IA, posicionar inventário próximo da procura e redirecionar fluxos em tempo real tem valor económico direto.  

A questão em aberto é se as empresas europeias terão acesso às mesmas condições e tarifas que os clientes norte-americanos. 

Uma reflexão para a comunidade 

A Amazon não inventou o frete, o armazém ou a entrega de encomendas. O que fez foi integrar tudo numa rede única, e declarar que essa rede está agora disponível para qualquer empresa no mundo. Para os operadores logísticos a pergunta não é se o ASCS é uma ameaça. É em que segmentos, a que velocidade, e com que intensidade. Para as empresas a pergunta é: que parte da minha operação beneficia desta infraestrutura? E que parte da minha informação comercial estou disposto a partilhar? 

Melissa Vale | Supply Chain Specialist