Entre o local e o global, o que muda? A escala ou também as soluções? A resposta foi dada no segundo dia da SCM Conference por Maria Joana Viana (Sonae MC) e Nuno Sousa Santos (AMGEN). E mostrou diferenças significativas que assentam sobretudo nos condicionamentos de cada setor de atividade. No Pharma, por exemplo, há menos margem para improviso do que no retalho. E no retalho o custo e a eficiência sobrepõem-se, enquanto na indústria farmacêutica a continuidade do serviço vem primeiro.

Quem subiu ao palco foi a Area Manager – Transport Commercial & Efficiency da Sonae MC e o Suppy Chain & Business Enablement Manager Asia Pacific & Japan da AMGEN, mas a reflexão estendeu-se a toda a audiência, convidada a responder a um quizz em tempo real.

E as respostas não se fizeram esperar, primeiro para eleger qual a supply chain mais difícil de gerir. O retalho venceu, com a logística de transportes em segundo e a indústria farmacêutica em terceiro lugar. Uma escolha em que, naturalmente, os dois oradores não coincidem.

E a que nível é testada a resiliência das empresas? As respostas convergiram na análise de que este é um tema crítico. Na indústria farmacêutica, segundo Nuno Sousa Santos, tem de estar presente ao nível da administração, desde logo porque o setor é muito regulamentado, além de que, falando-se de empresas globais, operam em países muito distintos, com autoridades e regras também elas distintas. Neste contexto, as decisões requerem um planeamento maior, por comparação com o retalho, em que há mais margem para a flexibilidade.

Questionados sobre o que pesa mais nas decisões das empresas perante uma disrupção, os participantes na SCM Conference dividiram-se, com cerca de metade das respostas a privilegiarem a continuidade do serviço, enquanto 32% optou pelo custo-eficiência. E, mais uma vez, o retalho e a indústria farmacêutica estão em campos opostos, não só pela dualidade entre uma empresa local e outra global, mas sobretudo pela natureza do negócio. Na AMGEN, que trabalha com mercados muito distintos, nomeadamente da Ásia Pacífico, e envolvendo cerca de 5,7 milhões de pacientes, a continuidade do serviço sobrepõe-se ao custo. Já na Sonae MC, como afirmou Maria Joana Viana, a eficiência fala sempre mais alto, “embora sem afetar a qualidade”

São diferenças que não se esbatem quando o tema é a resposta a situações de crise. De novo emergiu a dialética improviso versus preparação. Situações como as geradas pelo apagão ou pelas intempéries obrigam uma empresa de retalho como a Sonae MC a ir para lá dos planos de contingência, dependendo das pessoas e da sua capacidade de reação para ultrapassar os obstáculos e manter a operação a funcionar. Já na indústria farmacêutica, as crises enfrentam-se com planeamento, devido às condicionantes regulamentares.

Mas, será que as organizações conhecem os seus pontos únicos de falha? Estão claramente mapeados ou nem por isso? A resposta ficou a meio caminho, com a maioria dos participantes na sondagem a optar por “parcialmente”. E, depois de resolvido o problema, o que acontece realmente? A organização adotada medidas pontuais ou estruturais? Metade da sala convergiu em que houve melhorias, mas apenas pontuais e só um quarto identificou melhorias duradouras.

Questionada sobre o maior risco para a sua supply chain, a plateia inclinou-se para a geopolítica (55% das respostas), com 24% a apontar a pressão de custos. Respostas que Nuno Sousa Santos qualificou de “politicamente corretas”, por, na sua opinião, os fornecedores terem ficado de fora da equação.

Finalmente, uma provocação: quando há problemas na supply chain, de quem é a culpa? “Minha” foi a resposta da maioria dos profissionais presentes na sala, contrariando a expectativa dos mobilizadores do debate, que esperavam ver recair a escolha no departamento comercial.

Nos comentários às respostas, o denominador comum foi a divergência de visões entre o porta-voz da AMGEN e a representante da Sonae MC, uma divergência no imediato ancorada na escala de cada uma das empresas, mas, sobretudo, na natureza de cada um dos setores, a impor soluções de contornos bem distintos.