As tensões geopolíticas são um dos fatores que mais cria disrupções nas cadeias de abastecimento globais, e que mais dita a reorganização do mundo. Por isso, este tópico não  podia ficar de fora da SCM Conference 2026. 

Tiago Devesa, Senior fellow do McKinsey Global Institute, demonstrou como o mundo está atualmente organizado e o consequente impacto no comércio internacional. A sua intervenção começou com um facto: “Não há nenhum cenário em que o mundo desglobaliza, e isso só é possível devido ao comércio internacional”. Isto porque não existe nenhuma região que seja autossuficiente. De acordo com os dados trazidos por Tiago Devesa, todas as regiões dependem, pelo menos, 25% de outras, e essa é a razão pela qual o mundo se manterá interligado. Contudo, esta interdependência é impactada quando é interrompida ou quando está em risco. E, hoje em dia, devido às tensões geopolíticas, os países estão a reavaliar as suas dependências. 

Apesar das disrupções, o comércio internacional cresceu mais do que a economia global, segundo o analista. No entanto, o cenário está a mudar. A distância do comércio internacional está a decrescer, e países que estão geopoliticamente mais distantes estão a negociar menos. Já os que se encontram mais perto, estão a negociar mais. A China e os Estados Unidos são um dos exemplos, visto que a ligação de comércio entre ambos é, atualmente, de apenas 2%. Uma das potenciais vantagens desta realidade, é que se podem criar mais pontes entre países que se encontram no meio, e as supply chains podem tirar partido disso. 

Tiago Devesa identificou alguns exemplos que demonstram como o comércio internacional está  a mudar, como o facto de, no ano passado, os Estados Unidos terem comprado mais ao Vietname e menos à China, bem como o facto de a China estar a alterar o tipo de produtos que exporta, menos bens finais e mais bens intermédios. No meio disto está a Europa, que está a perder competitividade para os dois blocos.  A mensagem de que a Europa está a perder autonomia foi corroborada por Cristian Ferreyra, do Council of Supply Chain Management Professionals (Spain Roundtable). 

Esta conclusão resulta de uma análise que começa na tecnologia. Cristian Ferreyra começou por afirmar que a logística tradicional foi transitando gradualmente para a área digital. A pandemia potenciou o e-commerce, desenvolveram-se os marketplaces, e atualmente temos o crescimento da Inteligência Artificial (IA). Tudo isto afeta os negócios, não só a nível de gestão, mas também na distribuição e canais de venda. “Os logísticos têm de falar a mesma língua que a tecnologia”, dizia o orador, sublinhando a importância dos negócios se adaptarem às mudanças. O papel da Europa nesta questão deveria ser mais ativo. 

A maioria dos sistema de IA que são utilizados hoje (OpenAi, Gemini, Claude, entre outros) são americanos ou chineses, dos quais a Europa já depende. Os tão falados chips, a Europa adquire-os de outras geografias, como por exemplo Taiwan. A matéria-prima é importada da China ou de África. “A supply chain na Europa opera uma das redes logísticas mais fragmentadas do mundo”, informava Cristian Ferreyra. Assim, destacou o que pode ser feito para reverter esta posição: fazer da IA uma “fonte aberta” (open source), criar núcleos em que a tecnologia possa ser acessível, impulsionar iniciativas e acordos internacionais para aceder a matérias-primas e criar condições para o fabrico próprio de chips.